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A Páscoa e o depois, por Valter Hugo Mãe

«O dia de Páscoa do ano de 2020 terá sido o que mais me enterneceu em todo o período de pandemia»: começa com estas palavras a página semanal que o escritor Valter Hugo Mãe assina hoje no “Notícias Magazine”, onde escreve sobre esse domingo, esperado e ao mesmo tempo inesperado pela surpresa e espontaneidade que o marcou.

«Lembro-me de acordar e escutar os vizinhos a gritarem Aleluia pelas janelas. Foi o dia inteiro assim. Por alguma comoção, alguém se lembrava de assomar a janela e anunciar a ressurreição de Cristo», recorda no suplemento do “Diário de Notícias” e “Jornal de Notícias”.

«A palavra milagrada era em redor, vinha de homens e de mulheres, algo furtiva, e fazia o tempo respirar. Podia ser como um chuvisco de dois segundos que já ninguém testemunhava senão pelo fresco deixado sobre as coisas. A palavra Aleluia caia fresca sobre as coisas.»

E prossegue: «Não podia haver melhor forma de acreditar em Cristo e viver a Páscoa. Essa forma que independia dos rituais costumeiros e se autonomizava na comoção de cada um. Pela alegria, pela fé, pela esperança de cada um, a Páscoa foi feita e distribuída entre todos. Vi uma profunda beleza nisso. Só vi beleza nisso».

Este ano, confessa, chega à Páscoa «expectante», talvez na esperança de que o relâmpago de 2020 deixe alguma forma de herança: «Seria perfeito que as tradições se reeducassem para isto: o sagrado deve deitar-se das mãos dos crentes. E só isso é fundamental. Uma Páscoa liberta pela emoção sincera das pessoas».

Cristo, conclui, foi no primeiro ano da pandemia «liberto ao som, no promontório das bocas, o lugar alto da palavra. A melhor Páscoa é a das pessoas que a expõem como alegria, sem temor».

Na mais recente edição do quinzenário “Jornal de Letras”, Valter Hugo Mãe escreve: «Cresci na iminência de ser monge, estar em fuga pelo silêncio, habitar a montanha, saber das árvores, das migrações dos pássaros e de todas as transumâncias mais do que da especulação dos dias, essa pressa de consumo e satisfação pueril, imparável».

E, ao refletir sobre a morte, interroga: «Se o mistério mais caro é o de haver depois, porque haveria eu de rejeitar a possibilidade de o auscultar?».


 

Rui Jorge Martins
Fontes: Notícias Magazine, Jornal de Letras
Imagem: Valter Hugo Mãe | D.R.
Publicado em 05.04.2021

 

 
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