Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Leitura: “A tua voz no meu silêncio – Tudo me fala de ti”

Para muitos, o nome do autor do novo livro “A tua voz no meu silêncio – Tudo me fala de ti”, publicado esta semana pela Paulinas Editora, pode não despertar qualquer ressonância; menos estranhos serão poemas como “Como são belos os pés” (“Igreja reunida”), “Felizes os que amam o Senhor” ou “Partilhai a riqueza”, muito utilizados em liturgias e encontros, sobretudo com jovens, desde há décadas, tanto em Portugal como no Brasil.

Pertencente à Comunidade Shalom, sociedade de vida apostólica que remonta ao final dos anos 60, José Luís do Souto Coelho – P. Zé Luís - «não compõe só músicas. É um excelente escritor, em prosa e em poesia, como esta obra o prova de forma evidente», escreve o missionário espiritano Tony Neves, na introdução.

«São parábolas, são fábulas, são alegorias, são reflexões profundas e bem fundamentadas que provocam o nosso espanto e despertam a nossa capacidade – por vezes adormecida – de ativarmos a criatividade e o compromisso», destaca o religioso, também ele prolífico cronista e prosador.

No posfácio, João Manuel Duque, professor catedrático de teologia da Universidade Católica, salienta que «numa modalidade essencialmente poética, o sugestivo livro do P. José Luís aprofunda diferentes modalidades da mediação»: «A nossa relação à água, através da sede; a nossa relação à luz que ilumina a escuridão; a nossa relação à Criação, em geral, sobretudo ao corpo e à terra que habitamos; em suma, a nossa relação ao mistério da vida em que permanentemente nos movemos».



E fui ao encontro dos idosos e dos doentes, e visitei todas as casas, procurando acolher todas as raízes, todas as seivas, todas as flores e frutos desta humanidade semelhante ao capim «que de manhã viceja e à noite morre»



«Todas elas pressupõem uma essencial capacidade de escuta – expressa precisamente na metáfora do silêncio. Nesse sentido, as coisas e os acontecimentos não são automaticamente a voz de Deus. É o seu modo de ressonância em nós – no nosso silêncio – que lhes confere esse estatuto. Não de modo subjetivo ou estritamente psicológico, mas numa interação em que acolhemos o mundo na sua potencial correspondência a Deus», acrescenta.

“A tua voz no meu silêncio” é uma recolha de 45 textos, «em forma de itinerários, que nasceram no trabalho pastoral, para retiros e tempos de formação com jovens e adultos, leigos e religiosos, grupos pastorais», explica o autor.

«Textos que são fruto de contemplação, de oração e da busca para integrar a fé e a vida. Assim, um dia poderemos dizer que tudo me fala de Deus. Esta é uma característica do ser místico, tão importante nestes tempos de vazio e de falta de sentido, de fragmentação, em que a criação, a pessoa, a vida deixaram de ser espelho da presença de Deus», assinala.

Cada reflexão procura oferecer «o desenvolvimento de uma espiritualidade integradora da pessoa em si mesma e nas suas relações, dando importância à integração com a Terra, com os pobres, na dimensão da ecologia integral, e trilhando um caminho de simplicidade e oração contemplativa, o caminho próprio de quem procura permanecer diante do Mistério, mistério de Deus, mistério de si mesmo, mistério de cada pessoa, mistério do universo, mistério da vida».



E foi tanta a experiência da fragilidade nas casas dos pobres e dos doentes, que me senti mergulhado em sofrimento e paixão. E padeci, mesmo, com o povo, embora levasse a força da reconciliação e do pão da Vida, que me fazia encontrar a todos com a dignidade de filhos e filhas de Deus



O P. José Luís está convicto de que «a contemplação é o melhor meio de integração» da vida, enquanto que «o simbolismo coloca a pessoa dentro de um processo de descoberta e criatividade, ampliando a sua experiência subjetiva e objetiva, a integração do dentro e do fora de si».

« Buscamos um caminho de espiritualidade que leve à descober ta dos valores do Reino, uma pedagogia onde a Palavra de Deus surge misturada, como força de transformação da realidade pessoal e social, nascendo da vida e iluminando a vida, como fermento e luz, como fonte e horizonte, como água viva que brota do chão da vida, como presença viva e vivificante do mistério de ser», aponta.

 

Seiva
José Luís do Souto Coelho
In “A tua voz no meu silêncio”

Sentei-me à sombra verde de um juazeiro para saber o seu segredo. A comunhão da terra e das raízes é o segredo do juazeiro, pensei: raízes profundas, penetrantes, que buscam nos lugares mais escondidos da terra seca algum cheiro de humidade. Mergulhei, depois, no seu tronco, para percorrer os canais da seiva. Pensei, o segredo do juazeiro está nos canais da sua seiva interior. Perguntei, depois, sobre as suas folhas: são resistentes e verdes, duras, de pouca transpiração.

Mergulhei na copa amarela de um ipê e perguntei: tanta beleza de onde vem? Porque tanto esplendor na terra seca? Misturei a terra seca e o céu azul que o ipê majestoso unia. Onde está o teu segredo, ipê generoso, beleza que extasia o nosso ser?

Dirigi-me depois para o mandacaru. Estava numa terra muito dura e seca, entre pedras. E crescia verde, cheio de água. Parece apenas um caule, sem folhas e com espinhos. E quis saber também o seu segredo. O mandacaru não disse nada. Vi que também tem raízes, tem caule que sobe direito ao céu, tem flores brancas e sensíveis, e frutos vermelhos ardentes.

Caminhei no meio do capim seco e lembrei-me que a vida humana é como a «erva que de manhã viceja e à noite está seca» (Sl 90,6). E então perguntei-me: «O que é o ser humano para dele te lembrares? Mesmo assim, fizeste-o um pouco inferior aos anjos, de glória e esplendor o coroaste» (Sl 8,5-6). E quis saber também o segredo do capim: tem raízes, tem caule, folhas e se mentes. Qual é o seu segredo?



Mergulhamos na vida interior para sermos donos da nossa própria vida, para darmos direção à nossa existência, a direção da vida plena



Quando acordei, vi o Sol nascer. E perguntei-lhe: porque és tão belo, tão luminoso, tão quente? Não tens raízes, nem folhas, nem caule. Mas, sem ti, a vida não desponta na Terra. E perguntei- me sobre o segredo do Sol.

Ainda nem avistava a aldeia, quando encontrei um menino. E deixei-me guiar. A minha sede precisava de alguém inocente para ser guiado até às fontes que saciam. Percebi que foi a sede que me conduziu até ali. E perguntei-me sobre o meu segredo. E o menino conduziu-me a um lugar onde não havia nada e deixou-me sozinho, desaparecendo, como se tivesse aparecido por acaso. E na resposta sobre mim mesmo, confundi-me com o juazeiro, com o mandacaru e com o capim. E, depois, veio o Sol, que ficava noutra esfera. E procurei as minhas raízes e a seiva do meu tronco e as flores e os frutos. E procurei entrar em mim, com a luz do Sol a abrir-me.

E, aos poucos, fui-me achegando da aldeia que ficava no sopé da serra. Nessa estação, os caminhos eram de lama, de tanta água caída do céu, empapando a terra. E tudo estava verde, o capim e as sementeiras, já quase no ponto de produzir milho verde, e, dali a um mês, arroz. E qual não foi a minha surpresa quando encontrei de novo o menino. Chamava-se Vítor, tinha onze anos e era a transparência viva das tendências da pessoa humana. Na relação comigo era sério e adulto, e na relação com os outros meninos era criança. Brigava e competia com os seus colegas, e era mesmo ciumento, querendo ficar sempre em primeiro, no meio deles. Que desejo de liderança este menino tinha, de realização, de conhecimento, de participação, de ser estimado e valorizado por todos. Aos onze anos era aceite como uma liderança da comunidade. E guiou-me pelos caminhos do povo. E fui ao encontro dos idosos e dos doentes, e visitei todas as casas, procurando acolher todas as raízes, todas as seivas, todas as flores e frutos desta humanidade semelhante ao capim «que de manhã viceja e à noite morre». E foi tanta a experiência da fragilidade nas casas dos pobres e dos doentes, que me senti mergulhado em sofrimento e paixão. E padeci, mesmo, com o povo, embora levasse a força da reconciliação e do pão da Vida, que me fazia encontrar a todos com a dignidade de filhos e filhas de Deus. E que desejo eu tinha de libertar as pessoas dos males que as oprimiam. E lembrei-me tantas vezes da identidade de Jesus: «O Espírito de Deus está sobre mim, porque Ele me ungiu, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos, e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor» (Lc 4,18-19).



«Rezo muito, mas sinto sempre dentro de mim um fundo pessimista e triste», um dia alguém partilhou assim. Ora, até este fundo de motivação pessimista pode ser transformado num ser confiante e cheio de esperança



Fico a querer saber o segredo de tudo: do juazeiro, do ipê, do mandacaru, do capim rasteiro, desse menino encantador, o Vítor, de mim mesmo, das pessoas oprimidas pela pobreza e pelo sofrimento. Fico com a resposta do caminhar na fé, na liberdade e no amor, diante do mistério incompreensível de Deus e da vida. Compreensível apenas pela entrega ao absoluto de Deus, fonte da vida, mistério revelado e escondido. A verdade vai-se revelando aos peregrinos. Não existe verdade para quem não amadurece no caminho. Quem entrará no segredo do juazeiro? Quem descobrirá o segredo da vida?

1. É um desejo irresistível, este, o de caminhar dentro da vida, de conhecer o seu segredo, de tocar o mistério, de mergulhar na seiva da vida, percorrendo os seus canais interiores, as suas veias, bebendo a sua essência e comungando o seu silêncio. É uma atração permanente que leva a buscar o interior da vida, do ser, como o peregrino que se alimenta de bondade e ternura, e se sacia de beleza e verdade, sem nunca se saciar. Procuro o mistério, desejo o mistério, o encontro do meu ser com o Ser, no Ser. Vida interior descubro, dia a dia, como se entrasse no olho d’água e percorresse o seio da Terra, nos canais da Terra, ao encontro do ponto mais escondido e mais original da fonte.

2. Caminhando no interior, nos segredos da vida interior, vamos aprendendo a conhecer as motivações. Elas fazem parte do segredo da vida, energias interiores tantas vezes escondidas e desconhecidas que nos fazem ser, crescer, desenvolver, amadurecer, fazer, experimentar, relacionar, viver; acolher e ofender; amar e odiar; conhecer e ignorar; sonhar e desacreditar; enobrecer e embrutecer; ligar e desligar; agredir e redimir; ferir e curar; fechar e abrir. São tendências para o bem e para o mal, que constituem o nosso ser, que aprendemos a conhecer, a educar e a organizar, energias que nos fecham e que nos fazem transcender, energias de morte e de vida. Mergulhamos na vida interior para sermos donos da nossa própria vida, para darmos direção à nossa existência, a direção da vida plena. Como as árvores, aprendemos a transformar a seiva bruta em seiva elaborada; como o mandacaru e o juazeiro, «plantas inteligentes», armazenamos a água, para permanecermos viçosos no tempo da seca.



Ninguém, edificado sobre a bondade e a verdade de Deus, poderá ficar indiferente diante da escravidão e da opressão, da injustiça e da desumanização, da destruição da vida



3. Ser conduzido por um menino

«O lobo será hóspede do cordeiro, o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarão juntos, e um menino os conduzirá. Ninguém agirá mal nem provocará destruição no meu monte santo, pois a Terra estará cheia do conhecimento do Senhor, como as águas enchem o mar» (Is 11,6.9).

Vítor era um menino puro, o humano e o divino estão nele, transparentes, duas fontes de motivação, as tendências (necessidades) humanas e os valores, misturados dentro dele como em nós, ativos, nem sempre distinguidos. Ser conduzido por um menino significa ser conduzido sem barreiras, encontrando-se com a própria fragilidade, na simplicidade e na inocência. Todas as portas se abriam para ele, pois ninguém se sentia ameaçado com a sua presença. Vamos ao encontro de nós mesmos na simplicidade e na inocência, para sermos transparentes e livres no encontro connosco mesmos, conduzidos por um menino: «Se não vos converterdes e não vos tornares como crianças, não entrareis no Reino do Céu. Quem se abaixa e se torna como essa criança, esse é o maior no Reino do Céu» (Mt 18,3-4). O orgulhoso, o preconceituoso, o poderoso, o desconfiado, o complicado, o inseguro... não se deixam conduzir por um menino.

4. Deixar-se construir pela bondade

Conhecemos bem quem edificou o seu ser sobre a bondade, e quem edificou sobre a rejeição. Quem tem como princípio da sua vida a bondade é harmonioso e compreensivo, confiante e direcionado para o bem e pelo bem; naqueles em que prevaleceu a rejeição podemos ver rebeldia, desconfiança, carência, agressividade, inferioridade, ciúmes, defesa e ataque.



Viver colocando Deus como fundamento da nossa vida é assumir todo o nosso ser físico, psíquico e espiritual, as nossas dialéticas, para sermos livres pela ação libertadora do amor de Deus, caminhando dia a dia pelos valores do Reino, sendo livres no crescimento, desapegados, abertos à libertação



Jesus tinha a experiência de ser amado, «o Espírito de Deus está sobre mim», tinha a sua personalidade edificada pelo amor, no amor do Pai e do Espírito, é o «Filho Amado», querido do Pai; o seu ser é construtivo, libertador, fundado na bondade e na verdade de Deus, voltado para o bem, Reino de Deus, personalidade cativante e libertadora, bela, seduzindo o povo pelo poder de ser presença do Reino.

«Rezo muito, mas sinto sempre dentro de mim um fundo pessimista e triste», um dia alguém partilhou assim. Ora, até este fundo de motivação pessimista pode ser transformado num ser confiante e cheio de esperança. Isto significa colocar o ser de Deus como fundamento da nossa vida. Deus dá-nos o seu ser, e podemos ir estruturando e construindo a nossa vida sobre o ser de Deus, a sua bondade, verdade e beleza.

5. «A Boa-Nova aos pobres, a libertação aos cativos»

Um dos sinais de que a nossa vida é habitada pela seiva do ser de Deus, do ser em Deus, é a comunhão com os pobres e oprimidos. A própria experiência do ser em Deus é a de ser libertado por Deus. Ninguém, edificado sobre a bondade e a verdade de Deus, poderá ficar indiferente diante da escravidão e da opressão, da injustiça e da desumanização, da destruição da vida. A glória de Deus é a vida do universo, da Terra e sobre a Terra. A missão de ser agente da libertação constitui a identidade de todos os que fazem a experiência do amor de Deus, Trindade Santa, que vem ao encontro da nossa história e a assume, na radicalidade da Encarnação, até à morte de cruz. Deus da História, libertador e salvador, é o nosso Deus.



Deus é a seiva, a energia, o princípio da vida da pessoa. Só através de um trabalho consciente de conhecimento das nossas motivações, podemos ir transformando o nosso ser, para que assuma as motivações do amor de Deus



6. Qual é o fundamento da minha vida?

Colocar Deus, Trindade Santa, como fundamento da nossa vida exige que façamos um processo de autotranscendência teocêntrica. Isto equivale à transformação das motivações da nossa vida. Podemos perguntar-nos: vivo em função de quê? De mim mesmo? De Deus?
Viver em função de si mesmo significa viver para corresponder e satisfazer as necessidades inatas, os mecanismos de defesa, os traumas e frustrações da história pessoal, os sentimentos gerados ao longo do tempo (ressentimentos, mágoas, feridas antigas do nosso ser); significa viver em função do passado, defensivamente, a partir das nossas tendências que geram apegos a nós mesmos, às coisas, a cargos, a pessoas, a situações, a ideias, a sentimentos. Viver em função de si mesmo é não ser livre, é não crescer na transcendência de si mesmo.

Viver colocando Deus como fundamento da nossa vida é assumir todo o nosso ser físico, psíquico e espiritual, as nossas dialéticas, para sermos livres pela ação libertadora do amor de Deus, caminhando dia a dia pelos valores do Reino, sendo livres no crescimento, desapegados, abertos à libertação; é agir em função dos valores de Deus que nos libertam e transformam o nosso ser fechado em ser infinito, na harmonia de um passado assumido e redimido, num presente responsável e em conversão, e num futuro que se abre livre e confiante. A pessoa que tem o seu fundamento em Deus deseja ir transformando os seus mecanismos humanos que não a deixam caminhar em Deus, pela ação do amor de Deus que a enche de liberdade, dos valores humanos, éticos e religiosos. Ter fundamento em Deus é ser autónomo a partir de Deus, é ser teónomo: Deus é a seiva, a energia, o princípio da vida da pessoa. Só através de um trabalho consciente de conhecimento das nossas motivações, podemos ir transformando o nosso ser, para que assuma as motivações do amor de Deus. «Tenho água no meu ser que anseia beber-te.» O amor de Deus refaz-nos, constrói-nos e reconstrói.

Contemplamos João 15.


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 11.03.2020

 

Título: A tua voz no meu silêncio - Tudo me fala de ti
Autor: José Luís do Souto Coelho
Editora: Paulinas
Páginas: 280
Preço: 13,50 €
ISBN: 978-989-673-735-1

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos