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Da Ascensão ao Pentecostes: Até já Jesus, bem-vindo Espírito Santo

Quando se pede para criar uma “password”, por vezes são feitas perguntas de autenticação. A minha favorita é: «Que pessoa histórica mais gostaria de conhecer?». Pergunto-me sempre quantas pessoas dizem «Jesus».

No passado domingo celebrámos a Ascensão, o dia em que Jesus deixou a Terra. Acho que muitos de nós gostariam de tê-lo de volta. Mas Jesus partiu e deu-nos o Espírito. Foi uma troca justa?

Se pudesse escolher entre ter Jesus presente hoje ou ter o Espírito, qual escolheria? Julgo que para a maioria dos cristãos não haveria contestação. A maior parte de nós desistiria da vida com o Espírito por cinco minutos com Jesus. Queremos Jesus; do Espírito podemos prescindir.

No entanto, se fosse nisso que acreditássemos, então, realmente, não entenderíamos os Evangelhos; realmente não entenderíamos Jesus.

A festa da Ascensão celebra a partida do Jesus físico e a preparação para a chegada do Espírito no Pentecostes, este domingo. Muitos de nós não quereriam essa transição mais do que os apóstolos quando, na Última Ceia do Evangelho de João, Jesus lhes disse que tinha de ir. Ele tem de ir para que possa enviar o Espírito.



Toda a criança que tem pais amorosos experimentou o Espírito. O amor fiel que experimentamos de amigos e cônjuges é uma experiência do Espírito. O amor inocente e confiante das crianças é um sinal do Espírito. Sempre que nos sentimos impelidos a amar, não são apenas hormonas; é o poder do Espírito



Jesus diz aos seus discípulos, no capítulo 16 de João: É melhor para vós que Eu vá, porque, de outra forma, o Espírito não virá. Mas indo, vou enviá-lo para vós. Os discípulos, substancialmente, respondem: Esquece o Espírito, nós queremos que fiques aqui connosco.

Creio que a nossa resposta, hoje, seria a mesma. Mas por que é que Jesus diz que é melhor para nós se tivermos o Espírito?

Acho que é porque, independentemente do quão perto estivermos dele, Jesus é sempre externo, enquanto o Espírito está dentro de nós. Por outras palavras, é a escolha entre ter Jesus ou ser Jesus.

É o Espírito que nos faz Jesus, que nos torna o corpo de Cristo. É o Espírito que nos dá vida e nos enche de amor. É por isso que Jesus tem de ir embora para que possa enviar o Espírito. Não é suficiente para nós estarmos com Jesus; temos de nos tornar Jesus, e só o podemos concretizar com o poder do Espírito.

Muitos católicos ficam nervosos quando ouvem carismáticos ou evangélicos falar sobre ficarem cheios do Espírito Santo. Em algum momento das nossas vidas, podemos ter tido uma experiência espiritual em que sentimos a presença de Deus, mas na maioria das vezes atravessámos a nossa vida espiritual sem fogos de artifício.



O que é mais humano, o que é verdadeiramente mais humano em nós, é a presença do Espírito. O Espírito está presente em todos, chamando-nos a ser mais do que pensávamos que poderíamos ser.



Julgo que o nosso problema é não sabermos como reconhecer a presença do Espírito nas nossas vidas. Julgo que experimentamos a presença do Espírito não apenas em momentos especiais, mas todos os dias das nossas vidas. Só que não o reconhecemos. Se realmente acreditamos que Deus é amor, como as Escrituras nos dizem, então, de cada vez que experimentamos amor, experimentamos o Espírito.

Toda a criança que tem pais amorosos experimentou o Espírito. O amor fiel que experimentamos de amigos e cônjuges é uma experiência do Espírito. O amor inocente e confiante das crianças é um sinal do Espírito. Sempre que nos sentimos impelidos a amar, não são apenas hormonas; é o poder do Espírito.

As pessoas que arriscam as suas vidas para cuidar de pacientes com Covid-19 estão cheias do Espírito. Aqueles que dedicam as suas vidas à justiça e à paz, ou à proteção da Mãe Terra, são impelidos pelo Espírito.

Na sua exortação apostólica de 2016, “Amoris laetitia”, o papa Francisco disse que viu a presença do Espírito no movimento das mulheres a favor da igualdade e pelos seus direitos.



Na sua primeira homilia de Páscoa, o papa Bento XVI afirmou que a ressurreição é o próximo passo na evolução humana. Ajudamos o mundo a evoluir quando nos unimos ao Cristo ressuscitado, tornando-nos mais amorosos



A leitora pode dizer: «Isso não soa como o Espírito; é tudo muito humano». Eu diria que o que é mais humano, o que é verdadeiramente mais humano em nós, é a presença do Espírito. O Espírito está presente em todos, chamando-nos a ser mais do que pensávamos que poderíamos ser. Só o Espírito nos dá o poder de amar desinteressadamente, de nos sacrificarmos pelos outros, de nos comprometermos com a fidelidade nos bons e maus momentos, de colocar a justiça acima do nosso próprio benefício.

Há uma segunda razão pela qual Jesus tem de partir: Ele tem de ser transformado no Cristo cósmico.

Na cosmologia de Lucas, o Paraíso está no céu. O nosso conhecimento da astronomia e da evolução dá-nos uma perspetiva diferente. A ascensão celebra Jesus que se torna o Cristo cósmico, que está relacionado não só com a Terra e a humanidade, mas com o universo e tudo o que nele vive. Neste sentido, Cristo é maior que Jesus, assim como o universo é maior que a nossa Terra. O Jesus ascendido torna-se o Cristo cósmico sentado à direita do Pai.

Na sua primeira homilia de Páscoa, o papa Bento XVI afirmou que a ressurreição é o próximo passo na evolução humana. Ajudamos o mundo a evoluir quando nos unimos ao Cristo ressuscitado, tornando-nos mais amorosos. A Ascensão lembra-nos que o Cristo com quem estamos unidos é o Cristo cósmico, que está sentado à direita do Criador do universo.

Ao celebrarmos a Ascensão, escutamos as palavras de Jesus, mas com ouvidos abertos pelo Espírito. Pelo poder do Espírito, estamos unidos a Cristo e uns aos outros como um corpo. Este Cristo não é apenas o Jesus que andou na Terra, mas o Cristo cósmico.

Pelo poder do Espírito, unimo-nos a Cristo e a toda a criação, dando graças ao nosso Deus e Pai. E quando partimos o pão, o Espírito abre os nossos olhos para ver Cristo no meio de nós. Ao celebrarmos a Ascensão e o Pentecostes, oramos: «Vem Espírito Santo, enche os corações dos teus fiéis».


 

Thomas Reese, SJ
In National Catholic Reporter
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 29.05.2020

 

 
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