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Pré-publicação: “As literaturas em língua portuguesa”

Das origens trovadorescas e cronísticas aos vislumbres de hipercontemporâneo nos alvores do século XXI, passando por África, Brasil e Oriente: são 20 capítulos, quase 800 páginas, que compõem a obra “As literaturas em língua portuguesa”, assinada por José Carlos Seabra Pereira, diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, que a editora Gradiva vai lançar em fevereiro.

Carlos Ascenso André, que até 2018 foi coordenador do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa, destaca, no prefácio, que «faltava ao olhar sabiamente traçado na História da Literatura Portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes, um aspeto essencial, no que respeita ao seu uso no ensino do Português como Língua Estrangeira: um olhar igual­mente breve, mas não menos atento e rigoroso, para as outras literaturas de língua portuguesa».

«Precisávamos (…) de uma obra que não se limitasse à Literatura Portu­guesa, mas que se alargasse, de forma abrangente, às demais literaturas de língua portuguesa. Mas precisávamos, igualmente, de que tal obra tivesse em conta esse público alvo muito específico que são os milhares de aprendentes do Português mundo fora, com os seus condicionalismos próprios: um público heterogéneo, com patamares de conhecimento muito assimétricos, com interesses diversificados. Ou seja: uma obra acessível, mas rigorosa, útil a quem se limita à superfície das coisas, mas não menos instrumental para quem pretende descer mais fundo na sua reflexão e no seu conhecimento», acrescenta o professor universitário.

O estudo, explica José Carlos Seabra Pereira, procura «detetar e situar as tendências de correntes, grupos e individualidades, na sucessão daquelas dominantes que caracterizam os vários períodos e a importância relativa que neles vai cabendo a géneros e subgéneros literários e a discursos conformados em função de específicos destinatários (como o da chamada literatura infanto-juvenil)».



«Outro aspeto insólito deste estudo reside no facto de contrariar o pendor tradicional para minucioso e dilatado tratamento das épocas mais distantes, em contraste com uma atenção mais sumária, se não apressada, à época contemporânea. No presente ensaio invertem-se as dimensões dos respetivos capítulos, com nítida expansão a partir da viragem para o século XX e decidida progressão pelos terrenos da literatura hodierna»



«Não são rasuradas as tendências emergentes ou epigonais que coabitam com aquelas hegemonias estético‑literárias em cada período e mormente nas fronteiras fluidas do seu dealbar ou do seu ocaso. Nem ficam esquecidas a palavra e a escrita de minorias de origem étnica, de classe social, de género ou orientação sexual, de periferias culturais, tal como os autores marginais nos circuitos de edição e receção, ou inconformistas perante as instâncias do funcionamento institucional da literatura», assinala o texto de apresentação, de que publicamos um excerto.

José Carlos Seabra Pereira é doutor pelas Universidades de Poitiers e de Coimbra, tendo exercido a docência na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e Universidade Católica Portuguesa. Investiga as áreas de Teoria Literária e Literatura Portuguesa Moderna, de Estudos Camonianos e de Estudos Pessoanos. É o coordenador científico do Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos da Universidade de Coimbra, entre outros cargos. Integra o júri de vários prémios literários portugueses, e faz parte do Conselho de Redação da revista Brotéria.

O volume (40,80 €, em pré-lançamento, com entrega a partir de 4 de fevereiro), será tema de destaque numa das próximas edições do Jornal de Letras, com uma entrevista ao autor e análise crítica.

 

Apresentação (excerto)
José Carlos Seabra Pereira
In “As literaturas em língua portuguesa”

O presente estudo não é um comum manual de história literária, mas sim um ensaio longo de roteiro das literaturas em língua portuguesa, que se distingue pela perspetiva de conceção e pelos parâmetros de elaboração. Com efeito, foi projetado com uma ambição duplamente insólita: a extensão no conspecto diacrónico dessas literaturas — desde as origens medievais até aos nossos dias (em rigor, até às vésperas da conclusão deste livro, na primavera de 2019) — e a amplitude no panorama dos espaços transcontinentais da sua realização histórica (em Portugal e no Brasil, em Cabo Verde e em Angola, em São Tomé e Príncipe e na Guiné, em Moçambique e na Índia, em Macau e em Timor, até em diásporas atuais através da Europa e da América).

Outro aspeto insólito deste estudo reside no facto de contrariar o pendor tradicional para minucioso e dilatado tratamento das épocas mais distantes, em contraste com uma atenção mais sumária, se não apressada, à época contemporânea. No presente ensaio invertem-se as dimensões dos respetivos capítulos, com nítida expansão a partir da viragem para o século XX e decidida progressão pelos terrenos da literatura hodierna. Trata-se de uma orientação intencional, que creio justificada e fecunda. Por um lado, foi então que as li­teraturas portuguesa e brasileira tiveram o seu «século de ouro»; também foi então que se consolidaram ascendentemente as literaturas caboverdiana e an­golana, se reforçaram e valorizaram as literaturas de Moçambique e de Macau, e se afirmaram em diferentes proporções as literaturas santomense e guineense, indostânica e timorense. Por outro lado, os promotores do projeto e o autor do texto convergiram na convicção de que esse relevo dado à arte literária da época contemporânea será mais aliciante para leitores da nova geração, sobretudo quando não tiveram o português como língua materna, nem se formaram na familiaridade com a tradição cultural lusíada.



A obra tem em atenção «as diferentes condições políticas e linguísticas e os diversos contextos etno-culturais e socioculturais potenciaram as atualizações variadas dos paradigmas inspiradores, bem como a evolução da língua literária portuguesa, com a interferência de variantes idiomáticas, de fenómenos de crioulização, de transvases de outras línguas»



Este ensaio longo não foi pensado e elaborado como junção de sequências autónomas de capítulos dedicados a cada uma das lusografias nacionais. Apresenta, ao invés, visão e representação de um curso de criações estético-literárias que, derivando heterogeneamente da nascente galega-portuguesa, vai tendo ao longo dos séculos suas afluências e defluências, por vezes com fontes autóctones e des­tinos de diferentes identidades comunitárias (aliás, identidades plurais e abertas, em transição e migração). Assim procura captar e acompanhar um fluxo de águas vivas que, quanto mais se abre em inestancáveis deltas nacionais, mais parece dirigir‑se para uma comunidade interliterária (na aceção de Dionýs Ďurišin).

Dadas as dimensões tão vastas desta cartografia das literaturas em língua portuguesa, não houve como evitar uma ou outra página que elenca nomes, títulos e datas — mormente no último capítulo, onde a economia editorial deste trabalho levou a que mais extensas análises de autores e obras fossem pro tempore reduzidas a rápidas sínteses ou referências. Mas este estudo não se entrega a um inventário atomizado dos factos literários, antes se rege por uma visão sistémica do devir diassincrónico dos estilos de época e do dinamismo peculiar do campo literário.

Nesse domínio, cuida em simultâneo de detetar e situar as tendências de correntes, grupos e individualidades, na sucessão daquelas dominantes que ca­racterizam os vários períodos e a importância relativa que neles vai cabendo a géneros e subgéneros literários e a discursos conformados em função de específicos destinatários (como o da chamada literatura infanto-juvenil). Não são rasuradas as tendências emergentes ou epigonais que coabitam com aquelas hegemonias estético-literárias em cada período e mormente nas fronteiras fluidas do seu dealbar ou do seu ocaso. Nem ficam esquecidas a palavra e a escrita de minorias de origem étnica, de classe social, de género ou orientação sexual, de periferias culturais, tal como os autores marginais nos circuitos de edição e receção, ou inconformistas perante as instâncias do funcionamento institucional da literatura.

Além das exigências epistemológicas e metodológicas inerentes ao trabalho de periodização literária, este estudo atentou devidamente em que a diversa historicidade das literaturas aqui em causa veio potenciar as assincronias nos processos de gestação ou importação, de instauração ou de arrastamento, de certos estilos epocais. De igual modo, teve também em atenção que as diferentes condições políticas e linguísticas e os diversos contextos etno-culturais e socioculturais potenciaram as atualizações variadas dos paradigmas inspiradores, bem como a evolução da língua literária portuguesa, com a interferência de variantes idiomáticas, de fenómenos de crioulização, de transvases de outras línguas.

Para responder com o devido rigor à complexidade de tais intuitos, este es­tudo foi acentuando a densidade de conceitos e de dados, mas procurando não se tornar menos prestante para leitores de múltiplas latitudes e condições. (...)


 

Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 27.01.2020

 

 

 
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