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Agora toca a nós

Toca aos heróis ou toca a nós? Na travessia da quarentena nacional - e global - fez-nos boa companhia o pensamento de que “lá fora” tivesse despontado das dobras do país um exército de bem capaz de extrair competências, energias e recursos morais, sobre os quais, inconscientemente, sabíamos com que podíamos confiar sempre, e que, com a nação encurralada às cordas, se perfila como se estivesse sempre mobilizado.

É um fenómeno que vimos repetir-se mais uma vez, mas numa escala nunca vista: quando é preciso, muitos entre nós sabem como fazer, e fazem-no de maneira sublime, exemplar. Veem onde é necessário intervir, e se encontram um obstáculo, removem-no ou contornam-no com determinação, criatividade, e não raro com resultados sem igual. A pandemia voltou a acender, em grau máximo, esta capacidade de gerar obras e soluções em favor dos outros.

Como se a centelha fulgurasse precisamente quando se dá conta de que há um carenciado que pede, mais ainda do que capacidades técnicas, olhos para vê-lo e mãos generosas para o tirar da sua condição. A unidade de propósitos de todo um país por trás da vanguarda de profissionais e voluntários à altura do bom samaritano foi como que a consequência natural do alastrar imediato de pessoas para o bem: sentimo-nos representados por eles, muitos de nós fizeram parte deles, durante uma porção pequena ou extensa da viagem que percorremos desde o desencadear do contágio até hoje.



Devemos salvaguardar a memória, como uma herança preciosa, destes testemunhos, protagonizados quer por quem se esgotou sem descanso ao longo de meses, quer aqueles que se distinguiram por um só gesto de fulgurante generosidade. Não nos deixemos distrair pelo recomeço de divisões, polémicas, ceticismos, egoísmos pessoais e corporativos



E quem ficou à varanda sentiu que, com eles comprometidos em colocar travões aos efeitos do contágio, estava em campo também uma parte de si, a mais límpida, confiável e encorajadora. Vimo-nos ao espelho, vendo-nos muito melhores do que acreditávamos, não rancorosos ou amedrontados, como descrevem cruamente muitas radiografias da sociedade, mas capazes de ver a ferida do outro, a necessidade de todos, a vantagem da comunidade, e de preferir o seu cuidado do que o cultivo do nosso interesse, ao qual também o convergir de ideologias económicas, sociais e éticas de cunho individualista (moeda falta que quer expulsar a boa) procurou induzir-nos com sedutoras artes.

Mesmo as pesadas privações a que todos fomos submetidos, e que produziram uma generalizada situação de sofrimento e angústia pelo futuro, foi aceite com um efeito inevitável de uma batalha cruenta combatida por tantos na frente por nossa conta. A amplificar o envolvimento coletivo juntou-se a evidência de que não só aos médicos e enfermeiros se devia o nosso reconhecimento, mas também à fileira de pessoas anónimas das quais aflorou, por vezes quase por acaso, a dedicação às necessidades dos outros, histórias e nomes que a atualidade noticiosa levou à boca de cena, e que na sua semelhança à nossa própria vida consolidou a ideia de que todos somos chamados à causa, cada qual envolvido nas vicissitudes de todos.

E se foi natural definir como “heróis” aqueles que vislumbrámos na frente, fizemo-lo sabendo que, na realidade, eles somos nós, homens e mulheres de toda a condição e ofício que fazem aquilo que devem sem poupanças nem astúcias, permitindo-nos cortar pela raiz a desconfiança que, infelizmente, se tornou perniciosa companheira de viagem. Devemos salvaguardar a memória, como uma herança preciosa, destes testemunhos, protagonizados quer por quem se esgotou sem descanso ao longo de meses, quer aqueles que se distinguiram por um só gesto de fulgurante generosidade. Não nos deixemos distrair pelo recomeço de divisões, polémicas, ceticismos, egoísmos pessoais e corporativos: sabemos que somos muito melhores do que a forma como nos vemos quando, a ditar o humor nacional, só há aparência de polémicas, egoísmos, cobardia.

Mas a condição para enfrentar com passo seguro a nova travessia em terra incógnita que nos espera é que aquilo de heroico redescobrimos por dentro como reflexo do testemunho partilhado por tantos se torne parte de um novo estilo de quotidianidade capaz de esperança, reconciliada com os outros, que a cada manhã se redescobre rica da melhor parte daquilo que nos constitui como pessoas, cidadãos, e em muitos casos, crentes. Os dias dos heróis acabaram: agora toca a nós.


 

A partir de texto de Francesco Ognibene
In Avvenire
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: rexandpan/Bigstock.com
Publicado em 09.06.2020

 

 
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