Espiritualidade
Comunidade Mundial de Meditação Cristã inaugura ciclo sobre místicos cristãos
A Comunidade Mundial de Meditação Cristã, em Lisboa, inaugura esta quinta-feira, 24 de janeiro, um ciclo de seis encontros dedicado a místicos cristãos.
Teresa Messias vai falar sobre o Beato Charles de Foucault (1858-1956), religioso francês assassinado na Argélia, onde vivia entre os tuaregues. Os escritos deste mártir inspiraram a fundação das Irmãzinhas de Jesus, entre outras congregações.
A 28 de fevereiro o frei Rui Grácio das Neves propõe uma reflexão sobre Domingos de Gusmão (1170-1221), santo de origem espanhola fundador da Ordem dos Pregadores, também conhecida por Dominicanos.
O terceiro encontro, orientado a 21 de março pela irmã Luísa Almendra, é dedicado a Santa Gertrudes, a Grande, mística e teóloga nascida no atual território da Alemanha que viria a morrer no início do séc. XIV.
"A Face Mística de Teresa de Calcutá" (1910-1997) é o tema da sessão de 18 de abril, com Maria José Salema, e a 23 de maio Manuela Silva fala sobre Evelyn Underhill (1875-1941), inglesa conhecida pelos seus escritos espirituais, nomeadamente a obra "Mysticism".
O ciclo termina a 27 de junho com o padre Nélio Pita, que explorará a vida e obra de Gregório de Nissa, teólogo e místico do séc. IV originário da atual Turquia.
S. Domingos de Gusmão (det.) (Fra Angelico)
Os encontros, com entrada livre, decorrem às 18h15 no Centro Nacional de Cultura (Rua António Maria Cardoso, 68, ao Chiado).
A meditação
John Main, OSB (1926-1982)
In "A palavra que leva ao silêncio", ed. Pedra Angular
O objetivo essencial na meditação cristã é permitir que a presença misteriosa e calada de Deus dentro de nós se torna cada vez mais, não só uma realidade, mas a realidade nas nossas vidas; deixar que ela se torne aquela realidade que confere significado, forma e finalidade a tudo o que fazemos, a tudo o que somos.
A meditação é um processo de aprendizagem. É um processo de aprender a prestar atenção, a concentrar-se, a esperar. W.H. Auden viu muito bem isto, ao dizer que as escolas eram lugares que deveriam ensinar o espírito de oração num contexto secular. Fariam isto, insistia ele, ensinando às pessoas o modo de se concentrarem plena e exclusivamente naquilo que diante delas se encontrava, fosse um poema, um quadro, um problema de matemática ou uma lâmina no microscópio, e a concentrarem-se neles só por mor deles. Por «espírito de oração» entendia ele uma atenção generosa, esquecida de si. (W.H. Auden, A Certain World. A Commonplace Book, Viking Press, New York, 1970, p. 306).
Santa Gertrudes
Ao aprendermos a meditar devemos, pois, prestar atenção, antes de mais, a nós mesmos. Devemos tornar-nos plenamente conscientes de quem somos. Se conseguirmos realmente apreender, por um momento, a verdade de que somos criados por Deus, poderemos começar a sentir algo da nossa própria potencialidade. Temos uma origem divina. Deus é o nosso Criador. E, na visão cristã, sabemos que Deus é não só Criador de uma vez por todas, que nos cria e, em seguida, nos confia a nós próprios, mas é também o Pai que nos ama. Eis a verdade acerca de nós mesmos que comemoramos, a que prestamos plena atenção na meditação. Só porque esquecemos esta verdade fundamental é que, quase sempre, nos tratamos de modo tão trivial, as nossas vidas escapam-nos por entre os dedos enquanto estamos ou demasiado ocupados ou demasiado entediados para nos lembrarmos de quem somos. A razão por que podemos tornar-nos tão banais e ter-nos a nós próprios, e às nossas vidas, por tão aborrecidos, é simplesmente esta: não prestamos atenção suficiente à nossa origem divina, à nossa redenção divina por Jesus, que nos remiu da trivialidade e do tédio. Nem prestamos atenção à nossa santidade como templos do Espírito Santo.
A meditação é o processo em que dispomos de tempo para nos permitirmos a nós mesmos tornar-nos conscientes do nosso potencial infinito, no contexto do acontecimento-Cristo. Como afirma S. Paulo no capítulo 8 da Carta aos Romanos: «E àqueles que predestinou, também os chamou; e àqueles que chamou, também os justificou; e àqueles que justificou, também os glorificou» (Rm 8,30).
Madre Teresa de Calcutá
Na meditação abrimo-nos a este esplendor. Por outras palavras, isto significa que na meditação descobrimos quem somos e porque existimos. Na meditação não fugimos de nós, achamo-nos; não nos rejeitamos, afirmamo-nos. Santo Agostinho expressou isto de modo muito sucinto e muito belo, ao dizer: «Os seres humanos devem, primeiro, restituir-se a si próprios para que, fazendo de si uma espécie de degrau, possam dali elevar-se e subir a Deus» [Retractações l (viii) 3, Migne PL XXXII].
A maior parte de nós estará, porventura, familiarizada com tudo o que até aqui escrevi. Sabemos que Deus é o nosso Criador. Sabemos que Jesus é o nosso Redentor. Sabemos igualmente que Jesus enviou o seu Espírito para habitar em nós, e temos alguma ideia acerca do nosso destino eterno. Mas a grande deficiência da maioria dos cristãos é que, embora conheçam estas verdades ao nível da teoria teológica, elas não vivem realmente nos seus corações. Por outras palavras, estas verdades são pensadas, mas não se concretizam. Conhecemo-las como proposições oferecidas pela Igreja, pelos teólogos, pelos pregadores nos púlpitos, ou nas revistas, mas não ganharam corpo enquanto verdades fundamentadoras das nossas vidas, como a base segura que nos inspira convicção e autoridade.
Evelyn Underhill
Nada há, pois, de essencialmente novo ou moderno quanto ao contexto cristão da meditação. O seu fito é virar-nos para a nossa própria natureza com uma total concentração, experimentar a nossa própria criação em primeira mão e, acima tudo, orientar-nos e levar-nos a experienciar o Espírito vivo de Deus, que habita nos nossos corações. A vida deste Espírito dentro de nós é indestrutível e eterna e, neste sentido, as verdades que constituem o contexto cristão da meditação são sempre novas e permanentemente actuais.
Na meditação não procuramos ter noções sobre Deus nem tentamos pensar acerca do seu Filho, Jesus, ou a propósito do Espírito Santo. Pretendemos antes fazer algo de imensamente maior. Ao desviar-nos de tudo o que é passageiro, de tudo o que é contingente, não procuramos pensar acerca de Deus, mas estar com Deus, experimentar Deus como o fundamento do nosso ser. Uma coisa é saber que Jesus é a Revelação do Pai, que Jesus é o nosso Caminho para o Pai; outra de todo diferente é experimentar a presença de Jesus em nós, experimentar em nós o real poder do seu Espírito e, nesta experiência, sermos levados à presença «do meu Pai e vosso Pai».
S. Gregório de Nissa
Muitas pessoas estão, hoje, descobrindo que devem encarar o facto de que existe uma diferença relevante entre pensar acerca das verdades da fé cristã e experimentá-las, entre acreditar nelas por ouvir dizer e acreditar nelas a partir da nossa própria verificação pessoal. Experienciar e verificar estas verdades não é justamente a tarefa de especialistas na oração. As Cartas inspiradoras e jubilosas de S. Paulo não foram escritas a membros de uma ordem religiosa enclausurada, mas aos talhantes e padeiros comuns de Roma, Éfeso e Corinto.
© SNPC | 21.01.13
Charles de Foucauld








