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“Carta a um religioso”: 35 perguntas de Simone Weil sem resposta

Alguns meses antes de morrer, Simone Weil (1909-1943) redigiu uma série de perguntas dirigidas ao P. Jean Couturier, um religioso dominicano de Paris com quem Jacques Maritain a tinha posto em contacto, para que acompanhasse, através do debate, a procura existencial e religiosa que ela estava a viver e que a estava a aproximar do cristianismo.

O texto contém 35 perguntas. Algumas são dotadas de longos comentários e argumentações que a filósofa coloca como critério de discernimento para poder dizer-se e reconhecer-se católica, ou não. Às questões contidas em “Carta a um religioso” – o texto foi publicado com este título em 1951, graças a Albert Camus, seu grande amigo, editor de muitas obras – ninguém alguma vez deu resposta.

O conteúdo, apesar de serem necessárias algumas precisões e reformulações de certas passagens, é apoiado por uma intuição genial: o reconhecimento de que toda a procura do ser humano, todo o património cultural, religioso e humano que essa busca produziu, todo aquilo que nela há de belo, válido e realmente humano, visa e conduz a Cristo. No coração da civilização pagã pré-cristã, Weil reconhece um anseio e uma expetativa do cristianismo, uma profecia de Cristo.

Simone faz referências explícitas às culturas egípcia, babilónica, druídica, germânica, cretense, fenícia, de que é profunda conhecedora. Mas sem dúvida manifesta uma preferência especial pela cultura greco-romana. Esta deferência pela tradição clássica é um dado comum do pensamento filosófico e humanista do final do século XIX e da primeira metade do seguinte. E enquanto Hölderlin e Nietzsche aspiram ao retorno de uma Grécia sonhada, na qual Prometeu se elevará como paradigma de uma humanidade contrária a Deus, outros pensadores, como Weil, encontrarão no humanismo grego uma porta aberta a Cristo.



Esta posição teológica de escuta, diálogo e interpretação cristã do mundo e do seu saber encontrava já na época patrística um fundamento teológico na belíssima expressão “semina Verbi”, ou das “preparações evangélicas”



Penso, entre outros, em Olivier Clément, amigo de Simone, com quem partilhará um caminho pessoal semelhante, movendo-se do ateísmo para aportar ao cristianismo. Clément interpreou o Maio de 68 como um grito, um gemido de vida, de vida abundante da parte dos jovens revolucionários. Este grito encontrou então na exaltação de Dionísio, deus da vida, da fecundidade e do vinho, a sua expressão: mas o seu cumprimento, concluirá Clément, está em Cristo ressuscitado.

Afirmações semelhantes são o porto a que chega Simone Weil no fim da sua vida, como se na sua história pessoal se repetisse a procura e a expetativa de toda a humanidade. De família judaica, ateia por opção, filósofa de profissão, buscadora da verdade quer no campo intelectual quer moral, ativista política liberal, envolvida com o humano através de uma ética da compaixão que foi capaz de a conduzir até ao sacrifício da vida por solidariedade com os sofredores: aqui Simone encontrou a misteriosa presença do amor de Deus, e precisamente do amor de Deus incarnado, de Jesus, solidário com o sofrimento da humanidade até à cruz.

Todo este itinerário pessoal e espiritual, aparentemente descentrado e distante do cristianismo e da Igreja, é precisamente o que acabará por conduzi-la até Jesus Cristo, porque tudo aquilo que de verdadeiramente humano ela estudou, conheceu e amou, ainda que de forma não consciente, lhe falava d’Ele. Na realidade, “Carta a um religioso” é um apelo à Igreja católica, um chamamento a romper toda a separação e indiferença entre cristianismo e cultura.

Volta a confirmar-se, assim, a missão da teologia como reflexão crente sobre a totalidade do humano, graças a uma interpretação evangélica das suas tradições e dos seus frutos, capaz de a iluminar e conduzi-la ao seu máximo esplendor em Cristo, «em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência» (Colossenses, 2,3). Esta posição teológica de escuta, diálogo e interpretação cristã do mundo e do seu saber encontrava já na época patrística um fundamento teológico na belíssima expressão “semina Verbi”, ou das “preparações evangélicas”.

Quando o papa Francisco, na “Veritatis gaudium”, propõe criar «laboratórios culturais providenciais» através do trabalho teológico, encoraja um estudo da teologia que abra vias de encontro e reconciliação entre cristianismo e sociedade pós-moderna, estimando e transfigurando as conquistas e os anseios da nossa cultura, para desvelar a sua realização última e a sua plenitude em Cristo, onde Deus e ser humano se reconciliam e abraçam.


 

Carolina Blazquez Casado
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Simone Weil | D.R.
Publicado em 29.01.2020

 

 
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