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Desejo e vontade

Em Ética e em Teologia, bem como em outras disciplinas, é comum haver uma confusão entre «desejo» e «vontade». O desejo é sempre da ordem do dado, embora implique um ato. Não é, assim, propriamente passional, no sentido de ser «sofrido» pelo sujeito em que se conforma. O desejo é sempre um ato de se relacionar ativamente o que se é com o ser que não se é, mas se pode vir a ser, relação que coincide com o ato que promove tal trânsito ontológico.

Não se trata também de trânsito para uma qualquer «posse», que é sempre algo de distinto do sujeito; mesmo quando de fala de «posse de si próprio», o que se está a dizer é a absoluta coincidência de si consigo próprio, o que é redundante.

Deseja-se, sempre, ser o que se não é, no trânsito em que se busca ser. Não é, assim, possível desejar-se ser o que se é em ato. Sem uma qualquer possibilidade própria que ainda não está concretizada, não é logicamente possível desejar-se seja o que for.

Neste sentido, o desejo não é apenas fruto de uma carência; pode sê-lo, mas pode também ser o ato que remete para um maior bem. Um maior bem não se opõe a uma carência de bem, mas funciona como superabundância possível de um bem, isto é, de uma perfeição. Tal perfeição, segundo esta lógica, nada tem de necessariamente imperfeito.

A relação entre uma perfeição e outra possível é mesmo uma relação entre duas perfeições, não entre uma imperfeição e uma perfeição: se a perfeição n fosse eternizável como tal, seria, impassível de ser dita como imperfeição qualquer. Ora, se a esta perfeição se constituir como desejo, não deixa de ser o que é como perfeição eternizável, todavia pode evoluir para uma outra perfeição. Esta perfeição em nada necessita de uma adjetivação como «melhor», «superior», etc.; assim se compreende que, teologicamente, se possa falar de «desejo próprio do próprio Deus», pois em nada tal desejo «melhora» Deus. A questão é outra.



Um Deus violento – que não seria propriamente Deus, mas outra coisa qualquer – facilmente converteria o demónio; bastaria querer; todavia, que verdade atual haveria em tal conversão?



Em termos cristãos, teologicamente, quer a figura de Cristo quer a de Maria, cada um em sua ontologia própria, são figuras de perfeição. Todavia não faz qualquer sentido dizer que são carentes de desejo; pelo contrário, em Cristo, o desejo salvífico confunde-se, em certo aspeto, com o que é em seu ato; em Maria, o desejo de ser colaboradora de tal desejo do Filho permite-lhe, na fidelidade a tal desejo, atingir a máxima perfeição humana possível. Um e o outro sempre desejando.

Não é, assim, nestas duas figuras teológicas máximas, cada uma em seu âmbito ontológico próprio, o desejo expressão de qualquer carência, mas de uma superabundância de amor: o amor, o ato de bem pelo outro, implica que se deseje o bem do outro, não a partir de um defeito, mas de uma realidade de perfeição ontológica.

Esta é a tal «questão» acima aludida: para Deus, o desejo de cumprimento em bem do ser humano e de toda a humanidade e de toda a criação não releva de qualquer defeito ou de qualquer carência, mas de uma superabundância de amor: o desejo de Deus coincide com o amor de Deus para com as criaturas, amor que é infinito em ato, sem violência.

Este sentido da sem-violência do amor de Deus é fundamental para que se possa perceber a distinção entre desejo e vontade: se Deus quisesse o bem da criação, aquele imediatamente se concretizaria, pois a vontade – que não é hipóstase facultaria alguma – realizaria imediatamente tal bem, assim anulando a parte da criação que tem de desejar e querer, nos mesmos moldes de Deus, em modo próprio, diferente, ser bom, vulgarmente dito: «ser salvo».



Como se costuma também dizer, e bem, o coração de Deus não descansará enquanto toda a criação não se lhe reunir por vontade das criaturas. Desejo de Deus, vontade das criaturas. Qual é nosso desejo e nossa vontade?



É bem clara a manifestação que o Génesis nos dá do que é a vontade de Deus: ao desejo de criar o mundo segue-se, ontologicamente, não temporalmente, pois não há, ainda, tempo, a vontade de criação, que, imediatamente, quer dizer, sem outra qualquer mediação, cria o mundo. É este o sentido profundo de ‘tirar’ Deus o «mundo do nada», ‘tira-o’ não do nada absoluto, que implicaria que nem Deus houvesse, mas do nada do próprio mundo; mas do absoluto da sua vontade.

A vontade de Deus é imediatamente criadora de ato, imediatamente operante e eficaz. Eis a razão pela qual não se pode dizer inteligentemente em Teologia que Deus «quer» isto ou aquilo, sem se perceber se se pode mesmo produzir tal afirmação. Por exemplo: «Deus quer que tu te salves» – tal realidade atual implicaria que me salvasse imediatamente, na verdade, sem mim, por ato violento de Deus, que me não tinha em conta alguma para me salvar, assim, anulando a minha liberdade e, com ela, a mim próprio.

Muito diferente é dizer, segundo o sentido acima exposto, que «Deus deseja que te salves»; tal significa que há em Deus um sentido de amor expectante relativamente a mim, de que eu me construa no bem, assim, e porque o bem é sempre manifestação e presença de Deus, construa o bem, me construa em bem. Cada ato em que a minha vontade me põe em ato de bem, é como se fosse eu querendo o meu bem por Deus ou Deus a querer o meu bem, mas através de mim, através do meu ato próprio e irredutível, providencialmente, sem violência, com misericórdia, senhora da criação e da liberdade, outro nome do desejo de Deus.

Um Deus violento – que não seria propriamente Deus, mas outra coisa qualquer – facilmente converteria o demónio; bastaria querer; todavia, que verdade atual haveria em tal conversão? Outra realidade é a um Deus que deseja a conversão do demónio e dispõe de uma relação infinitamente transcendente com o movimento de todas as criaturas, podendo, assim, ter a «paciência» para esperar que o seu desejo possa ser concretizado não por si próprio, mas pela criatura em causa. É apenas uma questão de movimento, de tempo, como costuma dizer-se.

Como se costuma também dizer, e bem, o coração de Deus não descansará enquanto toda a criação não se lhe reunir por vontade das criaturas.

Desejo de Deus, vontade das criaturas.

Qual é nosso desejo e nossa vontade?


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: fizkes/Bigstock.com
Publicado em 18.01.2021

 

 
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