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Concílio Vaticano II: A primavera inesperada da Igreja foi anunciada há 60 anos

Papa há apenas 90 dias, João XXIII anunciava a 25 de janeiro de 1959, festa da conversão do apóstolo S. Paulo, a decisão de celebrar um concílio ecuménico.

Após o solene pontifical na basílica de S. Paulo Extramuros, por ocasião do oitavário de oração pela unidade dos cristãos, na sala capitular do antigo mosteiro beneditino, o papa encontrou-se com os cardeais que tinham participado no rito e comunicou-lhes a vontade de anunciar a assembleia conciliar e realizar um sínodo diocesano para Roma, na perspetiva da «desejada e esperada» atualização do Código de Direito Canónico.

Tinham passado 90 anos da abertura do anterior concílio ecuménico, Vaticano I. A ideia de o realizar já tinha sido abordada por Pio XI e, em particular, por Pio XII. Mas o propósito do papa Roncalli ia muito além do dos seus predecessores.

Com este anúncio, deixou surpreendidos e mudos os próprios cardeais, como confiou, anos depois, o próprio João XXIII: «Humanamente podia-se acreditar que os cardeais se apertassem à nossa volta para exprimir aprovação e bons votos; ao contrário, houve um impressionante e devoto silêncio».

O então secretário de João XXIII, Loris Capovilla, falecido em 2016 e criado cardeal dois anos antes, por Francisco, recordava que a convocação da assembleia lhe suscitou inquietações.

«Quando pela terceira vez me falou da ideia do concílio, perante o meu silêncio convenceu-se de que eu tinha reservas. Sentia-me confuso. Então respondeu-me: “Sei como é, pensou que sou velho. Sim, pensou. Meses de preparação, consultas, são precisos anos. Disse-o também a mim próprio, sozinho: mas eu sou demasiado lento para me poder aplicar aos muitos problemas que estarão sobre a minha mesa, também sou velho. Depois pensei ter colaboradores”.»



Após ter comunicado a intenção de realizar um sínodo diocesano, anunciou o concílio. «Nesse momento houve um “ohhhhhh!”, e depois um silêncio sepulcral. Ninguém disse mais nada. E depois houve um burburinho geral



«Nunca criticou os seus colaboradores, todos, fossem de uma ou de outra tendência, de uma ou de outra abertura pastoral. Mas sublinhava como a ideia do concílio tinha partido de um grande ato de humildade. Só podia ser uma inspiração de Deus. A Igreja precisava de um encontro universal. E o concílio representou pela primeira vez em 20 séculos um encontro de bispos com uma diversidade como nunca tinha havido, de línguas, raças, culturas, tradições. Em tanta diversidade, todos rezaram juntos, cantaram, prometeram, obedeceram», observou o cardeal Capovilla.

Guido Russo, ajudante de câmara do papa, lembra-se bem daquele 25 de janeiro: «Guido, escolhe o roquete mais belo porque hoje será um dia excecional, terei de fazer um grande anúncio».

Durante o percurso de automóvel do Vaticano até à basílica de S. Paulo, «o papa estava como que absorto, não falava. Normalmente, falava sempre… mas naquele dia, naquela manhã, tudo em silêncio. Chegámos à basílica, decorreu a cerimónia, e depois convidou todos os cardeais a ir para a “saleta”, uma pequena sala».

Após ter comunicado a intenção de realizar um sínodo diocesano, anunciou o concílio. «Nesse momento houve um “ohhhhhh!”, e depois um silêncio sepulcral. Ninguém disse mais nada. E depois houve um burburinho geral… Ele explicou, e depois disse ainda que tinha de fazer outra coisa, a reforma do Código [de Direito Canónico]. Explicou um pouco, e todos se foram embora, cada um por sua conta. O papa entrou no automóvel, sério. E disse: “Não levaram a bem: esta coisa do concílio a nenhum agradava”». Mais tarde, dos cardeais, disse: «Já começam a atirar-me pedras».

Não se deixou esmorecer. No final do dia «estava contente, seguramente contente. Foi uma inspiração, dizia: “É hora de a Igreja se modernizar, com os tempos modernos que temos. Para que não estejamos ainda ancorados ao concílio de Trento [séc. XVI]. Portanto a Igreja deve adaptar-se aos tempos”. Isto era o que ele queria», afirmou Guido Russo.

A mesma ideia é partilhada pelo bispo emérito de Ivrea, em Itália, a participante no concílio, D. Luigi Bettazzi: João XXIII «pensou no concílio porque via-se que a Igreja tinha dificuldade em dialogar com o mundo moderno».


 

Rui Jorge Martins
Fonte: L'Osservatore Romano
Imagem: D.R.
Publicado em 24.01.2019

 

 
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