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As Madres da Igreja

Um amigo libanês, originariamente médico, que depois se tornou um intelectual, e por fim sacerdote e bispo, estava um dia a falar-me da sua vocação, e reconhecia que a principal dificuldade familiar nascia do facto de ser filho único. Um pouco surpreendido, repliquei-lhe: «Noutras ocasiões falaste-me das tuas irmãs». A resposta foi espontânea e algo inconsciente: «Mas elas são mulheres!». O eixo familiar era assegurado só pela linha masculina, um dado na verdade que não é de todo estranho inclusive a certos setores da nossa sociedade. No entanto as coisas não foram sempre assim, de tal maneira que, para o demonstrar, uma monja da comunidade de Bose, Lisa Cremaschi, foi até aos séculos IV-VI e encaminhou-se para o Egito, a Palestina, a Síria, a Capadócia e Constantinopla (sem, contudo, ignorar Roma e a Gália) à procura daquelas que podemos definir “Madres da Igreja”, em paralelo com os bem mais célebres e numerosos Padres da Igreja.

Com efeito, além do “abba”, o “pai” espiritual do deserto (deles existem muitas recolhas de ditos e atos), havia também a “amma”, a “madre”, que tinha uma função análoga de guia espiritual. Nasceu, assim, na sequência dos estudos histórico-críticos daquela monja atual, uma fascinante coleção de “Ditos e feitos das mulheres do deserto” marcados diversos por géneros literários. Vai-se das antigas narrativas de viagem às biografias (a primeira é de Macrina, a irmã de um importante Padre da Igreja Capadócia, Gregório de Nissa, de que é o autor), chegando-se às recolhas dos “ditos” destas figuras espirituais, máximas vivazes em narrativas edificantes, não raro confiadas a protagonistas pecadoras convertidas.



Muitas eram guias espirituais a quem acorriam para a sua formação também homens, como aconteceu àquele que será mais tarde um ilustre mestre de ascética, Evágrio do Ponto, formado na escola de Melânia, a Anciã (para a distinguir de outra “diretora” espiritual, a neta Melânia, a Jovem).



Também é curioso o contexto concreto em que floresce a experiência destas “Madres”, que, apesar de serem “monjas” (do grego “mónos”, portanto, solitárias), são tudo menos isoladas. Se é verdade que a maior parte delas destaca as ásperas solidões do deserto, por vezes travestindo-se de homem para serem acolhidas (e defendidas) numa cultura machista, é de sublinhar que algumas encontram o seu oásis místico em plena cidade, por vezes permanecendo até entre as paredes da sua casa de origem. Também a tipologia da sua formação é variada. Há aquelas que conseguem envolver-se a nível teológico nas questões doutrinais e eclesiais do seu tempo; outras são diaconisas, não só no sentido etimológico do termo, ou seja “servas” dos pobres na caridade, mas também com funções litúrgicas.

A propósito desta última questão, um texto redigido em torno de 250, a “Didascalia dos apóstolos”, entrega-lhes a tarefa de ungir com o sagrado crisma as mulheres imersas na fonte durante o rito do Batismo presidido pelo bispo. Uma diaconisa, uma certa Lampadione, dirigia, por sua vez, o coro das celebrações litúrgicas. Outras eram biblistas, revelando uma extraordinária competência nas Sagradas Escrituras, como as duas discípulas de S. Jerónimo, Paula e Eustóquio, mãe e filha, que conheciam hebraico e grego. Muitas eram guias espirituais a quem acorriam para a sua formação também homens, como aconteceu àquele que será mais tarde um ilustre mestre de ascética, Evágrio do Ponto, formado na escola de Melânia, a Anciã (para a distinguir de outra “diretora” espiritual, a neta Melânia, a Jovem).

Seguramente que juntamente com estas figuras femininas de relevo se alargava a multidão das mulheres anónimas que, esquecidas nos seus nomes pelos documentos históricos, viveram uma existência de serenidade e de amor, deixando um eco na vida do monaquismo. Neste ponto, só resta ao leitor iniciar – seguindo o mapa desenhado por Lisa Cremaschi – uma espécie de peregrinação. Abrir-se-ão paisagens inesperadas, não apenas geográficas, como humanas e espirituais. De cada “amma” que se destacou é traçado um perfil biográfico, ao qual segue a substância do retrato, ou seja, a antologia textual que lhe diz respeito.



Um famoso Padre da Igreja, João Crisóstomo, não hesitava em reconhecer que «estas mulheres lutaram melhor do que os homens e receberam troféus mais esplêndidos»



As primeiras a avançar são a irmã do pai do monaquismo egípcio, o célebre António, que toda a Igreja cristã venera ainda hoje (no rito latino a 17 de janeiro), e Maria, a irmã do fundador da vida monástica comunitária, o igualmente célebre Pacómio, ambos no século IV. O elenco prossegue com outras 26 mulheres das diferentes regiões indicadas. Há, por exemplo, Sinclética, uma personagem genial e atormentada que conhece a tristeza e a acédia, mas também «a alegria indizível». Há até a concretude do quotidiano, por exemplo, com o realismo das latrinas e a história de uma monja que se finge bêbada, assim a norma de evitar as fechaduras para deixar a liberdade de abandonar a opção árdua da vida comum monástica.

Também nos deparamos com a monja vaidosa que ostenta jejuns de duzentas semanas, comendo apenas a cada seis dias, como acontece com o asceticismo exasperante das sírias Marana e Cira, que se abeira do masoquismo, ou encontramo-nos com uma mulher de Jerusalém que durante seis anos viveu reclusa vestido apenas de saco. Extraordinárias pela sua doçura são, ao contrário, as duas Melânias já mencionadas, aristocráticas e cultas, que se tornam pobres para seguir Cristo pobre, com um amor apaixonado e livre. Análoga será a vida das já evocadas discípulas de S. Jerónimo, as nobres romanas Paula e Eustóquio, que seguirão o seu mestre até Belém para viver a sua existência nas fontes da fé cristã.

Poderíamos continuar longamente no elenco das figuras que desfilam diante do leitor numa admirável galeria de retratos: de Olímpia, que encontra o seu deserto no coração da cidade, a Blesila, mulher rica e feliz que tem a vida atravessada por um drama destinado a mudar-lhe a alma; de Marcela, pertencente a uma das mais ilustres famílias romanas, que se tornará teóloga, até à sua amiga Lea, que «parecia pobre e insignificante», apesar de no passado ter sido muito dotada de bens económicos, e que se tornou rica interiormente. Para não falar, depois, da história desconcertante de Fabíola, que abandona o marido depravado por um outro homem, mas que encontramos no fim a tratar dos doentes mais graves num hospício de Roma. Um famoso Padre da Igreja, João Crisóstomo, não hesitava em reconhecer que «estas mulheres lutaram melhor do que os homens e receberam troféus mais esplêndidos» (numa homilia sobre o Evangelho de Mateus).


 

Card. Gianfranco Ravasi
In Cortile dei Gentili
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 07.05.2019

 

 
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