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A Terra não é nossa

Num dos primeiros textos que uma breve coletânea de escritos do Papa Francisco, intitulada “A nossa mãe terra. Uma leitura cristã do desafio do ambiente”, diz o sério ecologista em romana sede (pp. 10-11): «[…] a Terra não é uma herança que recebemos de nossos pais, mas um empréstimo que nos fazem os nossos filhos, para que nós a guardemos e a façamos progredir para lha devolver a eles.». Este sentido da relação humana com a Terra como «custódia» e não como «posse» é algo de fundamental.

Em termos puramente laicos, em que não há qualquer referência a qualquer forma de transcendência, isto é, em que nada mais há do que uma fechada imanência necessariamente material de forma exclusiva, em que não existe, portanto, algo como um «Deus criador do céu e da terra», a questão põe-se ainda com maior dramatismo e angústia, pois tudo o que há é isso a que se chama o mundo, seja este entendido como o planeta Terra e sua mais próxima vizinhança seja como o todo do universo material. Relembre-se que, neste âmbito, nada mais há.

Para o laico, tudo começa e tudo acaba como forma de existência num ecossistema material-biológico. Nasce-se – talvez infelizmente – num e para um ecossistema, que pode ser a Terra ou o universo todo, vive-se, melhor ou pior, nesse mesmo ecossistema, nele se morre e nele os componentes materiais do cadáver (já não há corpo, que é coisa viva) se reintegram, acredita-se que cosmicamente, se bem que não haja razão alguma para acreditar em coisa alguma depois da morte.

Deste modo, em ambiente laico, as atitudes variam de um total desrespeito por um ecossistema que, se me suporta, também será o que me matará, pois não comporta a possibilidade de eu poder nele viver indefinidamente, a um total empenho, que raia o que, noutro âmbito, é típico do religioso, importando-me eu, precisamente porque tudo é finito e mortal, com o facto de tudo, por causa de tal limitação, dever ser o mais perfeito possível: o ecossistema deve ser o mais perfeito possível, porque é apenas nessa sua efémera perfeição que se pode encontrar uma qualquer forma de sentido para a própria efemeridade da vida humana, outrossim, totalmente absurda.



O grande mal ecossistémico não consiste sobretudo em estragar o que foi ou o que é, mas em, ao agir deste modo, impedir o ser possível do futuro, tornado impossível pela nossa ação destrutiva



Quer num caso, quer no outro, quer em todos os que laicamente medeiam entre estes extremos, no fim da vida de cada ser humano, de nada importa, para esse mesmo ser humano, isso que do ecossistema subsista, a sua qualidade, pois já nada para ele pode fazer qualquer sentido.

Todavia, se não pode fazer sentido para o ser humano que sabe que vai ser aniquilado, ainda assim, no caso de, neste ecossistema, ter encontrado algo de tão estranhamente antientrópico – é de entropia [desordem, imprevisibilidade, n.e.] que aqui se trata, radicalmente – como é o ato de amor, acompanhado por uma erótica – absurda ecossistemicamente do ponto de vista do simples indivíduo – pelo outro, que leva a dele gostar, especialmente de esses que podem viver para lá da morte de quem os ama, neste mesmo finito mundo, então, o que o Papa diz sobre a relação de empréstimo com a Terra e os descendentes – filhos ou não – faz todo o sentido.

Faz todo o sentido porque a restituição do ecossistema a outros que podem viver para lá da nossa laica e absolutamente finita vida é a única forma de perenidade quer cósmica quer humana quer “pessoal” que o laico pode ter. Não admira, assim, o interesse genuíno que muitos dos laicos têm pela preservação do ecossistema, apesar de para eles tal não ter interesse algum depois de aniquilados. É poético e é, nisso, belo e bom.

Ora, se assim é para os que não têm e não podem ter qualquer forma de esperança porque sabem que vão ser aniquilados – é esta a sua experiência –, como tem de ser para os que dizem acreditar que o ecossistema, a Terra, o Mundo em sentido o mais lato possível, é um dom de Deus, que o doador mandou preservar e desenvolver?



Para o crente, o universo não é entrópico, apenas se encaminha para o «ómega» seu, cansado de tanto movimento e seu desgaste, mas sempre amado pelo criador, amor que anula toda a entropia



Para o crente cristão, a Terra é quer uma herança, que recebeu de Deus, quer um empréstimo que deve pagar ao que é o literal por-vir e que não pode advir se a herança divina for desbaratada.

Percebe-se que, na tradição de Agostinho, o grande mal ecossistémico não consiste sobretudo em estragar o que foi ou o que é, mas em, ao agir deste modo, impedir o ser possível do futuro, tornado impossível pela nossa ação destrutiva.

Todavia, não é esse o fundamento metafísico do sentido de «pecado», a impossibilidade do bem através da nossa ação, isto é, a negação do bem possível? Ora, todo o bem possível é Deus como dado em graça de possível cocriação.

É este mal humano que constitui o ato antiecológico que, se levado ao extremo, resolverá o problema, eliminando o problema, a própria humanidade indigna do nome que ostenta.

O trabalho, que o Papa refere neste mesmo texto, é a capacidade humana antientrópica, fugaz, efémera, sim, mas capaz de criar «jardim» onde apenas há deserto. Para o crente, o universo não é entrópico, apenas se encaminha para o «ómega» seu, cansado de tanto movimento e seu desgaste, mas sempre amado pelo criador, amor que anula toda a entropia.

E eu, prefiro o amor ou a entropia?


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: nature78/Bigstock.com
Publicado em 27.02.2020

 

 
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