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Bíblia é também palavra do homem que Deus espera, e tem voltar a ser «livro do povo»

A 26 de janeiro celebra-se o primeiro Domingo da Palavra de Deus, instituído pelo papa Francisco com a carta apostólica em forma de “motu proprio" “Aperuit illis”, emanada pelo pontífice no passado 30 de setembro, memória litúrgica de S. Jerónimo, célebre tradutor da Bíblia em latim, 1600 anos após a sua morte.

«Martinho Lutero sustentava que na [atual] Itália a Sagrada Escritura estava tão esquecida, que rarissimamente se encontrava uma Bíblia», enquanto [o dramaturgo e poeta] Paul Claudel, em meados do século XX, ironizava sobre os respeito que os católicos mostravam em relação à Bíblia, «tendo-a em devida distância», observa o presidente do Conselho Pontifício da Cultura, Gianfranco Ravasi. O autor de dezenas de livros e centenas de artigos sobre a Bíblia assinala que «hoje isso já não se pode dizer», mas a iniciativa do papa é importante para «redescobrir o valor, vitalidade e centralidade das Sagradas Escrituras».

 

Quais são os aspetos ligados à Bíblia que se perderam?

São três os elementos sobre os quais se deve refletir. Antes de tudo, a necessidade de regressar ao conhecimento da Escritura com a mesma intensidade e paixão com que isto se verificou após o Concílio Vaticano II [1962-1965], que aproximou muito os textos sagrados dos fiéis. Através deste Domingo, o papa quer propor ao crente o regresso a uma certa vitalidade, porque hoje, no fluir da história, o interesse pelas questões de tipo social ou antropológico é mais notado do que ter uma referência baseada nas Escrituras. Daqui a importância do apelo de Francisco a redescobrir a Bíblia, a “reapropriar-se” ela com a paixão dos anos pós-conciliares como se tratasse de uma lâmpada para os passos que cada pessoa dá.

 

Há alguns dias, na mensagem sobre o ensino da religião católica na escola, a presidência da Conferência Episcopal Italiana sublinhou o valor do estudo da Bíblia também do ponto de vista cultural.

Esse é o segundo elemento de reflexão. A Bíblia como grande códice da cultura ocidental, estrela polar do “ethos” e do comportamento, imprescindível para quem se coloque perguntas sobre o sentido. Há alguns anos insistiu-se muito sobre as raízes cristãs da Europa, tema que hoje é menos ouvido mas que não se pode reduzir a uma mera questão de tipo religioso. Trata-se de uma questão cultural. Umberto Eco perguntava-se por que é que os nossos jovens têm de saber tudo dos heróis de Homero e não saber nada de Moisés e do Cântico dos Cânticos. Ambos são fundamentais para a nossa formação cultural. A esta luz é preciso certamente repropor a Bíblia na escola como filigrana do tecido cultural, histórico e artístico europeu, e não só. Quem entra numa pinacoteca europeia sem conhecer a Sagrada Escritura, arrisca-se a não compreender a maior parte das obras expostas; mas é assim para toda a arte no seu conjunto, incluindo a música.

 

Fazia referência a um terceiro aspeto…

Um elemento que nunca se sublinha suficientemente é o da hermenêutica, da interpretação da Bíblia. É uma questão de grande relevo porque a religião judeo-cristã é uma religião histórica, incarnada. Quando se diz «Palavra de Deus» afirma-se uma verdade, mas que nunca está completa porque a Bíblia é Palavra de Deus e palavra do homem. E um diálogo. Os Salmos são oração, sinal de que, como sustenta o teólogo protestante Dietrich Bonhoeffer, a Bíblia não é apenas a Palavra de Deus dirigida a nós, mas também a palavra que Deus espera, drigida por nós a Ele.

Pensemos na intensidade do livro de Job. A Bíblia não é um catecismo que contém asserções precisas e teoremas exatos, formulados de maneira irrepreensível numa espécie de ateliê teológico; é uma história; supõe uma vivência emblemática sobre a qual devem ser confrontadas todas as vivências pessoais. Deus, que decidiu encarnar-se atravessando a nossa história, diz: tens de decifrar a minha presença também aí; presença de juízo, mas também de salvação. Por isso é preciso fugir da tentação de uma leitura espiritualista da Bíblia: a “carne” da Palavra e o “Lógos” transcendente devem ser entretecidas entre elas.

 

O papa escolheu uma data que não é um acaso: o terceiro domingo do Tempo Comum, próximo do Dia do Diálogo com os Judeus [16 de janeiro, em Itália] e da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos [18 a 25 de janeiro].

É significativo que tenha querido colocar o Domingo da Palavra dentro do Tempo Comum, não no tempo de Páscoa ou Natal. Isto porque a Bíblia deve tornar-se o guia normal, e o dia a ela dedicada não deve permanecer único e isolado, mas encastoar-se no interior do tecido do ano litúrgico. De resto, na celebração litúrgica, a Sagrada Escritura e a Eucaristia são incindíveis. É emblemática a narrativa de Emaús, de onde o papa extrai o título da carta apostólica: primeiro Jesus caminha com os discípulos explicando as Escrituras e fazendo arder o coração deles; depois, parte o pão, prefigurando assim a estrutura da celebração litúrgica. Mas a Bíblia é também o instrumento, a pedra angular que mantém unido o diálogo ecuménico com o mundo ortodoxo e protestante, e o diálogo inter-religioso, em particular com os judeus, de que constitui a base comum objetiva.

 

Para Francisco a Bíblia não pode ser património só de alguns, mas livro do povo

Além do texto presente na liturgia, é preciso fazer retornar a Bíblia como livro entre as mãos das pessoas simples, livro diário a fazer entrar na praça e em casa porque é livro do povo. No passado, desde a medievalidade, para quem não sabia ler, os frescos nas paredes das catedrais e as imagens sagradas constituíam a “Biblia pauperum”. Nos nossos dias a edição bíblica e notável, as notas de rodapé e os comentários ajudam os leitores menos “equipados”, mas é preciso fazer algo mais a nível “laico”.

 

Em que está a pensar?

Seria preciso conseguir explicar a arte e a música, mostrando-lhes o códice que lhes está subentendido, mas também “transcrever” a Bíblia nas novas linguagens segundo as gramáticas culturais de hoje: cinema, televisão, videoarte, “inserindo-a” também na cultura digital. Penso, no passado, no “Evangelho segundo Mateus”, de Pasolini, na paixão de Cristo no “Andrei Rublëv”, de Tarkovski; também hoje é importante estimular, através da arte, a cultura, o cinema e as novas linguagens a reflexão sobre grandes temas religiosos. Não é simples: o risco da banalização ou da espetacularização está sempre à espreita, mas é preciso desencadear uma reflexão séria e apostar mais nesta vertente que requer competência e coragem.


 

Giovanna Pasqualin Traversa
In SIR
Trad..: Rui Jorge Martins
Imagem: doidam10/Bigstock.com
Publicado em 19.01.2020

 

 

 
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