/head «A minha religião diz-me que Deus criou o universo. A minha ciência diz-me como é que Ele o fez» | Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

«A minha religião diz-me que Deus criou o universo. A minha ciência diz-me como é que Ele o fez»

No alto do Monte Graham, no Arizona, EUA, escondido numa floresta, há um telescópio. É um dos vários no Observatório Internacional ali localizado. Mas este está especialmente preocupado com os céus; é operado pelo Observatório do Vaticano.

Sim, a Igreja Católica tem o seu próprio observatório astronómico. A instituição astronómica do Vaticano remonta, pelo menos, a 1891, e mostra que a Igreja é uma participante ativa no mundo científico. O seu observatório deu-nos a primeira prova fotográfica do flash verde ao pôr do sol. E os investigadores ainda continuam a pesquisar questões sobre planetas e asteroides próximos, bem como galáxias muito, muito distantes.

A observação não se realiza no Vaticano há muito tempo; Roma é demasiado poluída pela luz. O Ir. Guy Consolmagno reside perto do telescópio do Arizona. Ele é religioso jesuíta, mas também cientista planetário. E dirige o Observatório do Vaticano.

Tendo em conta os planos da agência espacial dos EUA, NASA, para reenviar pessoas à Lua em 2024, e o entusiasmo bilionário da tecnologia para enviar a humanidade para o espaço, queria perguntar a Consolmagno sobre a relação entre seres humanos e o espaço, tanto do ponto de vista científico quanto religioso.

Mais especificamente, queria perguntar-lhe sobre a tensão que eu entrevia entre o seu papel como cientista e o seu papel na Igreja. Os astrónomos buscam ativamente sinais de vida noutros mundos. Eu perguntava-me o que significaria para o catolicismo se eles o encontrassem.

Acontece que ele não vê essa tensão.

A nossa conversa, editada para maior clareza e duração, aborda o trabalho que o Observatório do Vaticano realiza, como Consolmagno lida com grandes questões filosóficas, e como, a seu ver, ciência e religião se aprimoram e complementam.

 

Como é que alguém se torna astrónomo do Vaticano?

Fui cientista durante 20 anos [anos 70 e 80] … Eu estava com 40 anos. Pensei que, se me juntasse aos Jesuítas como irmão, talvez pudesse ensinar numa universidade jesuíta. Quando entrei para os Jesuítas, tudo o que eles pediram foi fazer os três votos: pobreza, castidade, obediência. Pobreza, estava habituado - tinha sido um estudante de doutoramento. Castidade, estava habituado - tinha sido um estudante de doutoramento. Mas essa coisa de obediência? Isso era novo. Eles têm controle sobre onde é que se trabalha. E disseram-me que, com a minha formação, com o meu doutoramento em ciências planetárias, eu iria para o Observatório do Vaticano.

 

Como é que é um dia da sua vida?

Acontece que um nobre francês tinha doado mil meteoritos ao Vaticano. Então, um dia típico quando eu apenas me divertia como cientista era: eu descia para o meu laboratório, media meteoritos durante algumas horas, fazia uma pausa para tomar um café (porque na Itália é assim), e depois voltava e registava as medidas. Mas ... em 2015, o papa estava à procura de um novo diretor [do Observatório], porque o antigo tinha concluído o seu mandato de 10 anos, e disse: «Tu és o novo diretor». «Sim senhor.» Porque isso é obediência.

 

Se pudesse ter qualquer amostra de qualquer parte do Sistema Solar à sua frente, para a observar ou examinar, qual escolheria?

Gostaria de um metro cúbico da água proveniente do oceano sob a crosta de gelo da Europa.

 

Porquê?

Há muito que podemos aprender! Primeiro de tudo: há vida nessa água? E se não, por que não? Todos os ingredientes devem estar lá para o tipo de química que nos dá vida. E não se trata só de grande ciência, mas também há uma ligação pessoal. Foi a primeira peça de ciência em que trabalhei quando estava no MIT, e escrevi uma tese de mestrado sobre as águas sob a crosta de gelo das luas geladas. Adoraria descobrir ... quanto acertei? Quanto errei? Acho que este é o lugar mais provável em que encontraremos vida que não foi contaminada pelo que quer que tenha começado a vida na Terra. Uma evolução separada da vida.

 

O que significaria para o catolicismo descobrirmos vida inteligente noutro lugar?

Já temos [partes das Escrituras] que dizem que não somos as únicas coisas inteligentes feitas por Deus. Isso já está incluído no sistema. Há lugares maravilhosos [na Bíblia] onde um fazendeiro fala sobre as estrelas, bradando de alegria com o seu criador. Não sabemos do que estamos a falar. E desde que percebamos que é divertido fazer hipóteses, é divertido divertirmo-nos com as ideias.

 

Penso que existe a perceção de que, na religião - e, por favor, corrija-me se estiver errado -, a humanidade é vista como figura ou presença central. E pergunto-me se isso choca com a ideia de que somos loucamente, infinitesimalmente insignificantes em comparação com o tamanho do universo.

É uma pergunta complicada. A religião nunca quis dizer que os seres humanos eram o centro do universo. Esse é um mal-entendido da antiga cosmologia. A Terra estava no fundo do universo. Pense na imagem de Dante, quando tentava descrever, na sua visão medieval, o inferno lá em baixo - no centro da Terra. Isso tornaria o inferno a parte mais importante do universo. Não! É exatamente o oposto. Estamos, nessa visão medieval, numa cadeia de criação, e estamos o mais longe possível da ação. Somos insignificantes. É isso que torna a ideia da salvação tão incompreensível. Que um Deus que se considera que teria coisas melhores para fazer se importaria com o planeta Terra. Isso é que é surpreendente. E só se recupera esse sentimento de espanto se se perceber o quão pequeno e insignificante nós , de outra forma, pareceríamos.

As pessoas que escreveram o Génesis, capítulo 1, que foi a melhor ciência aos seus dias, há 2500 anos, disseram que a Terra era uma planura com uma cúpula sobre ela, e água acima e abaixo da cúpula, e é isso que se vê quando se olha para fora. E maior que isso foi o Deus que o criou. Era um Deus realmente grande. Hoje, vemos um universo que só podemos ver a 13,8 mil milhões de anos-luz em todas as direções. E maior que isso foi o Deus que o criou.

 

Parece que está a dizer que a relação entre ciência e fé é realmente muito forte.

A resposta do género “soundbite” que posso pensar é: a minha religião diz-me que Deus criou o universo. A minha ciência diz-me como é que Ele o fez. Mas há mais do que isso, e regresso a uma escritora de ficção científica, Teresa Nielsen Hayden. Ela tem um ensaio maravilhoso que começa assim: «Eu acredito no Deus dos Xistos de Burgess». O que são os Xistos de Burgess? É uma das belas regiões geológicas no oeste do Canadá, onde se pode ver toda a sequência estratigráfica de fóssil após fóssil após fóssil. E pode ver-se na face de uma rocha toda a evolução descrita. E o argumento dela era de que um Deus que criou o universo assim, e depois nos mostra como foi feito, quer que sejamos cientistas. Está a tentar bradar para nós: «É aqui que tu me vais encontrar!».

 

Há tensão entre ciência e religião?

Tensão não é a palavra certa, mas existe um relacionamento. E como em qualquer tipo de relacionamento, haverá sempre problemas. Mas são bons problemas. A razão pela qual temos coragem de fazer a ciência é porque acreditamos num universo que é consistente e lógico, que segue leis, e que é tão bom que vale a pena gastar a vida a estudá-lo. Mesmo que eu não consiga encontrar uma resposta puramente económica que justifique por que vale a pena fazê-lo. … As pessoas que desejam criar um conflito entre uma ou outra geralmente têm uma agenda. Estão a tentar vender o lado deles. E querem colocar o outro lado como inimigo. Vimos como isso funciona na política: muito mal. E é muito mau para a ciência e para a religião.

 

Toda gente a quem eu disse, na nossa redação, que ia falar com o astrónomo do Vaticano, perguntou: «E Galileu?».

Ah! Tudo o que você sabe sobre o Galileu está, provavelmente, errado; o caso Galileu estava muito ligado à política e personalidades locais. Quando se lê o que realmente estava a acontecer, não é o mito que se aprende. Mas a verdade não faz a Igreja parecer melhor. Porque somos seres humanos! Fazemos coisas estúpidas! Sou um cientista, e, como cientista, fiz coisas estúpidas. Mas o facto é que temos de abraçar os nossos erros. Temos de reconhecer que, no final das contas, ainda não conhecemos toda a ciência. Caso contrário, por que pediria dinheiro para fazê-lo novamente no próximo ano? E não entendemos totalmente Deus. É por isso que todos os domingos voltamos atrás e rezamos. Para tentar descobrir ... entendi corretamente? E o que é que eu deveria estar a fazer agora?


 

Byrd Pinkerton
In Vox
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Guy Consolmagno | D.R.
Publicado em 26.12.2019

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos