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Depois da Ucrânia, a Rússia: Mil bebés esperam pelo afeto dos pais

Mil bebés nascidos de “barrigas de aluguer” a partir de fevereiro, quando começou a emergência devida ao coronavírus, aguardam em cidades russas a reabertura de fronteiras, que permitirá aos pais que recorreram à denominada gestação de substituição levá-los com eles.

Depois da revelação, em maio, de dezenas de recém-nascidos no hall de um hotel em Kiev, o caso (que se verifica noutros países do leste europeu, como a Geórgia) repete-se, mas em escala pelo menos decuplicada: se na Ucrânia se calculava que os bebés nascidos durante o confinamento fossem cerca de cem, na Rússia estima-se que sejam em torno de um milhar.

A notícia surge na sequência de uma investigação do jornalista Andrew Roth, que no jornal britânico “The Guardian” escreveu que o encerramento das fronteiras obrigou as clínicas a dispor as crianças em apartamentos privados, cuidados por baby-sitters.

A muitas mães a quem o seu ventre foi “contratado”, que normalmente são obrigadas a deixar o bebé logo após o parto, foi pedido que cuidassem dos recém-nascidos durante mais tempo. Por seu lado, os pais estão a pressionar as autoridades de Moscovo para obter salvo-condutos que lhes permitam ir buscar as crianças.

Segundo a investigação, que falou com a vice-diretora do Conselho para os Direitos Humanos, trata-se de casais sobretudo asiáticos: 180 serão da China, outros de Singapura e também das Filipinas. E, depois, Argentina, França e Austrália.

À semelhança do que está a acontecer na Ucrânia, também este caso patenteia as injustiças, também emocionais, inerentes à prática da maternidade de substituição: crianças de dias, semanas ou poucos meses, que recebem cuidados profissionais em vez de usufruir do afeto e do calor das famílias, a fortíssima pressão sobre as mães gestantes, chamadas à proximidade com um filho que, por contrato, estão obrigadas a abandonar a outros.

Uma mãe que deu à luz em maio afirmou que a ausência da família foi emocionalmente complicada, e, possivelmente, para evitar criar laços com a criança que, mais cedo ou mais tarde, teria de entregar, recusou cuidar dela, e por isso o bebé foi confiado aos cuidados de uma baby-sitter.

A tudo isto, acrescenta-se a opacidade das práticas: há poucas semanas, quatro médicos e outros tantos colaboradores de duas clínicas para o tratamento da infertilidade foram detidos, acusados de tráfico de seres humanos, depois de dois “incidentes”: em janeiro, explica o jornal, uma criança foi vítima da síndrome da morte subida, e em junho foi descoberto um apartamento em que viviam cinco bebés cuidados por duas baby-sitters chinesas.

Na Rússia, a maternidade de substituição é legal para casais estrangeiros heterossexuais (como na Ucrânia, Geórgia e em poucos outros países), e a mãe gestante não pode ter laços genéticos com a criança, para evitar qualquer reivindicação. Os casais estrangeiros recorrem a intermediários, e os custos totais são estimados em cerca de 66 mil euros; as gestantes, normalmente jovens de regiões pobres, recebem em torno dos 12 mil euros.


 

Antonella Mariani
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Vivid Pixels/Bigstock.com
Publicado em 04.08.2020

 

 
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