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Bicicleta: Espiritualidade e liberdade de uma revolucionária indomável

Sonhámo-la mais do que nunca nestes dias. Os dias de sol estimulam a sua utilização, e o desejo de poder sair, em tempo de coronavírus, é ainda mais forte. Preparemo-nos desde já para programar belos passeios, sozinhos ou em companhia de familiares ou amigos.

Ernest Hemingway dizia que é andando de bicicleta que melhor se aprendem os contornos de um país, porque tens de suar nas colinas e ir para baixo em roda livre nas descidas. E é desta forma que se adquire uma memória precisa. A melancolia é incompatível com o andar de bicicleta, mobilidade doce que consolida a beleza da lentidão. A bicicleta não é só um meio de locomoção, mas sobretudo estilo de vida, de quem não devora mas degusta, não consome mas utiliza, não olha mas vê por dentro, não foge mas detém-se.

Pedalar ajuda a refletir e a redescobrir-se a si próprio, em plena harmonia como ambiente circundante. Uma pesquisa realizada nos EUA sobre a relação entre estados de alma (felicidade, sofrimento, stress, tristeza, fadiga) e meios de transporte sugere que quem anda de bicicleta á mais feliz do que quem usa outra mobilidade. Pedalar induz o bom humor. A bicicleta é a única cadeia que te torna livre.

No fundo, a bicicleta é como a vida: um equilíbrio entre múltiplas exigências, e por vezes contrastantes. Um equilíbrio dinâmico que inspirou e deu nome a uma original “oração do ciclista”. Foi proposta, a partir de Jerusalém, por dois apaixonados, Silvio Falabella e Ernesto Zucchi, juntamente com o cardeal Renato Corti, recentemente falecido. Nela louva-se a Deus por se ter o privilégio de percorrer longas estradas em bicicleta: «Senhor, faz com que eu cultive/ aquela maneira de falar e de agir/ repleta de sabedoria que ajude/ a conduzir a minha existência/ com o acertado equilíbrio dinâmico».

Andar de bicicleta pode transformar-se até num tempo de oração, como é proposto no livro “Exercícios espirituais em bicicleta”, de Domenico di Lorenzo, que já percorreu mais de 14 mil km na Europa, incluindo o Caminho de Santiago. A viagem de bicicleta «oferece a possibilidade de viver uma experiência de vida autêntica. Ajuda a conhecer-se a si próprio, as suas potencialidades e os seus limites», explica.



Para António, o protagonista de “Ladrões de bicicletas”, obra-prima neorrealista de Vittorio De Sica, as duas rodas são a vida, a esperança, o trabalho



Mas nem sempre a “espiritualidade da bicicleta” foi apreciada pela Igreja, que nos finais do século XIX temia que as duas rodas pudessem favorecer uma forma de neopaganismo. Por esse motivo, em 1894, o cardeal Giuseppe Sarto, futuro papa S. Pio X, proíbe-lhe o uso aos sacerdotes, mesmo sabendo que para muitos se tinha convertido num meio muito cómodo para chegar aos paroquianos dispersos pelos campos.

Nos meados de Novecentos a bicicleta foi amplamente usada por membros da Resistência que se opunham ao domínio nazi fora da Alemanha, bem como pelo vasto universo operário. Para António, o protagonista de “Ladrões de bicicletas”, obra-prima neorrealista de Vittorio De Sica, as duas rodas são a vida, a esperança, o trabalho.

Com a proliferação do automóvel, nos anos da expansão económica após a II Guerra Mundial, a bicicleta foi vista como um meio antiquado, antimoderno. Foi um tempo sombrio para as duas rodas e pedais.

Todavia, a bicicleta, como os gatos, tem sete vidas. Hoje, quando muitos desejam cidades livres do trânsito e da poluição, a bicicleta desforra-se, é amada por milhões de pessoas de todas as idades, e torna-se o instrumento de uma nova “antimodernidade” em chave positiva. Ela é símbolo do respeito pela natureza e pelo ambiente, da atenção à saúde, da possibilidade de ir até onde os automóveis não chegam, da lentidão que permite apreciar o mundo à volta.

Para aqueles que têm de ficar agora em casa por motivos de saúde relacionados com a pandemia, há a possibilidade de viajar virtualmente a pedalar através de aplicações digitais, que permitem percorrer estradas e lugares inexplorados: uma maneira de percorrer caminhos que nos fazem sentir em unidade com a natureza, num mundo que, apesar de “doente”, é sempre maravilhoso.

Mais uma vez, por tudo isto, a bicicleta, na sua simplicidade, continua a ser uma indomável revolucionária.


 

A partir de textos e contribuições de Claudio Zerbetto, Alberto Fiorin, Stefano Marchetti, Stefano Pivato
In Messagero di sant'Antonio
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Imagem: GreenMiles/Bigstock.com
Publicado em 29.05.2020

 

 
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