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«Digamo-lo com força e sem medo: temos fome»

Estamos cheios de uma vida de conformismo, indiferença e insensibilidade, de distração, fechamento e solidão, alimentados pela «mesquinhez dos nossos cálculos, a mediocridade das nossas expetativas e a superficialidade dos nossos intelectualismos». E ao mesmo tempo famintos estamos de uma vida que procuramos e não encontramos, a não ser em Deus; do seu pão não queremos fazer reserva nem engordar, apenas dele saciar-nos e distribui-lo aos mendigos de compaixão e fraternidade.

O papa acentuou hoje, em Skopje, capital da Macedónia do Norte, o vínculo entre a fome de Deus e a fome de fraternidade, saciadas pela Eucaristia, e sublinhou que não são necessários meios grandiosos para estar próximo e satisfazer as necessidades dos mais pobres dos pobres, podendo até serem obstáculo para a missão da Igreja; em ambos os casos, a figura de Madre Teresa de Calcutá, nascida nos arredores da cidade, serviu a Francisco de exemplo eloquente.

«Digamo-lo com força e sem medo: temos fome, Senhor... Temos fome, Senhor, do pão da vossa Palavra capaz de abrir os nossos fechamentos e as nossas solidões; temos fome, Senhor, de fraternidade, onde a indiferença, o descrédito, a infâmia não encham as nossas mesas nem ocupem o primeiro lugar em nossa casa. Temos fome, Senhor, de encontros onde a vossa Palavra seja capaz de elevar a esperança, despertar a ternura, sensibilizar o coração abrindo caminhos de transformação e conversão», declarou.



«Amor que recebemos, amor que damos. Dois pilares inseparáveis, que marcaram o seu caminho, colocaram-na em movimento, desejosa também ela de mitigar a sua fome e a sua sede»



Na missa a que presidiu, Francisco evocou o milagre da multiplicação dos pães, recordado na proclamação do Evangelho, para falar da fome que o ser humano tem de experimentar a multiplicação da misericórdia de Deus, «capaz de quebrar os estereótipos e de repartir e partilhar a compaixão do Pai por cada pessoa, especialmente por aqueles de quem ninguém cuida, que são esquecidos ou desprezados».

Em cada Eucaristia, «Deus fraciona-se e distribui», gesto que os cristãos são chamados a continuar no tempo, como a santa de Calcutá, nascida nos subúrbios de Skopje: «Ele convida-nos, a nós também, a fracionarmo-nos e distribuirmo-nos juntamente com Ele e participarmos naquele milagre de multiplicação que quer alcançar e tocar todos os cantos desta cidade, deste país, desta terra com um pouco de ternura e compaixão».

«Fome de pão, fome de fraternidade, fome de Deus. Como conhecia bem tudo isto Madre Teresa, que quis fundar a sua vida sobre dois pilares: Jesus encarnado na Eucaristia e Jesus encarnado nos pobres! Amor que recebemos, amor que damos. Dois pilares inseparáveis, que marcaram o seu caminho, colocaram-na em movimento, desejosa também ela de mitigar a sua fome e a sua sede», apontou o papa.

Mais tarde, ao ouvir de padres e religiosos o desalento por serem poucos, à semelhança dos recursos à sua disposição, diante das necessidades pastorais e sociais da população, Francisco voltou a evocar a fundadora das Missionárias da Caridade, que da escassez multiplicou pão de solidariedade.



«Como são justas estas palavras de Madre Teresa, “aquilo de que não preciso, pesa-me”. Deixemos de lado todos os pesos que nos separam da missão e impedem que o perfume da misericórdia alcance o rosto dos nossos irmãos»



«Não quero abusar da imagem de Madre Teresa, mas esta terra soube dar ao mundo e à Igreja, precisamente nela, um sinal concreto de como a precariedade duma pessoa, ungida pelo Senhor, tenha sido capaz de impregnar tudo, quando o perfume das Bem-aventuranças se espalha sobre os pés cansados da nossa humanidade. Quantos foram tranquilizados pela ternura do seu olhar, confortados pelas suas carícias, levantados pela sua esperança e alimentados pela coragem da sua fé, capaz de fazer sentir aos mais abandonados que não estavam abandonados por Deus! A história é escrita por estas pessoas que não têm medo de gastar a sua vida por amor».

«Com frequência, cultivamos fantasia sem limites pensando que as coisas seriam diferentes, se fôssemos fortes, poderosos e influentes. Mas o segredo da nossa força, poder e influência, e até da juventude, não estará porventura noutra parte que não no facto de “quadrarem as contas”?», questionou.

A Igreja gasta por vezes energias e recursos «para manter abordagens, ritmos, perspetivas que não só não entusiasmam ninguém, como não conseguem sequer levar um pouco daquela fragância evangélica capaz de confortar e abrir caminhos de esperança», além de privarem os cristãos «do encontro pessoal com os outros».

«Como são justas estas palavras de Madre Teresa, “aquilo de que não preciso, pesa-me”. Deixemos de lado todos os pesos que nos separam da missão e impedem que o perfume da misericórdia alcance o rosto dos nossos irmãos», apelou Francisco.

O papa regressa esta noite ao Vaticano, dando por concluída a sua 29.ª visita internacional, que o conduziu à Bulgária e à Macedónia do Norte.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Imagem: DROBOT VIKTORIIA/Bigstock.com
Publicado em 07.05.2019

 

 
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