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Desaparece daqui, visionário!

É frequente que apenas em retrospetiva consigamos perceber que a história gira em torno das palavras dos profetas. Durante as suas vidas, aqueles que proclamam verdades inconvenientes e exigentes são descartados como antipatrióticos ou obstáculos ao progresso. Só depois de desaparecerem é que aceitamos as mudanças que propuseram.

Martin Luther King Jr. foi criticado como comunista. O arcebispo Óscar Romero foi criticado por Roma por ser excessivamente político. Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e doenças infetocontagiosas dos Estados Unidos, é ao mesmo tempo elogiado e criticado por repreender líderes políticos e um público relutante por não conseguirem conter uma crise de saúde pública mortal causada pelo coronavírus. A jovem Greta Thunberg tem sido homenageada pela sua apaixonada advocacia pelo planeta e pelas gerações futuras.

Amós  era um desses profetas sem medo, no Israel do século VIII (Amós 7,10-17). Quando Amazias, o sacerdote de Betel, ordenou que deixasse de criticar o rei e deixasse Israel, Amós redobrou o seu compromisso de pregar a Palavra que tinha recebido em termos ainda mais fortes.

A oposição a Jesus durante o seu ministério foi generalizada e contínua (Mateus 9,1-8). Até os seus milagres de cura e mensagens de perdão incitaram a condenação por parte das autoridades religiosas. Quando Jesus disse a um paralítico que os seus pecados tinham sido perdoados, os escribas murmuraram que estava a blasfemar por reivindicar algo que somente Deus podia conceder. Para mostrar que Deus estava a autorizar as suas palavras, Jesus restaurou a saúde do paralítico.

Uma interpretação da afirmação de Jesus de que «o Filho do homem tem na Terra o poder de perdoar os pecados» é de que Ele queria dizer "os seres humanos" têm essa capacidade. De facto, isso minou o sistema cultual que exigia que as pessoas fossem ter com os sacerdotes e oferecessem sacrifícios no templo para obter o perdão pelos seus pecados. Jesus deve ter enfurecido os escribas por questionar os rendimentos do templo e desafiar as pretensões dos seus líderes de representar Deus.

Jesus sabia que os profetas não eram aceites no seu próprio tempo e lugar, porque apelavam a uma humanidade relutante para mudar. Ele, deliberadamente, levou o seu ministério da Galileia para Jerusalém, onde «todos os profetas vieram para morrer» (Lucas 13,33), porque desafiar o sistema existente era muito transformador. Jesus não proclamou apenas a Palavra de Deus; Ele era a Palavra de Deus. A sua presença teve a força incontestada da Palavra de Deus na Criação, quando o que Deus declarou se tornou realidade.

O Evangelho que Jesus pregou não era apenas um conselho ou um ideal; afirmou a vontade de Deus para o mundo ao direcionar a história para o cumprimento do seu destino divino. Mesmo o esforço humano para bloquear a vontade de Deus através da morte de Jesus (leiam-se as palavras de Caifás em João 11,50) não poderia alterar a missão de Jesus de salvar o mundo. A sua morte na cruz fazia parte do plano de derrotar o pecado e a morte, respondida pela ressurreição, o nascimento da nova Criação.

Os profetas, por mais perturbadores que pareçam, são vozes de esperança. Dizem-nos para onde precisamos de ir para encontrar uma vida melhor. Não podemos continuar a ficar onde estamos. A turbulência e a oposição que acompanham mudanças importantes são motivo de alegria. E são também um apelo a não adiar a graça do momento, que nos chama a acolher um renascimento na esperança.


 

Pat Marrin
In National Catholic Reporter
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "Amós" (det.) | Gustave Doré
Publicado em 02.07.2020 | Atualizado em 03.07.2020

 

 
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