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Leitura: “A semente lançada à terra – Breves notas de espiritualidade”

O interesse de D. António dos Reis Rodrigues (1918-2009), que durante mais de três décadas foi bispo auxiliar de Lisboa, «pelos acontecimentos da história, a sua paixão pela literatura, a sua reflexão sobre a sociedade e a política», que «nunca foram diletantismos nem se dissociaram da sua vida espiritual e do seu olhar teológico», são uma das marcas do livro “A semente lançada à terra – Breves notas de espiritualidade”, que a editora Lucerna lança no início de fevereiro.

O volume, que assinala o 10.º aniversário da morte do prelado, «reúne diversas notas espirituais» que o autor «foi coligindo como sementes que poderiam vir a crescer e a dar fruto noutras almas, agrupando-as segundo as diversas etapas do ano litúrgico – Advento, Natal, Quaresma, Páscoa e Tempo Comum – e concluindo com um capítulo de reflexões sobre a Igreja», refere a sinopse.

«Ao longo da sua vida sacerdotal, o Senhor D. António dos Reis Rodrigues, pessoa atenta que nada deixava passar sem pensar, chegava a casa ao fim do dia e, se algum pensamento tivera ou alguma frase lida ou ouvida o tocara de modo especial, registava-os numa pequena ficha. Considerava que essas sementes tinham a possibilidade de virem a florescer num pensamento ou numa exortação que pudesse ajudar à conversão», escrevem os padres Duarte da Cunha e Mário Rui Leal Pedras no texto de apresentação.

Os sacerdotes acentuam que a herança de D. António dos Reis Rodrigues, agraciado, a título póstumo, com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo, não se «gasta com o tempo», antes «ganha relevância à medida que o tempo mostra como no seu modo de viver e de pensar» o pensamento do prelado continua a ser «ainda hoje marcante».



Um dos maiores pecados dos cristãos, pecado que também deveria ser para nós motivo de vergonha, é a ignorância religiosa. Que sabe, com efeito, a generalidade dos cristãos das verdades em que diz acreditar? Que sabe do Evangelho? Que sabe da Igreja?



D. António dos Reis Rodrigues deixou o seu nome ligado a gerações de jovens universitários, pela formação que lhes ofereceu e pelo cunho de compromisso humano e cristão na sociedade com que impregnou as suas vidas», assinalou o patriarcado de Lisboa por ocasião da morte.

O livro vai ser apresentado a 3 de fevereiro, às 18h00, na igreja de S. Nicolau, na baixa lisboeta, pelo P. Duarte da Cunha e Pedro Roseta, com a presença do cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, que às 19h15 preside à missa de sufrágio, precisamente no dia em que se completam 10 anos da morte de D. António dos Reis Rodrigues.

Apresentamos alguns excertos, extraídos do capítulo final.

 

D. António dos Reis Rodrigues
Igreja
In “A semente lançada à terra – Breves notas de espiritualidade”

«A história da Igreja, desde as suas misteriosas preparações no Velho Testamento até à primeira vinda de Cristo, e desde aí, passando pela Cruz e pela manhã da Ressurreição e pelo Pentecostes, e pelos séculos que decorreram e hão de decorrer até à sua segunda vinda, é uma cadeia ininterrupta de crentes que, ao convite de Deus, escutado no silêncio e na oração, aceitaram dizer-Lhe sim, e, não obstante os seus pecados, Lhe souberam, ao menos na penitência, permanecer fiéis. Não que ser cristão não nos reserve por vezes uma coroa de espinhos. Mas uma coroa de espinhos teve-a primeiro, e sem comparação com a nossa, o próprio Cristo.
Por conseguinte, como é que ser cristão poderia ser para qualquer de nós um mar de rosas? A fidelidade à nossa entrega inicial à Igreja vem de mais fundo, e está para lá do êxito ou da dor. Vem de Cristo, que está sempre connosco nela, livrando-nos de nos perdermos. Vem da força inabalável do Espírito. Vem do amparo dos anjos que nos guardam. E vem da mística e larga comunhão dos santos em que somos recebidos.»

«Amando, não interessa pensar no que porventura receberemos. O que interessa pensar é no que damos. No que arrancamos de nós, como expressão da nossa dependência. Se para o efeito tivermos de enfrentar as circunstâncias ou a opinião dos outros, e ficar sozinhos num mundo hostil, tanto melhor. Mais autêntico então se revela em nós o amor de Deus. Pois quem apenas O ama só na prosperidade, verdadeiramente não é a Deus que ama; é a si que ama.
Daí vem que tantos se aproximem e se afastem da Igreja, conforme a direcção do vento. O Reino de Deus não é deste mundo; mas é com os padrões do mundo que eles o avaliam. Querem unicamente pão para as suas digestões – e, por conseguinte, querem o Reino de Deus, se imaginam que ele, directa ou indirectamente, lho assegura; mas logo o aborrecem, se concluem que, afinal, ele é, como de facto é, coisa do espírito e não do estômago.»



Por três vezes Jesus pergunta a Pedro se O ama, por três vezes Pedro responde afirmativamente – «Sim, Senhor, tu sabes que Te amo» –, e a cada uma das respostas Jesus declara que lhe entrega o seu rebanho, a fim de que o apascente. Neste diálogo se fala de algo que marca, para sempre, toda a vida da Igreja. O amor a Jesus Cristo precede o exercício da autoridade



«Que deplorável espectáculo costumamos oferecer ao mundo! Conhecemos tantas coisas, a maior parte delas tão insignificantes como inúteis, e ignoramos quase tudo o que respeita à vida, às palavras e à obra de Jesus. Queixamo-nos de que o Evangelho se tenha tornado hoje, para milhões de homens, uma sabedoria praticamente morta. Mas tenhamos a coragem da franqueza: se o Evangelho se tornou para tantos homens uma sabedoria morta, é, em larga medida, porque nós próprios o ignoramos.
Um dos maiores pecados dos cristãos, pecado que também deveria ser para nós motivo de vergonha, é a ignorância religiosa. Que sabe, com efeito, a generalidade dos cristãos das verdades em que diz acreditar? Que sabe do Evangelho? Que sabe da Igreja? Que sabe do que ela ensina sobre a vida, sobre o amor e a família, sobre a dignidade do trabalho, sobre o bom uso dos bens materiais, sobre o mistério do sofrimento e da morte?»

«Multiplicam-se os escritores e os políticos, nomeadamente nesta parte da Europa mais secularizada, que não consentem à Igreja senão uma estrita função de culto. Querem que ela se entretenha apenas com os seus actos de liturgia ou de piedade, fechada nos templos, de costas voltadas ao mundo, o qual entretanto ensaia constantemente novos rumos. A Igreja, contudo, não está fora da História, mas na História. Não é do mundo, mas está no mundo. Em consequência, não pode alhear-se da sorte nem dos combates dos homens, e a todos tem a obrigação de transmitir a verdade que recebeu de Cristo.»

«Por três vezes Jesus pergunta a Pedro se O ama, por três vezes Pedro responde afirmativamente – «Sim, Senhor, tu sabes que Te amo» –, e a cada uma das respostas Jesus declara que lhe entrega o seu rebanho, a fim de que o apascente. Neste diálogo se fala de algo que marca, para sempre, toda a vida da Igreja. O amor a Jesus Cristo precede o exercício da autoridade. Sem ele, a dignidade, o poder, o exercício seja de que ofício for dentro da Igreja não são nada.»



Se, na celebração da Eucaristia, a Igreja se congrega, se estreita, se concentra em redor do seu Senhor, não é para se isolar, mas tão-somente para se redescobrir na sua identidade mais autêntica e, a partir daí, se comprometer com os homens, levando-lhes o alegre anúncio do Evangelho



«Por vezes, a tal ponto são adversas as circunstâncias em que a Providência nos coloca, e numerosas as perplexidades que nos assaltam, e aguda a consciência da nossa fragilidade comparada com a grandeza e a urgência dos deveres a que o amor de Cristo nos obriga, a tal ponto, repito, fazemos a dolorosa experiência das nossas limitações que não é possível evitarmos de todo a tentação de repetir a queixa do profeta Elias: «Basta, Senhor […]. Não sou melhor do que meus antepassados» (1 Rs 19, 4).
O Senhor, todavia, não nos abandona. Legou-nos, como ao profeta, um pão para a caminho, quero dizer, a Eucaristia, no qual o amor definitivamente se revela «forte como a morte» (Ct 8, 6) e em que, diariamente, com Cristo, se aprende a dar a vida para servir. «Levanta-te e anda, porque ainda tens um longo caminho a percorrer» (1 Rs 19, 7).»

«Se, na celebração da Eucaristia, a Igreja se congrega, se estreita, se concentra em redor do seu Senhor, não é para se isolar, mas tão-somente para se redescobrir na sua identidade mais autêntica e, a partir daí, se comprometer com os homens, levando-lhes o alegre anúncio do Evangelho. Por isso, o celebrante, ao terminar a missa, se dirige aos presentes e lhes ordena que partam. Suas provisões foram carregadas de sobrenatural. Agora, no exterior, a vida espera alguma coisa da riqueza que lhes acaba de ser comunicada.»

«Os cristãos são responsáveis pela imagem que derem da Igreja, e até do próprio Deus. Se todos os homens são devedores uns dos outros, mais o somos nós em relação à Igreja. O mundo julga-a por nós, pelas nossas virtudes ou defeitos, pela nossa dedicação ou desleixo, pela nossa magnanimidade ou mesquinhês. E também por nós frequentemente julga o próprio Deus, a tal ponto, e em tal medida, que a primeiríssima obrigação de um cristão, ainda antes da de trabalhar pela salvação dos outros, é a de trabalhar pela «salvação» de Deus: «salvar» Deus da carga de imperfeições, que são nossas, mas que inevitavelmente se projectam n’Ele. E, deste modo, se pode ter por certo que a decisiva questão da presença e da irradiação da Igreja no mundo recai exclusivamente na santidade dos seus filhos.»



A fidelidade à Igreja deve ser, para o cristão no mundo, uma fidelidade criadora. Fidelidade que não espera tudo das directrizes recebidas superiormente, como é próprio dos burocratas. Mas que, arrancando de bases certas, é capaz por si de enfrentar questões, formular juízos críticos, sugerir pistas de solução, abrir caminhos. E que também é capaz de aceitar a sua margem de risco, a sua parte de responsabilidade



«Não procuremos as grandezas da Igreja no favor e no aplauso fácil dos homens e muito menos no apoio dos poderosos ou dos ricos. Procuremo-las antes, e sobretudo, nos lugares onde se sofre e nas lágrimas que ela enxuga, por outras palavras, nas respostas que souber dar ao clamor dos aflitos e dos pobres, daqueles que, pelas circunstâncias adversas em que tombaram, querem fazer-se ouvir, mas com dificuldade o fazem, porquanto já não têm sequer voz para exprimir os seus sofrimentos e os seus direitos.»

«Cristo não nos foi dado só para d’Ele nos aproveitarmos, cada qual interessado apenas no lugar onde virá a sentar-se um dia no seu Reino, se imediatamente à direita se imediatamente à esquerda do seu trono. Desta forma procede uma grande parte dos cristãos, os quais erradamente julgam, também neste domínio com mesquinha mentalidade consumista, que se está na Igreja sobretudo para receber, quando, pelo contrário, se deve estar nela sobretudo para dar – dar aos outros justamente o que nos foi dado a nós, entrando assim no dinamismo evangelizador que logo desde a primeira geração cristã caracterizou a Igreja.»

«As sociedades cristãs em que vivemos precisam cada vez mais de ser sacudidas do sono do cansaço e da rotina em que se arrastam. A Igreja na Terra é, como lhe chamávamos outrora, a Igreja militante. Mas a quem a olha, desprevenido, parece não militante, mas dormente. Cristãos perfeitamente adaptados a este mundo, eles que ouviram do próprio Cristo a expressa advertência de que não devem ser do mundo.»

«A fidelidade à Igreja deve ser, para o cristão no mundo, uma fidelidade criadora. Fidelidade que não espera tudo das directrizes recebidas superiormente, como é próprio dos burocratas. Mas que, arrancando de bases certas, é capaz por si de enfrentar questões, formular juízos críticos, sugerir pistas de solução, abrir caminhos. E que também é capaz de aceitar a sua margem de risco, a sua parte de responsabilidade.
Isto implica, evidentemente, um sólido conhecimento da doutrina da Igreja, alicerçado na oração que torna os espíritos lúcidos e lhes dá um perfeito sentido da Fé. Mas implica, ao mesmo tempo, uma atenção vigilante às realidades do mundo, digo, do mundo presente e não passado, do mundo que todos os dias está em vias de se fazer, agora e aqui.»


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 25.01.2019

 

Título: A semente lançada à terra - Breves notas de espiritualidade
Autor: D. António dos Reis Rodrigues
Editora: Lucerna
Páginas: 128
Preço: 10,00 €
ISBN: 9789898809636

 

 
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