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As-sentir Con-sentindo (I)

Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela
(F. Pessoa, “Poemas Inconjuntos”)

Bastará abrir a janela para saber quem somos e o que somos no espaço e no tempo abertos pela interculturalidade? Bastará ter olhos para ver e para crer suficientemente? O cineasta galês Peter Greenaway, parafraseando o pintor Rembrandt, sintetiza o impasse contemporâneo: “‘se tendes olhos, não quer dizer que possais ver’. De pequenos ensinam-nos o alfabeto, em adolescentes ampliamos o nosso vocabulário e os nossos conceitos, em adultos continuamos este processo: mas visualmente, somos e permanecemos analfabetos. A nossa capacidade de construir imagens não é mais cultivada, e empobrece-se cada vez mais”. Greenaway (bem como o cineasta polaco Lech Majewski e o russo Alexandr Sokurov) é um dos grandes representantes da nova tendência do cinema que procura nas artes pictóricas o suporte metafísico de aproximação ao real. Apreender o real, além do nocional, o profundo pormenor das coisas, no seu progressivo des-velar-se, que os diversos sentidos nos dão a conhecer con-sentindo, não é de todo imediato. É uma maturação a longo prazo. Mas será o modo de aparecer da consciência e o mecanismo das emoções que se manifestam no corpo a plataforma biológica de entendimento para o acto crente e existente do sujeito humano? É a corporeidade a plataforma ôntica para uma nova ontologia fundamental da manifestação do espírito corpóreo? 

FotoO moinho e a cruz (Lech Majewski)

Na resposta a estas perguntas poderá ser útil a posição de Charles Taylor sobre a consciência humana moderna. O filósofo canadiano fala da existência de um “si fechado” e de um “si poroso” (herdeiro do mundo encantado). Para o «si delimitado (personalidade fechada) moderno existe a possibilidade de distanciar-se, destacar-se de tudo aquilo que se encontra fora da mente. Os meus objectivos últimos são aqueles que surgem dentro de mim […] Por definição, no caso do si poroso (personalidade aberta), a fonte das suas emoções mais potentes e importantes encontram-se fora da “mente”; ou melhor, a ideia de uma zona interior, graças à qual seja possível destacar-se do resto, é totalmente privada de sentido». Esta distinção poderá ajudar-nos a compreender todo o processo moderno de formulação da subjectividade e do conhecimento humano.

FotoA última ceia (Peter Greenaway)

Ainda de acordo com Taylor, estas duas zonas da consciência humana – a zona fechada e a zona porosa – tendem a sobrepor-se em determinados momentos decisivos. Se é certo que a consciência delimitada (moderno-idealista) resulta da possibilidade de autocontrolo do indivíduo (si invulnerável e controlador dos significados em função de si mesmo) e a consciência porosa (pré-moderna-realista) está submetida às influências de forças exteriores incontroláveis (contexto social, cultural, natural ou religioso), devemos referir que é a relação entre estas duas forças que permite o equilíbrio do individuo humano. Por isso Taylor afirma que «uma pessoa pode basear a própria vida sobre a ideia moderna do si delimitado, sendo também perfeitamente consciente da própria existência enquanto indivíduo […] O si delimitado é essencialmente o si consciente da possibilidade de aceder a uma condição destacada. E frequentemente o destaque se realiza em relação ao próprio ambiente circundante, seja natural seja social» (A era secular). Esta posição coloca em evidência a interdependência destes dois modos de consciência, o si biológico (natural) e o si cultural (produzido). Distintos mas inseparáveis na construção identitária do ser humano. Não é possível um si autenticamente delimitado, zona de interioridade pura, sem o si poroso, na medida em que o sujeito humano vive numa história concreta e real. De facto isto coloca um problema sério na distinção entre a realidade/real e a virtualidade/imaginação na produção de significado veritativo.

FotoO moinho e a cruz (Lech Majewski)

A moderna separação que delimita em geral a dimensão físico-científica da dimensão moral, a dimensão corpórea da dimensão espiritual, a dimensão material da dimensão mental, traz consigo consequências profundas na concepção da natureza humana. Se é verdade que objectos e agentes externos ao indivíduo poderiam modificar e plasmar a sua condição espiritual e emotiva, não é menos verdade que hoje há uma tendência de sustentação neurocientífica para colocarmos o inumano apenas fora da mente. Esta posição coloca problemas ao nível da responsabilidade humana e do acto decisional na medida em que o indivíduo apenas age e decide com base em determinações neurológicas incontroláveis, os quais, em última instância, escapam ao controlo do próprio sujeito. O efeito imediato é o de um dualismo altamente perigoso, dado que o indivíduo humano não seria capaz de controlar razões, sentimentos e emoções existentes no interior do seu corpo, porque reduzidos a actos de um mecanismo auto-poético e autonomizado biologicamente. Para além disso, coloca o princípio da responsabilidade pessoal dos actos e das decisões do indivíduo em causa, tal como acontece já em muitos casos judiciais baseados na alegação neuro-psíquica.

FotoA última ceia (Peter Greenaway)

Há hoje, de facto, um conjunto de estudos científicos credíveis que procuram entender e explicar biologicamente o que está por detrás do acto de ver, sentir, tocar, cheirar, ouvir, pensar ou de imaginar. Não obstante as múltiplas e fecundas aberturas, a posição naturalista de algumas correntes neurocientíficas poderá reduzir a decisão humana àquilo que é vantajoso ou desvantajoso para o organismo, independentemente da circunstância cultural em que ele se dá. Nesse caso «decidir bem é escolher uma resposta que seja vantajosa para o organismo, de modo directo ou indirecto em termos da sua sobrevivência e da qualidade dessa sobrevivência» (António Damásio). Curiosamente esta posição sobre o vantajoso ou o desvantajoso parece não estar longe da escolha racional kantiana. Para Kant, entre a preservação da vida em caso de ameaça de morte ou o gozo deleterico do prazer carnal, o ser humano racional escolheria sempre a preservação da vida. O enigma racional fica em suspenso perante a evidência de existirem homens e mulheres que rejeitam a simples conservação da vida prostituindo-se, mesmo sabendo do perigo que daí advém para a sua existência biológica. Se isto é verdade relativamente ao organismo em sentido estrito, isso coloca problemas ao nível da presença do sujeito humano no complexo da interacção social, onde todos visam simplesmente sobreviver e adaptar. Em sentido lato, contemporaneamente não andaremos muito longe deste paradigma (veja-se a focalização do sucesso da auto-realização).

 

O próprio organismo humano mediante o mecanismo homeostático procura conservar-se em vida e preservar biologicamente a sua existência. Mas esse acto instintivo não implica que a decisão se reduza absolutamente à biologia do eu. Se assim fosse, os actos de amor gratuito, de compaixão e fraternidade, de decidir a vida por causas que transcendam o eu auto-biográfico seriam impossíveis. Ser com os outros, viver com os outros, a dedicação de si absoluta, implica em muitos casos morrer para si para gerar vida (por exemplo, a mãe que dá à luz em situações de risco de morte da criança ou da própria mãe). Na verdade, seguindo a perspectiva tayloriana, é impossível o “eu delimitado” ter qualidade sem um “eu poroso” que se abra na sua corporeidade ao mundo da vida. Também segundo Arreguí «aquilo que é especificamente humano não é a realização simultânea de uma diversidade de actos mas a regulação simbólica da conduta […] Assim o especificamente humano não é uma corrente mental psicológica que se acrescenta aos nossos actos corporais mas o de serem realizados segundo uma mores, segundo tradições que configuram a nossa conduta como humana […] Ser humano é autointerpretar-se» criativamente no contexto dessa mores.

 

 

João Paulo Costa
© SNPC | 10.09.13

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FotoÚltima Ceia (Peter Greenaway)

 

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