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A paz desarmada e desarmante. Uma leitura do pontificado de Leão XIV

O pontificado de Leão XIV encontra-se ainda no seu início, pelo que qualquer interpretação terá necessariamente um carácter provisório. Contudo, desde a sua primeira aparição na varanda da Basílica de São Pedro, tornou-se visível uma linha orientadora do seu ministério: a paz não seria apenas um tema entre outros, mas uma chave espiritual, pastoral e política do seu pontificado.

A primeira palavra do novo Papa foi a saudação do Ressuscitado: “A paz esteja com todos vós”. E definiu-a imediatamente como uma paz “desarmada e desarmante, humilde e perseverante”. O que então poderia parecer apenas uma expressão particularmente feliz veio a revelar-se uma verdadeira declaração programática. Alguns meses depois, essas mesmas palavras tornaram-se o título e o núcleo da sua primeira mensagem para o Dia Mundial da Paz: "A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante".

Os dois adjetivos não são sinónimos.

A paz é desarmada porque não nasce da ameaça, do medo, da superioridade militar ou da submissão do vencido. Não necessita de inimigos para se afirmar nem procura impor a ordem do mais forte. É a paz de Cristo, que manda Pedro guardar a espada e se entrega sem responder à violência com outra violência.

Mas é também desarmante, porque não se limita a renunciar às armas materiais. Procura retirar das mãos e dos corações aquilo que alimenta a guerra: o ódio, o medo, a humilhação, a mentira, o ressentimento, a cobiça e a vontade de domínio. Não é uma paz passiva ou indiferente perante o mal. Possui uma força própria: enfrenta a violência sem reproduzir a sua lógica e procura vencer o adversário sem o destruir.

A distinção permite compreender a originalidade da proposta de Leão XIV. O Papa não fala apenas do desarmamento dos arsenais, mas de uma transformação da própria lógica das relações humanas. Antes de as armas serem acumuladas nos paióis, foram concebidas no coração, justificadas pela inteligência e legitimadas pela linguagem. A guerra começa quando o outro deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser apresentado como ameaça absoluta, obstáculo ou inimigo a eliminar.

Por isso, na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2026, Leão XIV adverte que, quando a paz é tratada como um ideal distante ou ingénuo, acaba por deixar de nos escandalizar que se pretenda alcançá-la através da guerra. A agressividade espalha-se então da vida privada para a vida pública, das palavras para os atos, dos corações para as instituições. A paz, pelo contrário, precisa de ser acolhida, guardada e praticada antes de poder tornar-se uma construção política.

 

A paz do Ressuscitado

O pensamento de Leão XIV não começa numa teoria política, mas no encontro do Ressuscitado com os discípulos fechados no Cenáculo. Cristo apresenta-se no meio deles, mostra-lhes as feridas e diz: “A paz esteja convosco”.

A paz cristã não apaga as feridas nem nega a injustiça. Cristo ressuscitado continua a trazer no corpo os sinais da crucificação. Contudo, as feridas já não são fontes de vingança: transformaram-se em sinais de um amor que atravessou a violência sem se deixar converter em violência.

A paz desarmada nasce, assim, da Páscoa. Não é simplesmente a tranquilidade alcançada depois da vitória, nem o silêncio imposto pelo vencedor. É uma realidade nova, inaugurada por Cristo, na qual o mal é vencido sem que o homem que praticou o mal seja privado da possibilidade de conversão.

Esta dimensão tornou-se particularmente clara na homilia do Domingo de Ramos de 2026. Leão XIV contrapôs Jesus, que entra em Jerusalém montado num jumento, aos poderes que chegam sobre cavalos de guerra. Enquanto à sua volta se prepara a violência, Cristo permanece firme na mansidão. Quando um dos discípulos desembainha a espada para o defender, Jesus ordena-lhe que a guarde.

O Papa recordou então que Deus não pode ser utilizado para justificar a guerra. Nenhuma nação, ideologia ou exército pode apropriar-se do nome de Deus para legitimar a violência. O Crucificado revela um Deus que não salva a humanidade destruindo os seus inimigos, mas oferecendo-se para reconciliar os homens no amor.

Na solenidade de Pentecostes de 2026, Leão XIV afirmou que a guerra não é vencida por uma superpotência, mas pela “omnipotência do amor”. A expressão não significa desprezo pelas responsabilidades políticas ou pela necessidade de proteger os inocentes. Significa que nenhuma vitória militar, por si só, consegue curar os ressentimentos, restaurar a fraternidade ou construir uma paz duradoura.

 

A paz não é capitulação

Leão XIV não confunde a paz com a ausência de justiça, a neutralidade moral ou a capitulação diante do agressor. Desde os primeiros dias do pontificado, pediu para a Ucrânia uma paz “autêntica, justa e duradoura”; exigiu um cessar-fogo em Gaza, a prestação de auxílio à população civil e a libertação dos reféns; e apoiou os esforços diplomáticos destinados a transformar tréguas provisórias em acordos estáveis.

A paz desarmada não significa abandonar as vítimas nem deixar o inocente entregue à violência. Exige a defesa da dignidade humana, o respeito pelo direito internacional, a proteção dos civis, a libertação dos prisioneiros, a ajuda humanitária e a reparação das injustiças.

No discurso ao Corpo Diplomático, em janeiro de 2026, o Papa denunciou a fragilidade do multilateralismo e a sua progressiva substituição por uma “diplomacia da força”. Observou, com particular preocupação, que “a guerra voltou a estar na moda” e que se pretende alcançar a paz através das armas, como condição para impor o domínio de uns sobre os outros.

Existe, de facto, uma paz do vencedor: o silêncio que se segue à submissão dos vencidos. Mas essa paz conserva intactas as causas profundas do conflito. Pode suspender os combates, mas não reconcilia os povos. Mais cedo ou mais tarde, a humilhação transforma-se em ressentimento e o ressentimento prepara uma nova violência.

A paz proposta por Leão XIV não é a ordem imposta pelo mais forte. É uma ordem fundada na justiça, na dignidade da pessoa e no reconhecimento do outro como membro da mesma família humana.

 

Uma nova compreensão do poder

A paz desarmada constitui também o modelo escolhido por Leão XIV para compreender a autoridade dentro da própria Igreja.

Na celebração de início do ministério petrino, o Papa rejeitou uma liderança fundada na prepotência, na propaganda religiosa ou nos meios do poder. A autoridade de Pedro deveria manifestar-se como serviço, caridade e construção da unidade. A Igreja seria, assim, chamada a tornar-se “fermento para um mundo reconciliado”.

Esta visão estabelece uma relação entre a forma de governar a Igreja e a missão de anunciar a paz. Uma Igreja que recorresse à imposição, ao medo ou à superioridade moral dificilmente poderia anunciar ao mundo uma paz desarmada. Só uma Igreja que se apresenta sem outras armas além do Evangelho, da caridade e do testemunho pode tornar credível a mensagem que proclama.

O próprio estilo de Leão XIV parece traduzir esta conceção: uma palavra serena, uma presença discreta e uma firmeza que não necessita de agressividade. Trata-se de exercer autoridade sem transformar o poder em domínio e de proclamar a verdade sem humilhar aquele que ainda não a reconhece.

 

A raiz agostiniana

A inspiração explicitamente assumida por Leão XIV é profundamente agostiniana. Membro da Ordem de Santo Agostinho, o Papa regressa frequentemente ao pensamento do bispo de Hipona.

Na mensagem para o Dia Mundial da Paz, recorda que só pode comunicar a paz quem primeiro a possui dentro de si. Ninguém pode pacificar o mundo conservando no coração a violência, o ressentimento ou a vontade de dominar.

No discurso ao Corpo Diplomático, retoma uma intuição particularmente lúcida de Santo Agostinho: mesmo aqueles que fazem a guerra afirmam desejar a paz. O que pretendem, porém, é uma paz organizada segundo a sua própria vontade, depois de submeterem aqueles que lhes resistiam. Não odeiam a paz; desejam a paz que lhes permite dominar.

Leão XIV recupera, deste modo, uma distinção essencial entre a paz como comunhão e a paz como imposição. A primeira reconhece e integra o outro; a segunda reduz o outro ao silêncio.

O seu pensamento insere-se igualmente na continuidade do magistério contemporâneo da Igreja: a Pacem in terris de São João XXIII; o clamor “Nunca mais a guerra!” de São Paulo VI; a diplomacia da paz de São João Paulo II; a reflexão de Bento XVI sobre a relação entre verdade, caridade e justiça; e a denúncia do Papa Francisco de uma “terceira guerra mundial aos pedaços”.

Leão XIV recebe esta herança e concentra-a numa fórmula particularmente expressiva para o nosso tempo: uma paz desarmada e desarmante.

 

Desarmar o mundo, começando pelo coração

A paz, para Leão XIV, não é apenas um objetivo das relações internacionais. É uma presença que deve começar na consciência de cada pessoa e estender-se às famílias, às comunidades, às instituições e às nações.

Não haverá desarmamento exterior sem algum desarmamento interior. As armas materiais são a manifestação visível de outras armas mais profundas: o preconceito, a intolerância, a mentira, o medo, a indiferença e a desumanização do adversário.

Mas também não basta falar da conversão dos corações ignorando as estruturas de injustiça. A paz precisa de instituições justas, de uma economia ao serviço da pessoa, de uma cultura do encontro e de uma diplomacia capaz de substituir a força pelo diálogo.

A paz desarmada e desarmante reúne, portanto, duas dimensões inseparáveis: a conversão pessoal e a responsabilidade política. Começa no coração, mas não termina nele.

Num tempo em que a guerra regressa à linguagem corrente e o recurso às armas volta a ser apresentado como inevitável, Leão XIV recorda à humanidade que o verdadeiro realismo não consiste em aceitar resignadamente a violência. Realista é reconhecer que nenhuma sociedade pode construir indefinidamente a segurança sobre o medo, a ameaça e a capacidade de destruição.

A paz desarmada pode parecer frágil perante os exércitos. Contudo, é a única capaz de interromper verdadeiramente o ciclo da violência. E é desarmante porque coloca cada pessoa, cada governante e cada povo diante da pergunta essencial: que vitória poderá justificar a perda da nossa própria humanidade?

 

Referências principais:
Leão XIV, Mensagem para o LIX Dia Mundial da Paz — A paz esteja com todos vós. Rumo a uma paz desarmada e desarmante, 1 de janeiro de 2026.
Leão XIV, Homilia no início do ministério petrino, 18 de maio de 2025.
Leão XIV, Regina Caeli, 11 de maio de 2025.
Leão XIV, Discurso ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé, 9 de janeiro de 2026.
Leão XIV, Homilia do Domingo de Ramos, 29 de março de 2026.
Leão XIV, >Homilia da Solenidade de Pentecostes, 24 de maio de 2026.

 

 

Francisco Vaz
Imagem: Jorge Fernández Salas na Unsplash
Publicado em 19.10.2026

 

 
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