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A poesia de Deus

O termo «poesia», como se sabe, tem a sua origem no helénico «poieo – eu faço», «poiein – fazer». Significava e significa, entre outros, atos como «fabricar», «executar», «construir», «produzir, «criar», «gerar» (gerar e parir), «ser eficaz», «agir», «criar um poema». De certo ponto de vista, a última das aceções é a que transcorre todo o sentido possível deste modo especial de ação; modo tão especial que, no limite, se confunde com toda a ação, se de esta se tiver uma conceção criadora, precisamente poética.

Neste sentido, todos os que agem são poetas. Todos os que criam, isto é, todos os que introduzem o absoluto do novo – por ínfimo que seja – no mundo são poetas: poetas melhores ou piores, mas sempre poetas. Na relação com Deus, dizia o filósofo Lavelle, o ser humano foi criado cocriador. É esta a grande dimensão própria do ser humano como colaborador de Deus na criação continuada do mundo. Este último é um poema conjunto não só dos seres humanos, todos, mas de estes, todos, com o criador primeiro, o primeiro poeta, o grande poeta arquetípico, o poeta amante incansável do bem que criou nas criaturas.

Este é o poeta maior, poeta simples e cândido, poeta que anda, pés nus, no húmus de vida que lhe não suja os pés, pois é terrunho feito do mesmo bem. É a estupidez e a autolatria humana que se encarregam de poluir o impoluto bem. Vaidade, ambição e mal-disfarçada maldade.

Quando se lê o início do Génesis na versão helénica dos LXX, encontra-se, logo no início de tudo, a expressão «en arkhe epoiesen ho theos ton ouranon kai tem gen», de que todos conhecemos a tradução – literal e palavra a palavra: «no princípio criou Deus o céu e a terra». Ora, o termo que os LXX usam é uma forma do verbo «poieo». Deus é, assim, apresentado como poeta do mundo, o poeta do mundo.



Deus é o poeta dos possíveis poetas; de todos, sem exceção. É inclusivo. Este último dia poético, ativo, do poema do mundo, acaba com um convite do poeta-absoluto a que os relativos possíveis poetas colaborem com ele para que o poema seja não já apenas um dom poético de Deus, mas uma obra coletiva



Não se confunda este sentido poético com «escrever poemas», por mais belos e bons que sejam, isto é, por melhor que digam o ser. O poema ou, melhor, «poiema» divino não diz o ser ao modo fraco a que estamos habituados, num dizer vácuo e impotente, quantas vezes ressentido, de quem não tem ser para lá do barulho que faz, mais ou menos melódico ou harmónico. Esta poesia nada cria, não é, assim, poesia alguma; apenas ruído, quiçá grito de psicológica angústia ou real desespero.

O poema de Deus é mesmo criador: do «Logos» de que fala João, que não é palavra, mas ato de infinita misericórdia, faz Deus a matéria do mundo. Melhor, como «poemar» é também gerar e parir como uma Mulher, então é Deus como poeta do mundo a sua única verdadeira matéria, porque sua única Mãe: Deus Mãe Poeta do Mundo.

Este poeta não ganha Nobel algum, mas também não cria a dinamite. Criou tudo para que nunca se tivesse de usar a dinamite no antipoema da guerra, mas não criou a dinamite. O poema de Deus é esse que põe o absoluto do ser do mundo. Não se pode confundir com os falsos poemas daqueles que, por impotência poética, genésica, se limitam a medir a sua força – aliás, fraqueza – pelo metro do que são capazes de destruir. É o fácil poema não dos frágeis, mas dos fracos, os que sempre dominaram a história da humanidade disfarçando-se de fortes.

É ainda o mesmo verbo que os LXX usam para o momento – ato, poema – em que Deus cria os seres humanos, genericamente designados como «anthropon», à sua imagem (eikona) e semelhança (homoiosin) (1, 26). Um pouco adiante, concretiza-se a espécie em «macho», «homem» («arsen») e «fêmea», «mulher» («thelu») (1, 27).



Findo o poético trabalho, proclamada mais uma vez a sua beleza, absoluta, cessa o poeta o seu «poemar», não como caprichoso e preguiçoso artista, mas como esse que, assim, dá literalmente lugar aos que criou como possíveis poetas para que também eles poetizem



Deus é, então, o poeta dos possíveis poetas; de todos, sem exceção. É inclusivo. Este último dia poético, ativo, do poema do mundo, acaba com um convite do poeta-absoluto a que os relativos possíveis poetas colaborem com ele para que o poema seja não já apenas um dom poético de Deus, mas uma obra coletiva em que todos se tornem tão bons poetas em suas dimensões próprias como o Poeta-dom é na dele. É este o sentido onto-poético da criação como dom de possibilidade.

Findo o poético trabalho, proclamada mais uma vez a sua beleza, absoluta – o Platão do Banquete compreenderia isto, por que razão o não compreendemos nós? –, cessa o poeta o seu «poemar», não como caprichoso e preguiçoso artista, mas como esse que, assim, dá literalmente lugar aos que criou como possíveis poetas para que também eles poetizem.

Parece clara a narrativa. Então, pergunta-se, como se perguntou a Adão e Eva, a Job, a Maria: que poema dás tu a Deus? Que poema parimos nós? Maria pariu Jesus. E eu?


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: Plateresca/Bigstock.com
Publicado em 18.10.2019

 

 
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