Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

A nossa oração, pão para todos

«Que futuro? Deves esperar pacientemente, na oração e na paz… Aconselho-te a não pensar demasiadamente no facto de seres feliz ou não… Não temos qualquer direito de refugiar-nos numa felicidade que grande parte do mundo não pode compartilhar.» Quem é o autor desta carta e a quem a endereçou diremos depois. Por agora, façamos nós tesouro dela. São dias, estes, em que o futuro nos parece nublado, incerto; dias em que nos sentimos confusos, desorientados.

Todavia, quem tem confiança no Evangelho sabe que Jesus nunca nos enganou, mesmo quando se torna difícil aderir aos seus convites, aos seus pedidos, aos seus mandamentos. Tudo está nas mãos do bom Deus. Mão confiáveis mais do que as nossas, mãos amorosas para lá de tudo o que se possa dizer. Mãos nodosas e ternas. «Só em Deus repousa a minha alma.»

Um futuro, no entanto, a esperar «pacientemente». Nem sempre a virtude da paciência gozou de boa fama, sobretudo no nosso tempo. Desde que o mundo nos chegou a casa, e até ao bolso, muitos convenceram-se de que podem passar sem ela e deram-lhe carta de despedimento. Hoje, isolados, por dever e por amor, estamos a redescobri-la.

E damo-nos conta de que nos presta um excelente serviço, coloca-nos em contacto com aquela parte de nós que não grita, não aparece, não recrimina. Faz-nos descer às sinuosidades do nosso ser mais profundo, onde somos mais verdadeiros, a mentira cala e o mistério é grande. Faz-nos redescobrir a importância da sua maior amiga, a prudência, também ela demasiadas vezes maltratada. A paciência cristã, no entanto, não é mera resignação. O pai espiritual que estamos a tomar em consideração recorda ao seu filho que deve saber esperar, sim, mas «na oração e na paz».

A fé alimenta-se de oração; não foi por acaso que Jesus nos aconselhou a orar sempre. Gerações de cristãos, monges, consagrados, santos, rezaram tanto, que a nós, não poucas vezes, nos pareceram exagerados. Orar, sim, mas quando me apetece, quando sinto necessidade, quando o tempo, a arte, a música, conseguem emocionar-me.



Uma fé que se compraz em permanecer abrigada no templo de Deus enquanto os irmãos sofrem, têm medo, morrem, inquieta não pouco. Uma fé que não sabe escancarar as portas à caridade e à esperança, em pouco tempo implode, seca, morre



O tempo – pensávamos – é pouco, e deve ser usado bem. Pelo que, entre as muitas responsabilidades diárias, chegados à noite, era sempre a oração, a meditação, a reflexão que se adiavam. Rezar seriamente é árduo? Sim. Tudo aquilo que vale a pena, custa. Os resultados, porém, não tardam a chegar. Questão de amor. Quem ama sente a necessidade de permanecer com a pessoa amada.

«Permanecei no meu amor», pede-nos Jesus. Nestas horas difíceis e dolorosas estamos a redescobrir a alegria de permanecermos juntos. Como, infelizmente, não poucas vezes acontece, damo-nos conta de quanto éramos ricos só depois de termos caído na pobreza. Pecado. Muitas vezes fomos ingratos com o ar, a terra, a água, o pão, os amigos. Era normal que existissem. Mas o que quer dizer “normal”? Nada é normal.

Tudo é extraordinário. É belíssimo, acertado, humano invocar os milagres. O próprio Jesus convidou-nos a fazê-lo. Quem disse para bater, pedir, buscar sem cessar. Queremos insistir, insistimos, fazemo-lo ainda, certos de que o seu coração não saberá suster o nosso pranto. Por amor da verdade, é preciso acrescentar, porém, que de milagres estamos inundados. Sempre. Cada respiro, cada batimento do coração, pensamento, medo, esperança, é um milagre, Somos, poderíamos não ser, mas somos. E, para além de toda a aparência, continuaremos a ser também depois. O imenso milagre da nossa vida que brota da sua vida. Não temos qualquer direito de refugiar-nos numa felicidade que grande parte do mundo não pode compartilhar», continua o nosso autor.

Ou se é feliz estando juntos, ou ninguém o será verdadeiramente. Em particular, não se iludam sê-lo os amigos de Jesus. É preciso aprender a parti-la, esmigalhá-la, a felicidade; compartilhá-la, dá-la, respirá-la juntamente com os mais pobres, inclusive e sobretudo aquela que nos vem da fé. Uma fé que te impele a procurar os outros, para os conduzir à única Fonte que dessedenta. Uma fé que se compraz em permanecer abrigada no templo de Deus enquanto os irmãos sofrem, têm medo, morrem, inquieta não pouco. Uma fé que não sabe escancarar as portas à caridade e à esperança, em pouco tempo implode, seca, morre. Façamos tesouro, nestes dias, destas palavras escritas por Thomas Merton a Ernesto Cardenal em agosto de 1959.


 

Maurizio Patriciello
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Nomad Soul/Bigstock.com
Publicado em 19.03.2020

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos