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Criar cultura é fundamental e não se pode dispensar, afirma presidente da Conferência Episcopal

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa considera que a cultura é uma das atividades «altamente penalizadas» pela pandemia, mas que «são fundamentais» para que Portugal seja capaz sair da crise causada por ela «como uma sociedade bem organizada, com perspetivas, que seja capaz de criar solidariedade entre as pessoas».

Os artistas e agentes ligados à cultura têm ficado «em muito má situação», e por isso «é preciso dar atenção» a eles, uma responsabilidade que cabe «à sociedade no seu conjunto», declarou D. José Ornelas Carvalho, em entrevista ao jornal digital 7Margens, realizada em parceria com o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

«É preciso encontrar espaço para que a sociedade possa revolver e revitalizar-se, e este é um domínio onde se nota o nível de uma sociedade, a capacidade de criar cultura, e isso não pode ser uma coisa dispensável, não só pelas pessoas que estão em causa, mas pela sociedade no seu conjunto», vincou.

Entre os temas abordados na entrevista conduzida pelos jornalistas António Marujo e Jorge Wemans – que pode ser lida na íntegra na página do 7Margens – incluiu-se a próxima Jornada Mundial da Juventude (JMJ), prevista para 2023, em Lisboa, que o prelado qualifica de «ocasião única» que vai proporcionar a experiência «do encontro», mas também de «organizar e saber acolher».



«Quero que sejam os jovens a falar, e pô-los na organização; se formos nós a organizar coisas para os jovens, a fazermos discursos para os jovens, não vamos resolver nada»



Depois de revelar que deposita «muita confiança» nos jovens para a organização do evento o também bispo de Setúbal antevê a possibilidade de o número de participantes não atingir as estimativas inicialmente projetadas, mas o decréscimo não é relevante para a motivação: «Nós vamos organizar a festa, e vamos organizá-la bem».

O encontro constitui uma ocasião para a Igreja «se organizar e pôr os jovens no centro», invertendo a estratégia seguida para o seu acolhimento nas estruturas eclesiais: «Nós queremos ter os jovens na Igreja, mas quando eles chegam, o que podem fazer se todos os lugares estão ocupados?».

Após admitir que as comunidades católicas «ainda repousam muito sobre os velhos», o prelado, de 66 anos, sustenta que urge «pôr os jovens no interior de onde se tomam decisões»: «Estamos a tentar constituir Conselhos Juvenis em cada paróquia; não para dizer que agora quem manda são os jovens – não é o problema de mandar, mas de inserir».

Se esta inclusão efetiva não for concretizada, quer na sociedade civil, como, por exemplo, na política, quer na Igreja, o jovem desvincula-se, porque não quer ser chamado «só para ouvir discursos».

«Quero que sejam os jovens a falar, e pô-los na organização; se formos nós a organizar coisas para os jovens, a fazermos discursos para os jovens, não vamos resolver nada»; e se é verdade que não se pode prescindir da «experiência daqueles que a têm, porque não vai ser uma tarefa fácil», é aos jovens que cabe «estar na linha da frente».



«É numa Igreja assim que eu também acredito, uma Igreja que é capaz de gestos, de viver a simplicidade da vida – a grandeza e o mistério da vida são precisamente isso, criar uma humanidade capaz de ter gestos de fraternidade, de paz, de aceitação, de ir ao encontro de quem precisa»



Referindo-se à rejeição que o papa suscita entre setores católicos, D. José Ornelas observa: «[Com Francisco] «surge uma linguagem nova, estranha, e por isso não me admira que haja um certo depreciar de critérios e de modos de falar, agir e ser Igreja que não são exatamente só os nossos [da Europa]; para alguns, é um problema. Mas isso faz-nos bem, descentrar-nos; ainda pensamos que somos o continente que determina tudo no mundo; não é verdade».

A linguagem de Jorge Mario Bergoglio, que a 17 de dezembro assinala 84 anos, tem transmitido «verdades simples, mas que são bem pintadas e que ficam no coração e na mente da gente».

Para D. José Ornelas, eleito em junho presidente da Conferência Episcopal, as atitudes de Francisco têm ajudado a tornar manifesto o facto de que «a Igreja não é uma questão de importâncias, de sumidades»; antes, é do «comum da gente que se decide a felicidade, o futuro».

«É numa Igreja assim que eu também acredito, uma Igreja que é capaz de gestos, de viver a simplicidade da vida – a grandeza e o mistério da vida são precisamente isso, criar uma humanidade capaz de ter gestos de fraternidade, de paz, de aceitação, de ir ao encontro de quem precisa», assinala.

O inverso, prosseguiu, «é o conflito, a ganância, cada um querer ser maior do que o outro – “make my country great again” [alusão ao “slogan” do presidente dos EUA, Donald Trump]; isto é uma lógica que não dá».

«É por isso que o papa, na encíclica “Fratelli tutti”, logo nos primeiros parágrafos diz que é preciso mudar de mente, é preciso entender o Evangelho das bem-aventuranças, o Evangelho do coração, o Evangelho do relacionamento humano digno e justo para com todos», sublinha D. José Ornelas.









 

Rui Jorge Martins
Imagem: D. José Ornelas Carvalho | Rui Jorge Martins/SNPC/7Margens
Publicado em 27.11.2020 | Atualizado em 28.11.2020

 

 

 
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