

«A pessoa humana é fundamento e fim da convivência política» (cf. GS 25). Quisemos que esta afirmação do Concílio Vaticano II aparecesse como iluminadora desta nossa sessão. Porque, 60 anos depois, ela continua a fazer a diferença e a distinguir entre os vários regimes e entre os diversos modos de estar na vida política e na vida pública.
Alguém afirmou que, em grande medida, a história da Europa e do mundo é o resultado de iniciativas de reis e imperadores que, a fim de adquirirem maior poder e influência, roubavam território uns aos outros, usando para isso as vidas dos seus cidadãos.
Sabemos, de facto, como muitos regimes olham para os cidadãos como um número, uma massa de indivíduos, quais objectos de que o líder possa dispor, controlar e dirigir para atingir os seus objectivos — mesmo que com a desculpa (sempre enganadora) de, no final, a situação obtida poder ser a melhor para todos! Ainda hoje, neste já segundo quartel do séc. XXI, nos deparamos com semelhante modo de conceber a vida humana e a vida política: a interminável guerra na Ucrânia é disso apenas um exemplo.
Por isso, os regimes não se distinguem tanto por serem conservadores ou progressistas, de direita ou de esquerda mas, sobretudo, por olharem os seus cidadãos como massa, colectivo sem alma, ou por defenderem e respeitarem a Pessoa.
Devemos reconhecer que foi difícil — muito difícil! — afirmar esta distinção. Perceber a “Pessoa”, a vida de cada Pessoa, a sua existência e a sua centralidade para a vida de todos: eis a grande evolução que, animada pelo cristianismo, a cultura ocidental foi capaz de colocar em marcha. Este é, sem sombra de dúvidas, um dos grandes contributos civilizacionais do facto cristão.
A Pessoa: acontecimento único criado à imagem do Deus único; ser indivisível e consciente; dotado de interioridade, razão e presença; ser livre capaz de se expressar e de amar; jamais uma mónada mas sempre alguém vivo no seio de uma comunidade; sujeito de deveres e direitos; ser responsável pelos seus actos. Ser diante do qual o próprio Deus se compraz, reconhecendo que “era tudo muito bom” (Gen).
A afirmação do Concílio que recordámos no início constitui, por isso, o critério maior para a acção do cristão na política, essa arte de caridade maior em que um baptizado se pode (e deve) empenhar: o agir político de um cristão nasce da necessidade de a todos oferecer o reconhecimento da sua dignidade única, e tem esse reconhecimento como objectivo primeiro. Jamais poderá ceder à tentação da massa, do colectivo, em que o ser humano se dissolve em meio, pretexto, objecto.
Ao entregarmos o “Prémio de Cultura Árvore da Vida - P. Manuel Antunes” à Drª Maria Leonor Beleza, queremos agradecer a vida e o exemplo de quem (não sem momentos de sofrimento) abraçou a causa pública — seja no campo político, seja noutro qualquer tipo de intervenção pública, deixando-se conduzir por aqueles princípios norteadores.
Longe de constituir qualquer tipo de canonização em vida, a entrega desta distinção pretende, simplesmente, homenagear alguém que, sem esconder a sua condição cristã, ousou o empenho e o contributo para a vida de todos.
Queremos dizer-lhe: “Muito obrigado!”, com toda a simplicidade, sem temer eventuais divergências, mas reconhecendo a importância e a diferença que o seu agir na esfera pública tem manifestado. E, ao mesmo tempo, seja-nos permitido esperar a continuação deste agir, estar, ser.