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A redescoberta dos sinos em tempo de Covid-19

Será porque «o seu som é já a oração da matéria cósmica que atravessa os espaços e chega ao Céu». Será porque «é sinal que associa crentes e não crentes». Será porque «ultrapassa as distâncias e faz-nos compreender que somos todos contemporâneos dos acontecimentos do coronavírus na luta e na esperança». O facto é que o bispo de Mântua, Marco Busca, é um dos muitos pastores que nestas semanas estão a convidar as suas dioceses a redescobrir o sinal antigo e sugestivo dos sinos. Como convite à oração, pessoal ou comunitária. Sons e ritmos que são como luzes a iluminar as angústias deste tempo. Em Itália, todos os dias florescem histórias de padres e de povo que fazem dos campanários um abraço à comunidade.

Matteo Temporali, cego de nascença, é fisioterapeuta hospitalar e guia ao serviço dos instituto para pessoas invisuais de Milão. E na paróquia gosta muito de ocupar-se dos sinos. E mal o arcebispo da arquidiocese lançou o convite para que se assinalasse o meio-dia dominical a toques de festa, não perdeu tempo: «No passado domingo fi-lo pela terceira vez, operando manualmente o quadro de comando». O tato das suas mãos sabe reconhecer as alavancas que colocam em movimento cada um dos cinco sinos. O seu sonho: «Poder ter um computador com um interface com o telemóvel, que através de sinais acústicos me permita não só tocar em direto, mas também programar os sons já gravados em vários horários».

O P. Emanuele Tempesta, de 28 anos, cresceu ao som do campanário, e continua a ser capaz de puxar as cordas, sabendo transformar o chamamento para a missa numa obra de arte. O lugar de culto com seis sinos, sem instalação elétrica, é habitualmente acionado para o terço ou para a adoração do Santíssimo Sacramento uma só vez por mês. O sacerdote que, durante séculos, como continua a acontecer em centenas de localidades em Portugal, os sinos soavam o toque de finados, para acompanhar os defuntos. Mas ao meio-dia do primeiro domingo da Quaresma, no início desta epidemia, ele, sozinho, como impõem as prescrições sanitárias, dobrou os sinos como sinal de bem-aventurança. E aos acólitos já prometeu: «Quando tudo tiver acabado, vamos lá todos juntos e soá-los-emos como grande festa».

Da antiga tradição às novas aplicações informáticas: na diocese de Verona, o meio-dia de quarta-feira, à mesma hora em que o papa rezou o Pai-nosso, em companhia de cristãos de todo o mundo, foi marcado pela melodia gregoriana da oração que Cristo ensinou. O pároco de Moniga del Garda instalou um equipamento acionado remotamente, tendo pedido ao seu organista (que se encontrava a 120 km de distância) para o manobrar. Do seu computador, o músico coloca o campanário em modo manual, e ao meio-dia executou a melodia com premindo as letras do teclado. O pároco produziu um vídeo do concerto, nele incluindo o texto da oração e excertos do comentário do papa.










Em Trento, o arcebispo a todos os responsáveis pelas igrejas espalhadas pela arquidiocese para que os sinos fossem tocados, ao mesmo tempo, às 20h30. Numa delas, o carrilhão inaugurado o verão passado entoa, todas as noites, um canto gregoriano quaresmal: “Parce Domine, parce populo tuo” (tem piedade, Senhor, tem piedade do teu povo).

A valorização dos sinos chegou a uma das mais famosas torres de Itália, o campanário de S. Marcos, em Veneza. O patriarca convidou os párocos a tocarem os sinos três vezes ao dia (manhã, meio-dia e noite, segundo a antiga tradição da Igreja), exortando os fiéis, nas suas casas, a rezar durante os toques. À basílica que foi dos doges foi acrescentado o toque das 21h00, mantendo-se o da meia-noite, uma exceção à determinação do patriarca que impõe o fim dos toques noturnos às 21h30.

Especial foi também o gesto realizado também na quarta-feira, em Crema: o pároco de S. Bernardino esperou pela oração do papa no topo do campanário. “Armado” com a alva, estola branca e aspersório, abençoou a cidade a partir da torre. Ele, como milhares de padres, não só continua a celebrar missa diariamente, obviamente sem o povo, como também abriu um canal no YouTube para as transmitir. E não há liturgia que não seja anunciada pelo toque do campanário.










Muitos bispos foram os primeiros a recorrer aos sinos antes do início das celebrações, à porta fechada, em direto pela televisão, internet e rádio. Em Bolonha, por exemplo, o cardeal e arcebispo presidiu, da catedral, a uma novena, anunciada não só pelos sinos da sé, mas também por todas as igrejas da arquidiocese. Também em San Severo, o bispo, ao som dos sinos das igrejas, começa a missa celebrada na catedral.

Quando os sinos tocam, nas casas ligam-se e sintonizam-se computadores, tablets, telemóveis, televisões, num sugestivo diálogo dentre o primeiro meio de comunicação em massa do cristianismo e a mais recente fronteira da comunicação digital.


 

Marcello Palmieri
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Songquan Deng/Bigstock.com
Publicado em 27.03.2020

 

 
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