Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Leitura: “A oração – Alento de vida nova”

«Esta é a vida nova, a vida que Deus Pai nos oferece mediante o Batismo. É nova porque é outra vida em relação à nossa, porque é precisamente a sua vida, é a própria vida de Deus»: este é um excerto do texto inédito do papa Francisco publicado no livro “A oração – Alento de vida nova”, lançado esta semana em Portugal pela Paulinas Editora.

«Desde o dia da sua eleição para a sede pontifícia, a 13 de março de 2013, durante os encontros oficiais e não-oficiais, e no decorrer dos encontros com os fiéis, Sua Santidade dirige sempre a todos o mesmo pedido: “Rezai por mim!” Isso revela a importância por ele atribuída à oração. Naturalmente, as reflexões reunidas neste livro estão marcadas pela sua experiência pessoal: as palavras não são abstratas, derivam da sua vivência», escreve Kirill, patriarca de Moscovo e de todas as Rússias na introdução.

Além da reflexão que se publica pela primeira vez, intitulada “Alento de vida nova”, que abaixo transcrevemos parcialmente, o volume seleciona um conjunto de meditações sobre a oração cristã proferidas por Francisco ao longo dos seus sete anos de pontificado, de que também oferecemos alguns fragmentos.

 

Abandonar tudo a Deus

A oração não é uma boa prática para termos um pouco de paz no coração; e nem sequer é um meio devoto para obtermos de Deus aquilo de que precisamos. Se assim fosse, seria movida por um egoísmo subtil: eu rezo para me sentir bem, como se tomasse uma aspirina. Não, não é assim. Eu rezo para obter isto. Mas rezar assim é fazer um negócio. Não é isso. A oração é outra coisa, é outra coisa. A oração, pelo contrário, é uma obra de misericórdia espiritual, que pretende colocar tudo no coração de Deus. «Toma-nos Tu, que és Pai.» Seria isso, para o dizer de uma forma simples. A oração é dizer: «Toma-nos Tu, que és Pai. Guarda-nos Tu, que és Pai.» É esta relação com o Pai. A oração é assim. É um dom de fé e de amor, uma intercessão da qual precisamos como do pão. Numa palavra, significa confiar: confiar a Igreja, confiar as pessoas, confiar as situações ao Pai – «confio-te isto» –, para que Ele as tome a seu cargo. Por isso, a oração, como tanto gostava de dizer o Padre Pio, é a melhor arma que temos, uma chave que abre o coração de Deus. Uma chave que abre o coração de Deus: é uma chave fácil. O coração de Deus não é «blindado», com muitos dispositivos de segurança. Tu podes abri-lo com uma chave comum, com a oração. Porque Deus tem um coração de amor, um coração de Pai. É a maior força da Igreja, que nunca devemos deixar, porque a Igreja dá fruto se fizer como Nossa Senhora e os Apóstolos, que eram perseverantes e estavam unidos na oração (cf. At 1,14), enquanto esperavam o Espírito Santo. Perseverantes e unidos na oração. Caso contrário, corremos o risco de nos apoiarmos noutras coisas: nos meios, no dinheiro, no poder; depois a evangelização dissipa-se, a alegria apaga-se e o coração enche-se de tédio. Quereis ter um coração cheio de tédio? [As pessoas: «Não!»] Quereis ter um coração alegre? [«Sim!»] Rezai! É esta a receita.

 

Com insistência

Clamar a Deus dia e noite! Impressiona-nos esta imagem da oração. Mas interroguemo-nos: porque quer Deus isto? Por ventura Ele ainda não conhece as nossas necessidades? Que sentido tem «insistir» com Deus?

Eis uma boa pergunta, que nos faz aprofundar um aspeto muito importante da fé: Deus convida-nos a rezar com insistência não por não saber de que é que nós precisamos nem porque não nos escuta. Pelo contrário, Ele escuta sempre e conhece tudo acerca de nós, com amor. No nosso caminho quotidiano, sobretudo nas dificuldades, na luta contra o mal dentro e fora de nós, o Senhor não está longe, está ao nosso lado; nós lutamos com Ele ao nosso lado, e a nossa arma é precisamente a oração, que nos faz sentir a sua presença ao nosso lado, a sua misericórdia, inclusive a sua ajuda. A luta contra o mal, porém, é dura e longa, requer pa ciência e resistência – como Moisés, que devia manter os braços erguidos para que o seu povo pudesse vencer (cf. Ex 17,8-13). É assim: há uma luta a travar em cada dia; no entanto, Deus é o nosso aliado, a fé nele é a nossa força, e a oração é a expressão dessa fé. Por isso, Jesus garante-nos a vitória, mas no fim interroga-se: «Quando o Filho do Homem voltar, encontrará a fé sobre a Terra?» (Lc 18,8). Se a fé se apaga, apaga-se a oração, e nós caminhamos no escuro, perdemo-nos no caminho da vida.

Aprendamos, portanto, com a viúva do Evangelho, a rezar sempre, sem nos cansarmos. Era valente, esta viúva! Sabia lutar pelos seus filhos! Faz-me pensar em tantas mulheres que lutam pela sua família, que rezam, que nunca se cansam. Recordemos hoje, todos nós, estas mulheres que, com a sua atitude, nos dão um verdadeiro testemunho de fé, de coragem, um modelo de oração. Recordemo-las! Rezai sempre, mas não para convencer o Senhor à força de palavras! Ele sabe melhor do que nós aquilo de que nós temos necessidade! A oração perseverante, pelo contrário, é expressão da fé num Deus que nos chama a combater com Ele, em cada dia, a cada momento, para vencer o mal com o bem.

 

Pelos familiares doentes

A Igreja convida-nos à oração contínua pelos que nos são queridos e que foram atingidos pelo mal. A oração pelos doentes nunca deve faltar. Ou antes, devemos rezar mais por eles, tanto pessoalmente como em comunidade. Pensemos no episódio evangélico da mulher cananeia (cf. Mt 15,21-28). É uma mulher pagã, não pertence ao povo de Israel, é uma pagã que implora a Jesus a cura da sua filha. Para pôr à prova à fé desta mulher, Jesus começa por lhe responder duramente: «Não posso, primeiro tenho de pensar nas ovelhas de Israel.» A mulher não desiste – quando uma mãe pede ajuda para os seus filhos, nunca cede; todos nós sabemos que as mães lutam pelos seus filhos – e responde: «Até aos cachorrinhos se dá alguma coisa depois de os seus donos terem comido!», como se dissesse: «Pelo menos, trata-me como a uma cachorrinha!» «Ó mulher, grande é a tua fé! Faça-se como desejas» (v. 28).

Frente à doença, até na família surgem dificuldades devido à debilidade humana. De um modo geral, o tempo da doença faz crescer a força dos laços familiares. Penso também como é importante educar os filhos desde pequeninos para a solidariedade, no tempo da doença. Uma educação que se esquiva a cultivar a sensibilidade frente à doença humana torna o coração ressequido. […] A debilidade e o sofrimento dos nossos afetos mais queridos e mais sagrados podem ser, para os nossos filhos e para os nossos netos, uma escola de vida – é importante educar os filhos e os netos a entenderem esta proximidade na doença, em família –, e isso acontece quando os momentos da doença são acompanhados pela oração e pela proximidade afetuosa e solícita dos familiares. A comunidade cristã está bem ciente de que a família, na prova da doença, não deve ser deixada sozinha. E devemos dar graças ao Senhor por aquelas belas experiências de fraternidade eclesial que ajudam as famílias a atravessar o difícil momento da dor e do sofrimento. Esta proximidade cristã, de família a família, é um verdadeiro tesouro para a paróquia; um tesouro de sabedoria, que ajuda as famílias nos momentos difíceis e que faz entender melhor o Reino de Deus do que muitos discursos! São carícias de Deus.

 

Cristo ilumina toda a vida familiar

Se a família se consegue concentrar em Cristo, Ele unifica e ilumina toda a vida familiar. As dores e os problemas experimentam-se em comunhão com a cruz do Senhor, e o abraço dele permite-nos suportar os piores momentos. Nos dias amargos da família há uma união com Jesus abandonado que pode evitar uma rutura. As famílias alcançam, pouco a pouco, «com a graça do Espírito Santo, a sua santidade, através da vida matrimonial, inclusive participando no mistério da cruz de Cristo, que transforma as dificuldades e os sofrimentos em oferenda de amor» 57. Por outro lado, os momentos de alegria, o repouso ou a festa, e também a sexualidade, experimentam-se como uma participação na vida plena da sua Ressurreição. Os cônjuges dão forma, com vários gestos quotidianos, a esse «espaço teologal em que se pode experimentar a presença mística do Senhor ressuscitado» 58. A oração em família é um meio privilegiado para exprimir e reforçar esta fé pascal. É possível arranjar alguns minutos por dia para estarmos unidos diante do Senhor vivo, para lhe falar das coisas que nos preocupam, para rezar pelas necessidades familiares, para rezar por alguém que esteja a passar por um momento difícil, pedindo-lhe ajuda para amar, dando-lhe graças pela vida e pelas coisas boas, pedindo à Virgem que nos proteja com o seu manto de mãe. Com palavras simples, este momento de oração pode fazer um bem imenso à família. As diversas expressões da piedade popular são um tesouro de espiritualidade para muitas famílias. O caminho comunitário de oração atinge o seu cume na participação comum na Eucaristia, sobretudo no contexto do repouso dominical. Jesus bate à porta da família a fim de partilhar com ela a Ceia eucarística (cf. Ap 3,20).

 

O alento da vida nova (Inédito)

O Batismo é o início da vida nova. Mas o que significa vida nova?

A vida nova do Batismo não é nova como quando mudamos de trabalho ou de cidade, e dizemos: dei início a uma vida nova. Nestes casos, é certo que a vida muda, talvez até mude muito, passa a ser diferente da vida anterior: melhor ou pior, mais interessante ou mais difícil, consoante os casos. As condições, o contexto, os colegas, os conhecimentos, talvez até as amizades, a casa e o ordenado são diferentes. No entanto, não é uma vida nova, é a mesma vida que continua.

A vida nova do Batismo também é diferente de viver uma mudança radical dos nossos sentimentos devido a um enamoramento ou a uma desilusão, a uma doença ou a um imprevisto importante.

Coisas desse género podem acontecer-nos como um terremoto, interior e exterior: podem mudar os valores, as escolhas de fundo: afetos, trabalho, saúde, serviço aos outros… Primeiro, talvez se pensasse na carreira; depois, começa-se a fazer voluntariado; e, por fim, a fazer da própria vida um dom para os outros! Antes, não se pensava em construir uma família; depois, experimenta-se a beleza do amor conjugal e familiar.

Também estas, que são mudanças grandes, extraordinárias, ainda são «apenas» transformações. São modificações que nos conduzem a uma vida mais bela e dinâmica, ou mais difícil e cansativa. Não é por acaso que – quando as descrevemos, usamos sempre as palavras «mais» e «menos». Dizemos que tornaram a nossa existência mais bela, mais alegre, mais apaixonante. É porque ainda estamos a fazer comparações entre coisas mais ou menos semelhantes. É como se avaliássemos as coisas segundo uma escala de valores. A vida, antes, era alegria: 5; agora é alegria: 7; a saúde, primeiro, era: 9; agora é: 4. Mudam os números, mas não a substância da vida!



Esta é a vida nova, a vida que Deus Pai nos oferece mediante o Batismo. É nova porque é outra vida em relação à nossa, porque é precisamente a sua vida, é a própria vida de Deus



A vida nova do Batismo, porém, não é nova apenas em relação ao passado, à vida precedente, à vida de antes. Nova não quer dizer recente, não pretende significar que houve uma modificação, uma mudança. A vida de Deus é comunhão e é-nos dada como uma amizade.

A vida nova de que fala São Paulo, nas suas cartas, recorda-nos o mandamento novo de Jesus (cf. Jo 13,34); recorda-nos o vinho novo do Reino (cf. Mc 14,29), o cântico novo que os salvos cantam diante do trono de Deus (cf. Ap 5,9): das realidades definitivas, ou escatológicas, se quisermos utilizar uma palavra teológica.

Compreendemos então que relativamente à vida nova, é impossível fazer comparações. Poder-se-á comparar a vida e a morte, ou a vida antes e depois do nascimento? Cristo não se fez um de nós, não viveu a sua Páscoa de paixão, morte e ressurreição para «melhorar» a nossa vida, para torná-la mais bela, mais saborosa, mais longa, mais intensa, mais fácil ou mais feliz. Ele veio – como nos disse – para que tenhamos a vida em abundância (cf. Jo 10,10).

Esta é a vida nova, a vida que Deus Pai nos oferece mediante o Batismo. É nova porque é outra vida em relação à nossa, porque é precisamente a sua vida, é a própria vida de Deus. É este o grande dom que Ele nos concedeu e que Jesus nos concede! Participar no amor do Pai, do Filho e do Espírito. Participar no amor que «Eles» têm por todos os homens e por toda a criação. A vida nova é a vida de Deus que nos é dada a nós!

Desde sempre, nós, cristãos, temos procurado imagens e símbolos para descrever este presente imenso. Nós somos muitos, diferentes, no entanto, somos uma só realidade, somos a Igreja. E esta unidade é a unidade do amor, que não força, não humilha, não nos limita, mas nos fortalece, nos constrói a todos, em conjunto, e nos torna amigos.



O Senhor não é um banqueiro a quem nós confiamos as coisas preciosas para que Ele no-las devolva com juros no outro mundo. O Senhor não guarda para si a nossa vida, vivida no amor: entrega-no-la de novo em cada santa Missa, que constitui a nossa máxima participação na Páscoa de Jesus



Jesus tem uma expressão lindíssima no Evangelho: «Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem Tu enviaste» (Jo 17,3). É Ele pró prio que nos diz assim que a verdadeira vida é o encontro com Deus; e que o encontro com Deus é o conhecimento de Deus.

Sabemos, portanto, pela Bíblia, que não se conhece uma pessoa apenas com a cabeça, porque conhecer significa amar. E esta é a vida de Deus que nos é dada: o amor que se torna nosso e que, pouco a pouco, nos faz crescer, graças ao Espírito Santo (Rm 5,5), e que também ilumina os nossos pequenos obrigado, posso?, desculpa, de cada dia.

Embora as palavras sejam inadequadas, podemos dizer que a vida nova é descobrir que somos de Alguém, que somos per tença de Alguém, e, nele, pertencer a todos. Ser pertença quer dizer que cada um é para o outro.

Isto recorda-me aquilo que diz a esposa do Cântico dos cânticos: «O meu amado é para mim, e eu para ele» (Ct 2,16). Eis que, dia após dia, o Espírito Santo vai levando ao seu cumprimento a oração dirigida por Jesus ao Pai: «Não rogo só por eles, mas também por aqueles que hão de crer em mim, por meio da sua palavra, para que todos sejam um só, como Tu, Pai, estás em mim e Eu em ti; para que assim eles estejam em Nós» (Jo 17,20-21). (…)

Ocorre-me uma última imagem. A nossa vida assemelha-se a uma clepsidra. Na parte de cima está a nossa vida de cada dia: quando fazemos um ato de amor ou quando renunciamos, por amor, às nossas pretensões, um grão da nossa vida desloca-se para a parte inferior da clepsidra, que é a vida eterna, a unidade com o Senhor e com os irmãos. Pouco a pouco, então, tudo aquilo que nós somos pode passar para o outro lado. Os anos passam, muitas coisas mudam, fisicamente consumimo-nos, no entanto, o nosso gastarmo-nos por amor não desapareceu no nada, mas como que se transferiu para o Senhor.

Atenção, porém: o Senhor não é um banqueiro a quem nós confiamos as coisas preciosas para que Ele no-las devolva com juros no outro mundo. O Senhor não guarda para si a nossa vida, vivida no amor: entrega-no-la de novo em cada santa Missa, que constitui a nossa máxima participação na Páscoa de Jesus. Com efeito, experimentamos que a parte mais verdadeira de nós, aquela que tem vivido no amor e no perdão, «está escondida com Cristo em Deus» (Cl 3,3), porque a lei da amizade é, precisamente, o caminho da Igreja.

E a Eucaristia é, de facto, o sacramento da Igreja, a revelação de que já somos um só no Senhor. Já o dizia Santo Agostinho: «Se vós, portanto, sois o Corpo e os membros de Cristo, sobre a mesa do Senhor está deposto o mistério do vosso ser: recebei o mistério do vosso ser. Àquilo que sois, respondei, “Ámen”, e respondendo assim, subscrevê-lo-eis. Com efeito, é-te dito: “O Corpo de Cristo”; ao que tu respondes: “Ámen.” Sê membro do Corpo de Cristo, para que seja verdadeiro o teu “Ámen”».

Nada de nós se perde, nada é indiferente ou insignificante. Pelo contrário, tudo de nós (história, gestos, sonhos, afetos, defeitos, dons…), entrando no amor, passa pelo caminho da Páscoa de Jesus, ultrapassa a morte e entra na ressurreição da comunhão: e esta é, verdadeiramente, vida nova!


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 13.03.2020

 

Título: A oração - Alento de vida nova
Autor: Papa Francisco
Editora: Paulinas
Páginas: 152
Preço: 11,00 €
ISBN: 978-989-673-731-3

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos