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De joelhos para desarmar o ódio

Fazem escudo com o seu corpo. Por vezes com lágrimas, por vezes com os braços abertos em sinal de paz, ou dirigidos para o alto, em oração. Não são pessoas sem mácula e sem medo. São pessoas conscientes de que Deus realiza os seus desígnios «através e apesar da nossa fraqueza», como diz o papa Francisco na carta apostólica “Patris corde”, Consagradas, sacerdotes e alguns bispos de Myanmar nestas horas desceram às ruas, em várias cidades do país, com o único propósito de salvar jovens vidas, enquanto o exército birmanês executa uma vaga de repressão cada vez mais forte, diversos meios de comunicação foram silenciados, e teme-se que, de um momento para o outro, a junta militar possa ordenar um rígido confinamento para bloquear todo o género de protesto.

Em duas cidades de Myanmar, Myitkyina e Loikaw, a intervenção tempestiva dos consagrados evitou um massacre, mas, apesar de tudo, dois jovens foram mortos, numerosos foram feridos e centenas foram presos. «Temos medo que os agentes da polícia matem os jovens manifestantes. A nossa presença de pessoas de fé, operadores de paz, pode ajudar a fazê-los desistir. Por isso estamos aqui na rua», afirmam as religiosas católicas de Myitkyina, no norte do país, capital do estado Kachin, onde os cristãos são cerca de 30 por cento da população.



Imagem D.R.


Aqui, para fugir aos espancamentos e às detenções, alguns jovens manifestantes refugiaram-se no complexo da catedral católica de S. Columbano, mas os militares começaram a disparar para os jovens desarmados: o trágico balanço é dois jovens mortos e sete feridos pelas forças de segurança. O perímetro da catedral foi cercado pelo exército, que, nas horas seguintes, prendeu 90 manifestantes. Não obstante a violência, em frente a igreja reuniram-se, em silêncio, pessoas de várias comunidades religiosas, velando e orando pelos dois jovens que perderam a vida e pelas suas famílias. Entre elas estava o bispo emérito da diocese, D. Francis Daw Tang: «Nesta fase crítica para o nosso país, há necessidade do nosso contributo de paz, de misericórdia, de perdão», explicou.

«É uma Quaresma especial, esta, para nós cristãos em Myanmar», acrescenta a Ir. Ann Nu Tawng, a religiosa que se tornou “ícone da paz”, por ter travado, nos últimos dias, ajoelhando-se diante deles, os militares que avançavam. A irmã repetiu ontem o seu sentido apelo, e alguns soldados, de religião budista, ajoelharam-se junto a ela, mostrando respeito e empatia para com a sua presença e as suas palavras de mansidão e compaixão. «É nossa tarefa pregar e testemunhar a opção da não-violência evangélica, a nossa missão é anunciar e viver até ao fim o amor de Cristo, inclusive para com o inimigo», afirmou, ao explicar a sua tentativa de mediação.










Cenário semelhante repetiu-se na cidade de Loikaw, capital do estado de Kayah, onde a presença católica começou desde o final do século XIX, com a chegada dos primeiros missionários, e onde hoje os fiéis são 90 por cento da população. Centenas de jovens manifestantes marcharam hoje, 9 de março, na rua próxima à catedral católica de Cristo Rei. As forças da polícia bloquearam o caminho, preparando-se para o recontro. Nessa ocasião, o sacerdote católico Celso Ba Shwe, administrador diocesano de Loikaw, e um pastor protestante entrepuseram-se no meio das duas formações. O seu hábito branco destacava-se diante das forças da polícia, enquanto imploravam aos agentes para deterem o avanço e não disparassem sobre os manifestantes. «Iremos convencê-los a voltar para casa. Dai-nos um pouco de tempo. Não queremos que o sangue banhe a nossa terra», suplicou o sacerdote. Depois de momentos de alta tensão, os militares dispararam tiros de aviso e lançaram granadas atordoantes para dispersar a multidão. Por agora, nenhuma vítima.



Imagem D.R.

 

Paolo Affatato
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 09.03.2021

 

 
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