Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Aprender da sabedoria das árvores

Naqueles dias, o Sol obscurecer-se-á, a Lua extinguir-se-á, as estrelas cairão do céu (Marcos 13, 24-32)… O universo é frágil na sua grande beleza, mas «aqueles dias» são estes dias, este mundo obscurecer-se-á com as suas trinta e cinco guerras em curso, a Terra extingue-se envenenada, intermináveis caravanas humanas migram através de mares e desertos… Parece-te um mundo que se afunda, que anda à deriva? Vê melhor, vê mais a fundo: é um mundo que caminha pra o renascimento.

Jesus ama a esperança, não o medo: aprendei da figueira: quando o seu ramo se torna tenro e despontam as folhas, sabei que o verão está próximo. Jesus conduz-nos à escola das plantas, para que as leis do espírito e as leis profundas da realidade coincidam. Cada rebento assegura que a vida vence sobre a morte.

Aprendei da sabedoria das árvores: quando o ramo se torna tenro… No inverno não imaginamos o amolecer do ramo; o seu amaciamento pela linfa que torna a encher os pequenos canais é uma surpresa e um espanto antigo. As coisas mais belas não são para procurar, mas para esperar. Como a primavera. E despontam as folhas, e tu não podes fazer nada; ou talvez sim: contemplar e proteger.

Então compreendereis que o verão está próximo. Na realidade, os botões indicam a primavera, que no entanto, na Palestina, é brevíssima, poucos dias e logo depois é o verão. Assim também vós sabereis que Ele está próximo, está à porta. Deus é próximo, está aqui; belo, vital e novo como a primavera do cosmo.

De um rebento aprendei o futuro de Deus: que está à porta e bate; vem não como um dedo apontado, mas como um abraço, um germinar humilde de vida. «Todo o mundo é uma realidade germinante» (R. Guardini).

Então sinto-me como uma barca, que deixou de estar ansiosa pela rota a seguir, porque sobre ela sopra um Vento de Céu, e a lâmpada da Palavra está acesa à proa. Passam o Sol e a Lua, que são o relógio do universo, esfarela-se a Terra, mas não as minhas palavras, são um Sol que nunca declinará dos horizontes da História, do coração do ser humano.

Somos uma geração de lamentos, que deixou de saber agradecer, que dissipou os profetas e poetas, os enamorados e os bons. E todavia são eles a parábola, o rebento, ramo de figueira ou de amendoeira do mundo salvado. São-no aqui e agora, sobre a Terra inteira e dentro da minha própria casa, como rebentos bons, embebidos de Céu, impregnados de Deus. Quem me quer bem é lâmpada para os meus passos.

Olhai bem, uma gota de luz está intrincada em cada ruga, um grama de primavera e de futuro está enraizada em cada rosto. A fé repete-me que Deus está à porta, está próximo, está aqui, está neles. «Cada um é um próprio momento de Deus» (D. M. Turoldo).


 

Ermes Ronchi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: HelgaGont/Bigstock.com
Publicado em 12.11.2021

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos