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À margem do "Grande Herbário de Sombras" de Lourdes Castro

Talvez os primeiros herbários se devam procurar nos capitéis dos edifícios egípcios ou na sua arte funerária, nos motivos vegetais que decoravam santuários caldeus irremediavelmente perdidos, em baixos relevos da Antiga Assíria, como aquele de Koyoundjik, que representa a passagem de deuses caçadores por um variegado bosque ou, da mesma proveniência, o que representa um leão e uma leoa aos pés de uma palmeira e de uma vinha, e que hoje se pode ver no Museu Britânico.

Talvez juntando as referências das cosmogonias primordiais se pudesse folhear um herbário poderoso: a planta imortal roubada a Gilgamesh, a verdura suscitada por Marduk, os cedros em cuja sombra Shamash, o deus-sol habitava, o roseiral que Bel plantou sobre a terra, as plantas de raízes de cristal que, num mito babilónico, se podem encontrar no centro da terra. Ou das imagens da poesia bíblica se pudesse compor um mesmo herbário fantástico, um jardim-fechado onde os nomes, os perfumes e as formas vegetais assinalam não apenas os seus itinerários, mas também os da nossa alma, porque «todos os mortais são como a erva/ e toda a sua beleza como a flor do campo» (Isaías 40,6).

Um dos mais antigos é o de Plínio, o velho (23-79 d.C.), e não é exactamente um herbário, mas alguns livros que ele dedica à botânica na sua obra Naturalis historia (livros 14-17 e 19-25), uma espécie de enciclopédia prodigiosa, que serviria, segundo ele, para ‘guiar o homem, necessitado de conselho e de ajuda na imensidão da natureza’. Plínio foi oficial de cavalaria na Germânia e desempenhou várias funções civis ao serviço da família imperial, mas viveu sobretudo de uma febre ansiosa por conhecer, experimentar, recolher. Das plantas, não só reuniu conhecimentos populares e notícias eruditas: ele próprio, escrupulosamente, verificava esses saberes no jardim de um seu contemporâneo, um herborista notável de nome Castor.

Plínio conheceu outros herbários realizados já no seu tempo, normalmente ligados à prática da medicina. Esses herbários descreviam a utilidade ou o perigo que certas plantas constituíam. Num interessante estudo sobre ‘os nomes das plantas na Roma antiga’, Jacques André recorda que «às plantas inúteis não era dado um nome». Mas o conceito de ‘utilidade’ amplia-se imensamente (ou imensamente se esconde) se pensarmos no cuidado com que Plínio descreve as suas plantas mágicas.

Uma mudança na arte dos herbários ocorreu quando, para contornar falhas de conhecimento, alguns começaram a reproduzir em imagem colorida os particulares das plantas. Plínio reagiu assim a tal inovação: «Cratévas, Denys e Metródoro utilizaram um método muito sedutor, mas que só salienta a dificuldade do argumento: eles reproduziram a planta, em cor, e escreveram por baixo as suas propriedades. Mas a própria pintura é enganadora, porque as cores são numerosas, sobretudo quando se quer rivalizar com a natureza, e elas são muito alteradas pelos infortúnios da cópia. Além disso, não basta pintar a planta num único período da sua vida, pois elas mudam de aspecto com as quatro estações do ano» (Naturalis historia, 25,8).

Uma forma de sublinhar a rara beleza deste herbário de Lourdes Castro é pensar que, talvez, Plínio o amasse.

JTM

© SNPC

 

 

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