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«Balde de água fria»: Editores católicos reagem à pandemia com críticas e esperança moderada

«Foi brutal. No mês de abril a quebra de vendas foi de 85%, foi mesmo um desastre total. O mês de maio já foi na ordem dos 70 por cento»: as vendas da Paulinas Editora durante a pandemia não deixam dúvidas sobre o impacto que o confinamento provocou nas casas editoriais católicas, refletido de imediato nos rendimentos dos colaboradores.

Em reportagem publicada esta terça-feira pela Renascença, a Ir. Eliete Duarte explica as medidas que foram tomadas para proteger a empresa de males maiores: «Temos cerca de 20 funcionários, alguns ainda estão em “lay-off” parcial, porque as livrarias estão a trabalhar, mas não totalmente».

«Asseguramos o funcionamento das lojas, mas não com todo o pessoal que habitualmente está lá, porque os clientes ainda estão com muito receio. Aqui no armazém temos um funcionário que vem só uma vez por semana para fazer os envios dos pedidos que vão chegando», afirma.

Na Paulus Editora, o panorama foi, e é, idêntico: «Nestes primeiros dias de junho, ainda estamos com alguns colaboradores em “lay-off”, sobretudo os que trabalham nas livrarias, que reabriram a meio gás».

Noutros departamentos a atividade continuou, refere o diretor editorial, Ir. Tiago Melo: «Na parte editorial, de revisão, e quem trabalha para a revista, os jornalistas, a contabilidade, esse pessoal continuou a trabalhar, mas em teletrabalho».



Há, por parte do Governo, «uma desatenção total, um desinteresse pela sobrevivência das empresas que estão associadas ao livro», apesar de ele ser «a indústria cultural mais significativa em termos de faturação, impacto no PIB e emprego»



«Isto foi como que um balde de água fria. Apanhou-nos desprevenidas», assinala a Ir. Eliete Duarte, para logo depois sublinhar que o confinamento, apesar de ter impedido a apresentação de novidades num dos períodos mais ativos em termos de vendas – Quaresma e Páscoa – e as exportações para os PALOP, não foi sinónimo de inação.

Houve um lançamento, pela primeira vez realizado através de vídeo, além da oferta de um livro para as crianças aproveitarem da melhor forma o “recolher obrigatório”, a par da apresentação de textos inéditos de autores consagrados, como José Tolentino Mendonça e Tomáš Halík.

A Paulinas propôs também múltiplas promoções, «mas a procura foi relativamente baixa. E nem as poucas encomendas pela internet, nem a reabertura, já em maio, das livrarias, permitiu até agora falar em recuperação», declara a religiosa.

Para Henrique Mota, responsável pela Editora Lucerna, há, por parte do Governo, «uma desatenção total, um desinteresse pela sobrevivência das empresas que estão associadas ao livro», apesar de ele ser «a indústria cultural mais significativa em termos de faturação, impacto no PIB e emprego».

«E não falamos só de gráficas, falamos também da distribuição, de uma multidão de 'freelancers', desde o designer ao paginador, desde o revisor ao ilustrador, até aos autores», e por isso, acentua, trata-se de uma área que «não pode ser abandonada»: «Abandonar o livro significa uma desconsideração inaceitável».



«A Feira do Livro é sempre uma festa, de contacto com os autores, com os leitores, é sempre um momento muito gratificante»



Do lado da Paulus a atitude é também de circunspeção quanto ao futuro: «Não sei se as ajudas vão ser suficientes para manter as editoras e o universo livreiro a funcionar, porque acredito que a recuperação económica vai ser muito lenta. Muitas outras empresas estão a fechar, há um aumento do desemprego, e quem precisa de bens básicos, primários, não vai trocar comida, aluguer e outras coisas por um livro, e isso atinge diretamente o mercado editorial».

Nesta realidade sombria, a notícia da realização da 90.ª Feira do Livro de Lisboa, que deveria estar a decorrer por estes dias, mas que foi adiada para 27 de agosto a 13 de setembro, é motivo de esperança moderada, embora estejam ainda por esclarecer os cuidados que eventualmente venham a ser exigidos para evitar a propagação do Covid-19, nomeadamente quanto ao número de entradas e ao manuseamento dos livros.

«Pode ser, em termos imediatos, um novo fôlego para o mercado, e uma oportunidade para os editores recuperarem alguma tesouraria e alguma da sua sustentabilidade e viabilidade das suas empresas», aponta Henrique Mota.

O responsável, que dirigiu a Federação Europeia de Editores, elogia os “book vouchers” e lança uma proposta para o apoio ao setor «Se o dinheiro e os apoios forem injetados a partir das livrarias, sobrevivem as livrarias, sobrevivem os editores, as gráficas e todos aqueles que trabalham à volta do livro».

«A Feira do Livro é sempre uma festa, de contacto com os autores, com os leitores, é sempre um momento muito gratificante», considera a Ir. Eliete Duarte, que, no entanto, é cautelosa quanto às expetativas: «Vamos ver como as coisas evoluem, porque isto é tudo uma caixinha de surpresas».

No mesmo sentido se manifesta o Ir. Tiago Melo: «Para nós estar na Feira não é apenas para vender, é quase uma missão, um carisma»

O evento é encarado não só como oportunidade, mas também como responsabilidade, com vista a estimular as pessoas a «não desistirem da cultura da leitura»: «Isso também é uma missão da Igreja, e nós estamos cá para isso, para ajudar as pessoas. Porque ler é sonhar, é planear o futuro, é abrir-se a um novo mundo».


 

Fonte: Renascença/Ângela Roque
Edição: Rui Jorge Martins
Imagem: elwynn/Bigstock.com
Publicado em 03.06.2020

 

 
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