Perspetivas
Paisagens
Pedras angulares A teologia visual da belezaQuem somosIgreja e CulturaPastoral da Cultura em movimentoImpressão digitalVemos, ouvimos e lemosPerspetivasConcílio Vaticano II - 50 anosPapa FranciscoBrevesAgenda VídeosLigaçõesArquivo

As-sentir Con-sentindo (II)

A focalização moderna na consciência delimitada do indivíduo resulta no autofechamento do indivíduo à realidade exterior, dado que nada mais existe de verdadeiramente significativo fora dos significados e símbolos previamente concebidos e construídos mentalmente (a linguagem é aqui um constructo exclusivamente mental). Em última instância, Deus não entra nesta possibilidade mentalista, e se entra é uma idealização projetada emotivamente que visa salvaguardar a conservação/sobrevivência do indivíduo no seu meio-ambiente. Neste sentido torna-se inevitável colocarmos a questão: por que razão continuamos a procurar o sentido da existência numa realidade exterior (o outro, pai, mãe, arte, cultura, sexo, religião, Deus…) se a posso construir mentalmente? Como posso eu decidir livre e responsavelmente se tudo está apriori determinado e previsto neuronalmene? Qual o espaço para o aparecer do imprevisível, do não-tocável e do ainda-não-totalmente-conhecido?

Ora «ser um si não equivale simplesmente a ter alguns órgãos dados a nível biológico, como os olhos, ou faculdades, como a visão, que existem enquanto partes da nossa dotação moral, independentemente de como nós os entendemos ou os interpretámos. Ser um si significa existir num espaço de questões, ter em conta o como se deve ser, ou com o como se prospecta de fronte àquilo que é bom, que é justo, aquilo que é realmente digno de ser feito» (Chr. Taylor). O recente enfoque neurocientífico nos neurões-espelho, segundo o qual os nossos atos são fruto de uma interação maturada nas diversas experiências que vamos adquirindo como os outros e com o mundo, veio alterar a convicção de uma mente exclusivamente físico-química. Assim “para reconhecer as acções dos outros e compreender o sentido se encontrou recentemente uma explicação ligada à actividade das células nervosas chamada neurões-espelho”.

Poderemos sempre argumentar que o eu é produto daquilo que eu faço, ou que eu auto-construo-me porque me sinto a mim. Mas se é a interação sináptica neuronal alojada dentro de um corpo que provoca as emoções, os sentimentos e os atos intelectivos, ou seja a essência do humano, o que significa dizer eu sinto, eu faço ou eu sou? Não arriscamos um dualismo, ou a conceber um demiurgo que está na origem da consciência de cada ser humano, ou que faz com que eu seja meramente o processo final determinado por algo que não consigo conhecer, controlar e aceder? Este automático destacamento da realidade exterior circundante, seja ele o Outro ou os outros, é o único sentido possível do homem moderno. Como afirma o filósofo italiano Maurizio Ferraris: «O pensamento por si só não é suficiente para que haja moral, e que esta começa no momento em que existe um mundo externo que nos provoca e nos consente de cumprir acções, e não simplesmente de imaginá-las [...] A ontologia diz-nos que existe um mundo no qual as nossas ações são reais e não simples sonhos ou imaginações».

A questão é saber o que é que fundamenta a existência humana. Saber não tanto o como, mas o porquê do humano. E quando perguntamos o porquê coloca-se-nos o desafio metafísico de uma antropologia teológica capaz de atender à conjuntura pluralista dos saberes que procuram entender a subjectividade humana na sua integralidade. Por outras palavras, não se trata tanto de «compreender que coisa a teologia diga às ciências ou que coisa as ciências digam à teologia, quanto ver que coisa as ciências possam dizer do homem na presença da teologia e que coisa a teologia possa dizer do homem e de Deus na presença das ciências» (L. Paris). É neste espaço de compreender quem somos, o que somos e como somos que a teologia e a neurociência podem de facto dar o seu contributo na procura da integridade do humano. A fé, embora implicando uma decisão/resposta humana, livre, é dom absoluto de Deus, imerecido, dado livremente a uma liberdade. A graça de Deus não é sobreposta à natureza, ela está desde sempre presente na criação. O ser humano tem em si as condições para um possível reconhecimento da verdade da auto-comunicação de Deus na história. Por outro lado, a fé não é uma criação mítica, mágica. A fé não se reduz ao sentimento religioso, que pode ser uma mera projeção das minhas necessidades numa entidade externa.

O saber da fé é um ato de confiança, fiducial, inerente a todo o humano, que vive da relação. Um processo passivo na medida em que é dado originariamente, e dinâmico no sentido que coloca a liberdade humana diante de uma decisão existencial. Se assim não fosse, seria impossível viver humanamente sem o elemento de confiança que é fundamental para a nossa existência. O facto da existência real e concreta de o/Outro que nos dá a vida como dom coloca-nos, não diante do sentimento produzido mentalmente no interior do indivíduo, mas de uma realidade reconhecível que gera vida concreta no e por Amor. É essa evidência referencial e relacional que permite a construção da identidade e a permanência do ser singular nas suas estruturas fundamentais. Se quisermos com Newman: “a imagem de Deus, se devidamente acarinhada, pode expandir-se, aprofundar-se e aperfeiçoar-se, com o crescimento dos seus poderes e no decurso da vida, à luz das várias lições, dentro e fora deles, que lhes chegam acerca do mesmo Deus, uno e pessoal, através da educação, do trato social, da experiência e da literatura”. Para isso teremos de aprender a alargar a nossa gramática crente nocional e real frequentando esses lugares do engenho humano.

 

 

 

João Paulo Costa
© SNPC | 10.09.13

Redes sociais, e-mail, imprimir

FotogramaA arca russa (Alexander Sokurov)

 

Ligações e contactos

 

 

Página anteriorTopo da página

 


 

Receba por e-mail as novidades do site da Pastoral da Cultura


Siga-nos no Facebook

 


 

 


 

 

Secções do site


 

Procurar e encontrar


 

 

Página anteriorTopo da página