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“Coisas horríveis que os atores negros ouvem quando trabalham em Portugal”

“Coisas horríveis que os atores negros ouvem quando trabalham em Portugal” é o título da série de imagens que Ciomara Morais, atriz, produtora, argumentista e realizadora, publicou no Instagram, e que o Público amplia em reportagem, na qual dá voz a doze atores negros, que falam sobre a sua relação com o mercado do audiovisual em Portugal.

Uma das situações reportadas pela atriz, no texto do jornalista Rodrigo Nogueira publicado na revista Ipsilon de 10 de julho, são «falsos elogios como: “O teu trabalho é muito bom, só não entras no meu novo filme porque não existe nenhuma personagem preta”; ou então: “da próxima vez que estiver num projeto em que precisem de pretos vou dar o teu nome”».

De diferentes gerações e distintos percursos formativos e profissionais, Nádia Yracema, Mauro Hermínio, Cleo Tavares, Marco Mendonça, Ana Sofia Martins, Welket Bungué, Isabél Zuaa, Ângelo Torres, Mina Andala, Carlos Paca e Daniel Martinho testemunham a discriminação, especialmente quanto às personagens que lhes estão disponíveis na televisão, publicidade e cinema.

«Se vamos aos hospitais, há médicos negros a fazer bancos. Eu posso fazer de médico»; «um negro não tem capacidade para fazer teatro ou cinema. Tem capacidade para estar nas obras, para ser "almeida" ou jogar futebol. Coisas pensantes não servem para o negro? Em pleno século XXI, são coisas que nos incomodam», aponta Daniel Martinho, cofundador do Teatro Griot.

Mina Andala, por seu lado, «sempre viu “o teatro, o cinema e a televisão portugueses” serem “liderados e dominados por produtores, criadores e agentes artísticos que desconhecem o homem e a mulher negra”».



«Portugal consegue condensar uma grande diversidade» da denominada «lusofonia africana», isso «deveria estar refletido no corpo de trabalho da ficção nacional portuguesa»



«Na cabeça de alguns criativos, diretores e autores, eu preencho a “quota da diversidade”, mal sabendo eles que nem todos os negros se identificam comigo nem têm de se identificar», acentua Ana Sofia, que exemplifica o pensamento de muitos decisores: «Como até contratámos uma, já não somos racistas».

Há duas décadas a trabalhar no documentário televisivo “Long time for dignity”, sobre os atores negros em Portugal, Carlos Paca, que um dia ouviu dizer «os papéis de pretos são estes, se não querem podem voltar para as obras», está a tentar estabelecer pontes entre o movimento Black Lives Matter de Londres, onde trabalhou, e Portugal.

Os entrevistados são unânimes em considerar que parte do problema radica na escassez de «criativos, técnicos e decisores negros no audiovisual português», e embora haja «exceções de justiça em casting», Marco Mendonça declara que «se ser ator em Portugal já é difícil, ser ator e negro é duas, três, quatro vezes mais difícil».

Welket Bungué, também argumentista e realizador, considera que como «Portugal consegue condensar uma grande diversidade» da denominada «lusofonia africana», isso «deveria estar refletido no corpo de trabalho da ficção nacional portuguesa».

 «Os negros estão fartos de falar sobre racismo, mas temos de continuar porque pouco ou nada mudou», frisa Ciomara Morais. E Cleo Tavares acrescenta que é insuficiente as pessoas negras serem chamadas para debater o tema»: «Já mostrámos tanta vez, mas continua a cingir-se tudo à cor da pele. Há uma riqueza maior do que isso».


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Público
Imagem: Ciomara Morais | © Instagram Ciomara Morais
Publicado em 11.07.2020

 

 
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