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Rumo ao amor, dia 1: Além do abraço

A caminho da Páscoa, o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura propõe um itinerário quaresmal através do acolhimento e da espiritualidade de Luigi Verdi, sacerdote italiano fundador e responsável pela Fraternidade de Romena.

 

Chego a uma povoação, no coração da Bolívia, ao cair da noite, saúdo as pessoas protegidas por cabanas de ramos e lama, ao fogo panelas de ferro e terracota com aquele pouco de sempre que chega apenas para um dia. Molho um pedaço de pão numa panela e procuro um canto para me estender, acomodo-me na noite. Pela manhã levanto-me cedo, dirijo-me ao rio para lavar a cara. Enquanto ali estou, vem ao meu encontro uma criança belíssima e vivaça, de rosto sujo e vestida de farrapos, olha-me, agarra-se-me ao pescoço e sussurra: «Quero-te bem».

Começo a chorar, um misto de dor e alegria, como dar à luz um filho.

Aquele abraço e aquelas palavras mudaram a minha vida mais do que mil pregações, livros ou encontros, confirmando-me que a mudança acontece quando menos esperas, e quando lavas a cara para te tornares criança.

Desde há muitos anos que, aqui em Romena [Itália], oferecemos um abraço a quem quer que chegue e reparta. Abraços com a vontade de nos apertarmos e reconhecermos, sem perguntar em demasia o porquê e o como. Quando abraço, tento de cada vez fechar os olhos e abraçar como aquela criança, pobre, simples e consciente, procurando ser verdadeiramente aquilo que sou.

Um abraço que não se esgote na sua força emotiva, ou no seu delicado abandonar-se, que não seja um inciso ou um parêntesis, mas ponto de partida e de chegada de cada encontro. Um abraço consciente que te purifique e te torne mais verdadeiro.



Acolher quem perdeu parte de si, oferecendo-lhe a atenção do coração, como a um filho exausto a quem não se procura sobretudo fazer o bem, mas querer-lhe bem. Escutando



Por detrás destes abraços encontrei homens e mulheres em fuga de si próprios que procuram coisas sempre novas, que depois, na realidade, descobrem antigas como as montanhas; que evitam a coisa menos agradável que é o conhecimento claro de si. Percebi neles uma vitalidade e uma energia dispersa na laboriosa busca de paz. Paz que não se obtém na agitação, mas em transformar esta energia num agir criativo.

Mas também encontrei quem, purificado do egoísmo e sobretudo do orgulho, se torna capaz de heroísmos, de profecias e de originalidade.

O homem que de grão se torna espiga, mas também o homem que tem a coragem de passar pelo fogo e tornar-se pão.

Depois de todos estes anos, sei bem que o melhor não está atrás de nós, mas está ainda à nossa frente, e que aquela casa de Romena tem os traços e a expressão do nosso tosto, e que não haverá uma amanhã melhor do que o nosso rosto.

Procuro ser sensível às novidades de cada dia e cada pessoa que encontro, luto muito comigo próprio para procurar ser uma presença delicada, sabendo que nenhum homem te permite ultrapassar o seu umbral se a cada dia não te limpas da poeira do orgulho e não chegas a uma doçura amadurecida.

«Entra, esperávamos-te há muito», isto gostaria que sentisse cada pessoa que passa por aqui. Pode ser um amigo ou um estranho, uma pessoa forte ou frágil, quem quer que seja gostaria de sentir a responsabilidade daquilo que poderemos fazer nele.

Acolher quem perdeu parte de si, oferecendo-lhe a atenção do coração, como a um filho exausto a quem não se procura sobretudo fazer o bem, mas querer-lhe bem. Escutando.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: © Fernando Del Berro
Publicado em 25.02.2020

 

 
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