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Bastam as flores

Tenho uma vizinha que persiste em comprar flores neste tempo. Vejo-a, quase todos os dias, através da janela fechada, a caminhar em ritmos diferentes, como se fossem duas pessoas no mesmo corpo. A mulher que sai de casa ao amanhecer, aquela que atravessa a rua deserta de passo rígido e cabeça levantada como um soldado na frente de batalha, traz consigo as ansiedades de um povo esfomeado. É uma mulher disciplinada que arrisca a vida para atravessar o território proibido.

Ao leitor deixo um conselho: que ninguém se atreva a detê-la. Pela sua saúde, que não a desafie. Se tem amor à vida e aos seus entes queridos, fique em casa e veja, apenas, através da janela fechada, aquela mulher que avança determinada à procura de flores.

Sempre que a vejo regressar da praça, com as flores ao peito, com um ar de mulher perdidamente apaixonada, interrogo-me pela razão da súbita transformação. Terá sido o efeito do roxo dos lírios ou o perfume das rosas? Terá sido o contágio do sol das gerberas ou algum feitiço das pequenas margaridas brancas? A mulher mística regressa serena. Pelo caminho distribui generosamente acenos e sorrisos aos que a espreitam sisudos à janela. No passado sábado, no regresso a casa, perguntou-me se precisava de flores. Nem lhe respondi. «Claro que não, neste tempo, flores para quê?»

Já falei do estranho caso com médicos amigos, em especial, aos entendidos em saúde mental. Dizem-me, pesarosos, depois de longas explicações, que estes “doentes” têm de ser tratados com mão firme e muita paciência.

Há dias, no entanto, em que suspeito do rigor deste diagnóstico. E se eles estiverem enganados? E se esta mulher vai à florista como quem vai à farmácia?

Esta manhã quando a vi, pela terceira vez esta semana, a caminhar de flores nas mãos, houve uma voz que me disse que esta mulher comprava flores para não ceder à tentação de se comprometer com os medicamentos. Há um desequilíbrio na procura. Há mais gente a entrar numa farmácia do que numa florista. Procuram o medicamento certo para adormecer, o que faz esquecer ou, em alternativa, aquele que reaviva a memória. Sonham com a receita certa para emagrecer e não se cansam de perguntar pela combinação adequada para fortalecer o sistema imunitário. Estudam e consomem devotamente mil suplementos alimentares. Investem parte considerável dos seus bens em camadas de cremes na expetativa de renovar a envelhecida pele. A ela, nenhuma dessas soluções lhe interessa. Bastam-lhe as flores.

Talvez ela tenha razão.


 

P. Nélio Pita, CM
Imagem: Syntheticmessiah/Bigstock.com
Publicado em 03.04.2020

 

 
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