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Rumo ao amor, dia 5: Companheiros de viagem

Que disse eu às pessoas que vieram contar-me as suas histórias, as suas esperanças, e mais frequentemente as suas dores de amor? Pensei nisso muito tempo; mas a riqueza de tantos encontros é riqueza de olhares, de calor, de proximidade, mais do que de conceitos, de conselhos, de ideias. Dou-me conta de que muitas vezes o meu papel foi o de acompanhar uma mudança, mais do que defini-la, de oferecer um contributo de clareza e de confiança, mais do que oferecer instrumentos resolutivos.

Nietzsche escreveu que há sempre um pouco de loucura no amor, mas que há sempre um pouco de razão na loucura. É verdade. A beleza de tantos encontros esteve também ligada ao facto de nunca os ter encerrado com um juízo, ou com um veredito, mas sempre uma perspetiva: porque o amor é dança entre finito e infinito, entre aquilo que chegamos a compreender e aquilo que nos escapa. E de cada vez a conversa pôde concluir-se com uma possibilidade nova, libertada das ilusões, e por isso mais amadurecida, mais capaz de recomeçar.

Se, por isso, tivesse de abrir hoje a bagagem de tantas vivências, não encontraria, seguramente, alguma receita de como encontrar um amor, nem um decálogo para não o perder. Aquilo que encontraria é o sentido de uma necessidade universal. O amor é necessário, porque para cada um de nós existir não basta. Porque uma pessoa só pode florescer e desabrochar quando sabe que é amada. Só então se torna completamente si própria. É, com efeito, na confirmação do amor que cada pessoa consegue sentir-se completamente em sua casa no mundo.

Outra coisa que compreendi é que o amor começa com o desejo, mas não pode deter-se, circunscrever-se ao ninho do casal; para alimentar-se, precisa de objetivos, de sonhos, de esperança. Eis a ideia dos companheiros de viagem.



A liberdade. É o primeiro ponto. Liberdade de não teres de aparecer como te quereriam, mas como és, liberdade de te desvinculares de mil condicionamentos exteriores. Liberdade no respeito dos tempos de crescimento do outro



Os dois companheiros não só se escolheram, mas continuam a escolher-se a cada dia, sem que um se torne o fim do outro. Ele e ela viajam juntos, e a sua meta final é a purificação do seu amor. Este conceito na Bíblia expressa-se de maneira belíssima: «Conduzir-vos-ei para uma terra fértil e espaçosa, onde escorre leite e mel». O leite indica o necessário para satisfazer a simples necessidade de vida; o mel é símbolo da doçura da vida e da felicidade de existir. Simplicidade e capacidade de maravilhar-se. Leite e mel. Eis o objetivo dos dois companheiros de viagem.

O amor é simplicidade. O amor é um milagre que se renova continuamente. Mas o caminho que nos conduz a alcançá-lo parece-nos muitas vezes difícil, sobretudo porque continuamos a acrescentar em vez de tirar, a complicar em vez de despojar. Um amor nasce e cresce só se conseguirmos criar os condições acertadas. Quando tenho diante de mim duas pessoas que decidiram amar-se para sempre e querem prometê-lo perante Deus, eu releio simplesmente juntamente com eles um passo do Evangelho no qual encontro todas as regras indispensáveis para criar, manter e não perder aquelas condições acertadas: «Vede como são livres as aves do céu».

A liberdade. É o primeiro ponto. Liberdade de não teres de aparecer como te quereriam, mas como és, liberdade de te desvinculares de mil condicionamentos exteriores. Liberdade no respeito dos tempos de crescimento do outro. Liberdade de procurar o teu e o seu verdadeiro bem.

«Vede como crescem os lírios dos campos.» Mateus não escreve “como são belos”, mas «como crescem» os lírios dos campos. Uma flor de estufa tem tudo pré-estabelecido: semente, calor, água, adubo. A uma flor de campo, a semente leva-a o vento, recolhe água e calor quando vêm. A diferença é que uma flor de estufa considera a vida como algo de devido, uma flor do campo como um dom. Ser como os lírios dos campos quer dizer abrir-se à beleza da criação, viver a vida como um milagre que se repete. É conseguir dizer a cada dia ao teu companheiro de viagem: «É maravilhoso que tu existas».

«Buscai o Reino de Deus, o resto ser-vos-á dado por acréscimo.» Nós, ao contrário, procuramos primeiro o supérfluo, e depois não temos tempo para as coisas que contam. Se apontarmos para aquilo que vale, o resto não faltará.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: youngnova/Bigstock.com
Publicado em 29.02.2020

 

 
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