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Como o papa escolhe os bispos: Critérios, métodos, orientações

O critério não é a busca da perfeição, de “santos” de nicho, mas de homens, certamente na posse de virtudes humanas e espirituais, sendo a primeira entre todas a prudência, que não significa «reticência ou timidez», mas «equilíbrio entre ação e reflexão no exercício de uma responsabilidade que exige muito empenho e coragem».

O cardeal canadiano Marc Ouellet traça com nitidez o perfil-tipo de um candidato ao ministério de bispo. Em junho completa 11 anos à frente da Congregação para os Bispos, organismo do Vaticano que tem como objetivo ajudar o papa a escolher os pastores a que serão confiadas as comunidades eclesiais no mundo. Um trabalho, explica, conduzido de maneira colegial e «com espírito de fé, e não de cálculo».

 

Para descrever a grande responsabilidade que cabe ao dicastério chamado a escolher os sucessores dos apóstolos, o papa Francisco usou uma expressão forte: «Esta Congregação existe para assegurar que o nome de quem é escolhido tenha sido antes de tudo pronunciado pelo Senhor». Como se faz para se ser fiel a esta missão?

A tarefa que a Igreja confia a este dicastério é o de ajudar o santo padre a decidir. Por isso, o nosso é um discernimento prévio. No que diz respeito a esse “primeiro tempo”, posso sintetizar este grande trabalho em três verbos: orar, consultar, verificar. Orar: a oração como primeira e última ação, como ato de confiança inicial e final das nossas intenções ao Pai celeste; não é por acaso que no centro dos escritórios da Congregação está a capela com o Santíssimo Sacramento. De cada vez que se percorrem os corredores, encontramo-nos diante desta misteriosa Presença a que toda a ação é referenciada. Consultar: a fase preparatória de que nos ocupamos chega ao seu cume após um trabalho intenso com método sinodal: consultas próximo do povo de Deus, os núncios, os membros da assembleia plenária; é o destilado de tudo isto que chega à secretária do papa. Verificar: isto é, procurar alcançar a maior certeza possível de que a pessoa tem as características exigidas.

 

Por trás de cada nomeação episcopal há um trabalho de discernimento por parte da Congregação, mas também de consulta e de envolvimento nas nunciaturas apostólicas e das Igrejas locais. Pode explicar as modalidades em que se realiza?

A individuação e o estudo de um candidato são o fruto de uma ação conjunta entre vários sujeitos. A cada três anos é compilada pelos bispos metropolitanos uma lista “de promovendis”, isto é, um elenco de presbíteros que poderão ser idóneos para o ofício episcopal, segundo as indicações dos bispos da província eclesiástica. A nunciatura avalia estas candidaturas com um processo de consulta junto do povo de Deus, que tem a característica da máxima reserva. No processo de consulta requer-se aos interpelados uma estreita confidencialidade para garantir a veracidade das informações, e sobretudo tutelar a reputação da pessoa estudada. Individuados os melhores perfis para prover às necessidades do momento, transmite-o à Santa Sé. Esta, através da Congregação para os Bispos, considera as candidaturas à luz de critérios ferais, e, com a ajuda de uma assembleia de membros para esse efeito designados pelo santo padre – atualmente 23, entre cardeais e bispos de todo o mundo – realiza a apreciação final, que será oferecida ao papa para a sua decisão definitiva.

 

Não há o risco de que sobre o processo de seleção dos prelados pesem pertenças ou condicionamentos de natureza particular? Como se pode evitar?

Como em todas as coisas humanas podem notar-se nos informadores ambições, invejas, interesses pessoais. Para evitar isto, seria preciso cultivar no povo de Deus e na formação dos presbíteros um espírito de distância. A Igreja não precisa de “arrivistas sociais”, de pessoas que procuram os primeiros lugares, mas de homens que querem sinceramente servir os seus irmãos e indicar-lhes o caminho da fé e da conversão.

 

No perfil pastoral de um bispo contam mais os dotes humanos, as virtudes espirituais ou a capacidade de governar uma diocese?

A Congregação para os Bispos, diferentemente da Congregação para as Causas dos Santos, ocupa-se dos perfis pastorais de candidatos que ainda não são perfeitos, mas de homens em caminho de perfeição. Num sacerdote a propor ao episcopado contam, sem dúvida, as virtudes teologias e cardeais, as chamadas virtudes humanas principais, mas, entre todas, a mais importante para este ofício é a prudência. Esta não deve ser entendida como reticência ou timidez, mas como equilíbrio entre ação e reflexão no exercício de uma responsabilidade que requer muito empenho e coragem.

 

Que influência têm sobre os critérios de escolha a personalidade e a sensibilidade dos diversos pontífices?

A sensibilidade de um pontificado tem, certamente, uma influência notável sobre as escolhas. Cada papa recebe do Espírito Santo uma “visão” particular sobre os problemas da Igreja e sobre as prioridades. Quem colabora com ele é chamado a entrar na perspetiva do “primeiro pastor” com espírito de fé, e não de cálculo.

 

As visitas “ad limina” que o episcopado de todo o mundo realiza a cada cinco anos são um importante momento de partilha entre as Igrejas locais, o papa e a Cúria romana. Como se pode valorizá-las de maneira que se tornem também uma ocasião de conhecimento e enriquecimento para os fiéis leigos e as comunidades paroquiais?

As visitas “ad limina” são um momento de sinodalidade concreta que os episcopados de todo o mundo vivem com o papa e os dicastérios que coadjuvam o seu trabalho. As “apresentações” que as conferências episcopais trazem dos seus territórios compõem um mosaico fascinante em que se vislumbra a ação de Deus em todas as latitudes. Cada bispo deveria ter escutado, antes da visita, o seu povo, e depois regressar à sua diocese após esta série de encontros, que culminam com a celebração da Eucaristia como o santo padre sobre o túmulo de Pedro, para narrar a experiência vivida, para colocar todos ao lado de quanto se recebeu.


 

Benedetta Capelli
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 27.04.2021

 

 
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