

O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura deseja muito boa tarde a todos os presentes. Sejam bem-vindos a esta cerimónia de entrega do Prémio de Cultura Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes a Maria Leonor Beleza.
O prémio, atribuído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, destaca anualmente, desde 2005, a excelência de personalidades, percursos e obras que refletem o humanismo e a experiência cristã no mundo contemporâneo.
O júri do Prémio, presidido por D. Nuno Brás da Silva Martins, e tendo como membros Guilherme d'Oliveira Martins, José Carlos Seabra Pereira, P. José Frazão sj e Maria Teresa Dias Furtado, reconheceu como «a autenticidade e o compromisso ... sempre nortearam o projeto de vida de Maria Leonor Beleza no sentido do humanismo cristão». Esse reconhecimento levou-nos a escolher para tema desta cerimónia: A política como instrumento de construção da “cultura do encontro” através do diálogo e da amizade social.
No centro da cultura do encontro está a pessoa humana e a sua relação com a comunidade, o diálogo e a amizade social fomentam o bem comum e a solidariedade. Recorrendo a autores antigos, vou centrar-me no diálogo e na amizade.
A necessidade da amizade para Sto. Agostinho esteve desde sempre inseparavelmente unida ao seu desejo da sabedoria, como afirmou: «Assim, em todas as coisas humanas nada é mais amigo do homem do que um amigo». (1)
Sto. Agostinho entendia a filosofia como procura da sabedoria realizada juntamente com os amigos, principalmente, por duas razões: primeiro, porque a verdade conhecida deve ser comunicada aos outros, não é um bem privado, mas comum a todos; depois, porque numa comunidade de amigos, que põem em comum todos os bens, o primeiro que chegar ao conhecimento da verdade ajudará os outros a conhecê-la.
Esta é a confissão dos Solilóquios: «Mas pergunto-te, porque é que desejas que os homens que tu amas vivam e convivam contigo?» Sto. Agostinho responde: «Para indagar em conjunto, em plena concórdia, sobre as nossas almas e Deus. Assim será fácil, para quem encontrou a verdade em primeiro lugar, conduzir os outros a ela sem fadiga».(2) E, mais adiante continua:
«Ora, eu, por si própria, só amo a sabedoria: tudo o resto – a vida, a quietude, os amigos – quero tê-lo ou não o ter pela sabedoria. O amor por essa beleza pode ter este critério de medida, de cuja posse não tenho inveja, mas procuro que muitos a desejem comigo, anseiem por ela comigo, a possuam comigo e, juntamente comigo, usufruam dela. E eles serão tanto mais meus amigos quanto mais a amada se tornar comum». (3)
Assim, para Sto. Agostinho, a amizade era um dos maiores bens da vida humana. Este método de conceber a filosofia como uma investigação de várias pessoas, associadas pelo interesse comum pela verdade, tem a sua expressão natural no diálogo. (4)
Os gregos e os romanos cultivaram, admiraram e especularam sobre a amizade. Os filósofos pré-socráticos pensavam na amizade ou na atracção (philía) como um princípio cósmico que ordenava todo o universo. Platão fez da amizade um princípio metafísico: os amigos partilham uma atracção para o princípio mais alto, o bem.5 Para Aristóteles, a amizade assentava no útil, no prazer, ou no bem, embora só o bem correspondesse à verdadeira amizade. (6)
Cícero considerava a amizade como uma virtude política, própria dos grandes estadistas e formulou a seguinte definição de amizade:
«A amizade é uma suma harmonia nas coisas divinas e humanas, com benevolência e amor. Dons tão grandes, que não sei se os deuses concederam, com excepção da sabedoria, outro maior aos mortais. Preferem uns as riquezas, outros a boa saúde, outros o poder, outros as honras, e, muitos, os prazeres. E assim discorrem nobremente os que constituem o sumo bem na virtude e esta mesma é a que engendra e mantém as amizades, de modo que, sem ela, não pode existir amizade de modo nenhum». (7)
Sto. Agostinho transformou o conceito clássico de amizade, considerado como um acordo sobre as coisas humanas e divinas, num conceito de amizade entendido como graça, um vínculo realizado pelo Espírito Santo derramado nos corações dos crentes, que acrescenta a atracção e o deleite da caridade cristã concedida a todos.
Na sua carta dirigida a Marciano o santo de Hipona esclareceu «as coisas humanas e divinas» de Cícero citando os dois mandamentos (Mc. 12, 29-31 par.):
«Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente e Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois mandamentos assentam toda a Lei e os Profetas. No primeiro mandamento há o acordo perfeito sobre as coisas divinas, no segundo sobre as coisas humanas, acompanhado de benevolência afectuosa. Se os observares juntamente comigo com a máxima fidelidade, a nossa amizade será sincera e eterna e não só nos unirá uns aos outros, mas também ao próprio Senhor». (8)
Cícero pensava num acordo intelectual, Sto. Agostinho pensa num acordo de vontade e acção.
O amor de Sto. Agostinho pela amizade nunca diminuiu. Próximo da conclusão da Cidade de Deus ele escreveu: «que é que nos consola nesta humana sociedade a abarrotar de erros e de tribulações senão a confiança não fingida e o mútuo afecto dos verdadeiros e bons amigos». (9)
Em suma, a amizade no seu grau mais alto coincide com a caridade perfeita.
Concluo com passagens do Papa Leão XIV, de um discurso de maio deste ano, que espelha bem o perfil da nossa homenageada.
A cultura do encontro mostra como «mais importante do que os problemas, ou do que as respostas a eles, é o modo como os enfrentamos, com critérios de avaliação e princípios éticos, e com abertura à graça de Deus». E, acrescenta: O diálogo e a amizade social sustentam-se na «busca de hipóteses, vozes, progressos e fracassos, …ou seja, num caminho comum, coral e até multidisciplinar rumo à verdade… que exige seriedade, rigor e serenidade... Portanto, convido-vos a participar ativa e criativamente neste exercício de discernimento… neste período histórico de grandes turbulências sociais, escutando e dialogando com todos». (10)
Agradeço a todos os que contribuíram para a realização desta cerimónia. Na esteira do que acabei de dizer, faço votos de um bom e belo encontro para todos.
(1) Aug., ep. 130, 2, 4: «Ita in quibuslibet rebus humanis nihil est homini amicum sine homine amico». As referências às obras de Sto. Agostinho seguem Augustinus-Lexikon.
(2) Aug., sol. I, 12, 20: «Sed quaero abs te, cur eos homines quos diligis, vel vivere, vel tecum vivere cupias? A. - Ut animas nostras et Deum simul concorditer inquiramus. Ita enim facile cui priori contingit inventio, caeteros eo sine labore perducit.»
(3) Aug., sol. I, 13, 22: «Ego autem solam propter se amo sapientiam, caetera vero vel adesse mihi volo, vel deesse timeo propter ipsam; vitam, quietem, amicos. Quem modum autem potest habere illius pulchritudinis amor, in qua non solum non invideo caeteris, sed etiam plurimos quaero qui mecum appetant, mecum inhient, mecum teneant, mecumque perfruantur; tanto mihi amiciores futuri quanto erit nobis amata communior.»
(4) Cf. N. Cipriani, I Dialoghi di Agostino. Guida alla lettura, Roma 2013 (Studia Ephemeridis Augustinianum 134), 61.
(5) O diálogo de Platão intitulado Lísis ocupa-se do tema da amizade: cf. F. Oliveira (ed.), Platão. Lísis, Coimbra 1990 (Textos Clássicos 7).
(6) Na sua obra Ética a Nicómaco, Aristóteles dedica dois livros (VIII e IX) ao tema da amizade: cf. M. J. Carmo Ferreira et all. (ed.), Aristóteles. Ética a Nicómaco, Porto 2012.
(7) Cf. Cícero, Laelius de amicitia, 6, 20 (ed. R. Combès, Paris 1975): «Est enim amicitia nihil aliud nisi omnium divinarum humanarumque rerum cum benevolentia et caritate consensio; qua quidem haud scio an excepta sapientia nihil melius homini sit a dis immortalibus datum. Divitias alii praeponunt, bonam alii valetudinem, alii potentiam, alii honores, multi etiam voluptates. […] Qui autem in virtute summum bonum ponunt, praeclare illi quidem, sed haec ipsa virtus amicitiam et gignit et continet nec sine virtute amicitia esse ullo pacto potest».
(8) Aug., ep. 258, 4: «Diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo, et ex tota anima tua, et ex tota mente tua; et: Diliges proximum tuum tamquam teipsum. In iis duobus praeceptis tota Lex pendet et Prophetae. In illo primo rerum divinarum, in hoc secundo rerum humanarum est cum benevolentia et caritate consensio. Haec duo si mecum firmissime teneas, amicitia nostra vera ac sempiterna erit; et non solum nos invicem, sed ipsi etiam Domino sociabit».
(9) Aug. civ. XIX, 8: «quid nos consolatur in hac humana societate erroribus aerumnisque plenissima nisi fides non ficta et mutua dilectio verorum et bonorum amicorum».
(10) Papa Leão XIV, Discurso aos membros da Fundação «Centesimus annus pro Pontifice», 17 de maio de 2025.