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Rumo ao amor, dia 32: Conhecer-se custa

Narra-se no Evangelho: «Uma mulher há doze anos que era afetada por hemorragia … Ouvindo falar de Jesus, mistura-se entre a multidão, nas suas costas, e tocou-lhe o manto … E logo se deteve o fluxo de sangue».

A vida verdadeira é nua, não se imagina, não se pensa, vive-se, toca-se. Só nos tornamos conscientes se se toca a vida, se encontramos alguém fisicamente e se isso nos transforma.

Uma das páginas mais enigmáticas da Bíblia é aquela em que Deus pede a Abraão para matar o seu filho Isaac. Porque que é que Deus lhe pede uma coisa tão ilógica? Eu julgo que é para lhe fazer compreender, ao seu povo e à sua descendência, o grande valor do não matar. Condu-lo ao monte até a um passo do gesto, e depois diz-lhe: «Para».

Hoje julgamos acontecimentos e ideias permanecendo desprendidos da vida. Deus pede-te para viver antes de falar, e antes de matares diz-te: e se fosse o teu filho? Deus aproximou-se de Abraão, Jesus viveu com os apóstolos: o objetivo não era conquistar o mundo, mas fazê-los crescer no conhecimento, a fim de que cada um deles se conquistasse a si próprio.

Jesus define-se como “Ben-Adam”, o “Filho do homem”, que significa portador de um destino. Vêm-me à ideia as palavras de Fabrizio De Andrè: «Deus fez-me nascer porque queria dar à luz um sentido».

Jesus é atento aos detalhes, ao nome de cada pessoa, à muita estrada que cada um tem de percorrer antes de chegar a casa.

Deus não quis guiar as pessoas para a sua casa conduzindo-as pela mão, mas despertando a sua parte mais íntima e fazendo exprimir aquilo que há muito é conhecido nelas mas ainda não foi reconhecido.

Custa-nos o conhecimento de nós próprios, pelo desequilíbrio que vivemos na oscilação entre o desespero e o orgulho, entre o desejo de liberdade e a necessidade de segurança, entre a solidão e o terror de não estar à altura.

É tempo de voltar a agarrar nas mãos as nossas vidas, e não deixá-las à mercê de forças cegas que nos guiam. O valor que temos devemos reconquistá-lo despindo roupas que não são nossas, e conservar um espaço de solidão que nos permita permanecer connosco próprios e voltar a dar valor à nossa unicidade.

Há uma força que quer que tu te detenhas na forma a que chegaste, sem te permitir crescer. Mas há, e haverá sempre, poetas, pessoas que refletem sobre si, que habitam a vida sem se separar do seu espaço de vida. Gente consciente de que viver é já uma bênção, que mesmo na fragilidade é possível tomar decisões para a vida, que o tempo que nos é dado nos serve para aprender a amar.


 

Luigi Verdi
In Il domani avrà i tuoi occhi, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: graphixchon/Bigstock.com
Publicado em 28.03.2020

 

 
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