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Rumo ao amor, dia 7: A solidão

Estamos todos um pouco doentes de cansaço, com o peso do caminho já percorrido, dos incidentes de percurso, das desilusões, das incompreensões, dos insucessos, das falsidades e da desconfiança.

Todos um pouco tomados por aquela anestesia que envolve Adão e aquela escuridão que se precipitou sobre Abraão.

Vive-se mal, ou porque nos sentimos qualquer um, ou porque nos sentimos ninguém. Vive-se de instantes, sem nos perguntarmos o que se experimenta, se sofremos verdadeiramente, se nos alegramos verdadeiramente, sem sabermos quanto são exagerados, histéricos ou verdadeiros os nossos sentimentos. Uma vida sem trama, onde se vive de emoções instantâneas.

Esta nossa humanidade tratada como um rebanho sempre objeto de contendas, de conquistas e apelos fáceis da parte de mercenários, mais do que de pastores. E quantas vezes as cadeias que os outros nos impõem, nós as rebatemos com as nossas mãos, apertando-as ainda mais?

Esta humanidade de afadigados e oprimidos, de gente exausta e desconfiada que não ousa desejar nada de melhor ou de mais, não se sente livre se não for protegida pelas leis, pelos legalismos, pelas gaiolas, pelos preconceitos. Tempos que incitam a ser-se originais e otimistas, mas que na realidade não geram homens novos, antes, criam concorrentes, pessoas que para se distinguirem agem todas do mesmo modo. Um otimismo e um sorriso sem esperança, um mundo da aparência onde a muito custo se pretende demonstrar aquilo que não somos, um mundo onde somos incapazes de distinguir aquilo que conta, o pão do conduto.



Muitas vezes pergunto-me se se deseja verdadeiramente a liberdade e se estamos dispostos a pagar-lhe o preço. O preço de pararmos para voltarmos a percorrer as coisas que aconteceram, clarificá-las, voltar a tomar a vida nas mãos



Mas também é verdade que os nossos inimigos trazemo-los muitas vezes dentro de nós, juntamente com a semente da tristeza, com a capacidade de sermos lobos em vez de irmãos. Este mal que nos ataca sempre o coração, procurando destruir aquilo que nos une ao infinito, às únicas três coisas que contam: fé, esperança e amor.

O pior é que tudo isto, mais que esmagar-nos, entorpece-nos, esvazia-nos de sentido e de substância.

Jesus, diante do nosso cansaço, oferece apenas duas soluções: um pedaço de pão e a estrada.

A genuinidade de um pedaço de pão para ter mais coragem, de ver quanto se finge e quanto se é sério; uma limpeza do sentir, para encontrar a coragem de voltar a dar um relance à vida.

A estrada para não absolutizarmos a realidade que se vive, para não ficarmos enredados, para não nos tornarmos prisioneiros de realidades que são imperfeitas. Muitas vezes pergunto-me se se deseja verdadeiramente a liberdade e se estamos dispostos a pagar-lhe o preço.



É preciso continuar a acreditar que os homens podem repentinamente libertar energias insuspeitas, e conseguir sacudir os medos e a tentação do não vale a pena



O preço de pararmos para voltarmos a percorrer as coisas que aconteceram, clarificá-las, voltar a tomar a vida nas mãos; porque a desordem não se elimina sozinha, e a mudança vem do interior, de onde Deus nos pode tocar ao de leve. Mas nós não gostamos de ser vulneráveis, tememos a nossa fragilidade; o nosso orgulho impede-nos de permanecer simplesmente criaturas.

Jesus experimenta forçar as portas fechadas e os corações enclausurados que não conseguem acreditar no impossível, e recorda-nos o sonho da nossa vida.

É preciso continuar a acreditar que os homens podem repentinamente libertar energias insuspeitas, e conseguir sacudir os medos e a tentação do não vale a pena. É preciso continuar a acreditar que, apesar da noite, conseguiremos ver melhor, se soubermos aguardar o dia. E aguardar significa esperar, e a esperança é a paciência do homem. «Na paciência possuíreis as vossas almas» (Lucas 21). Podemos ser como os profetas, homens da impaciência, mas também da paciência infinita!

É belíssimo o Cântico dos Cânticos, onde se descreve este Deus que está atrás do muro, que olha da janela, que espreita através da grade, este Deus tão vivo, criador, fantasioso, entusiasta da vida. Do outro lado, este homem que Deus chama pomba, amigo, que no entanto está entre as fendas da rocha, que não faz ver o seu rosto, e que se envergonha de se mostrar e fazer ouvir a sua voz. Deus que dança e o homem que se esconde.

Sai, peço-te, da tua solidão, faz-nos ver o teu rosto, faz-nos sentir a tua voz.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: TeroVesalainen/Bigstock.com
Publicado em 02.03.2020

 

 
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