

A doação de órgãos corresponde a uma necessidade social porque, apesar do desenvolvimento de muitas curas médicas, a necessidade de órgãos continua a ser grande. No entanto, o significado da doação para o doador, para o recetor, para a sociedade, não se esgota na sua “utilidade”, tratando-se de experiências profundamente humanas e repletas de amor e de altruísmo.
A doação significa olhar e ir além de si mesmo, além das necessidades individuais, e abrir-se com generosidade para um bem mais amplo. Nesta perspetiva, a doação de órgãos coloca-se não só como ato de responsabilidade social, mas sobretudo como expressão da fraternidade universal que liga entre ela todos os homens e mulheres.
A este propósito, o Catecismo da Igreja Católica ensina que «a doação de órgãos após a morte é um ato nobre e meritório, e é de encorajar como manifestação de generosa solidariedade».
Em virtude da intrínseca dimensão relacional do ser humano, cada um de nós realiza-se a si mesmo também através da participação na realização do bem dos outros. Cada sujeito representa um bem não só para si, mas para toda a sociedade; daqui o significado do empenho para se conseguir o bem do próximo.
Na carta encíclica “Evangelium vitae”, S. João Paulo II recordou-nos que, entre os gestos que contribuem para alimentar uma autêntica cultura da vida «merece particular estima a doação de órgãos realizada de formas eticamente aceitáveis – sublinhe-se isto –, para oferecer uma possibilidade de saúde e até de vida a doentes por vezes privados de esperança».
Por isso, é importante manter a doação dos órgãos como ato gratuito não retribuído. Com efeito, toda a forma de mercantilização do corpo ou de uma parte dele é contrária à dignidade humana. No doar o sangue ou um órgão do corpo é necessário respeitar a perspetiva ética e religiosa.
Para quantos não têm uma fé religiosa, o gesto para com os irmãos necessitados pede para ser realizado na base de um ideal de desinteressada solidariedade humana. Os crentes são chamados a vivê-lo como uma oferta ao Senhor, que se identificou com quantos sofrem por causa da doença, de acidentes rodoviários ou de infortúnios no trabalho.
É belo, para os discípulos de Jesus, oferecer os seus órgãos, nos termos permitidos pela lei e pela moral, porque se trata de um dom feito ao Senhor sofredor, o qual disse que cada coisa que tivermos feito a um irmão necessidade, e Ele o fizemos.
É importante, por isso, promover uma cultura da doação que, através da informação e sensibilização (…) favoreça esta oferta de uma parte do próprio corpo, sem risco ou consequências desproporcionadas, na doação do vivente, e de todos os órgãos após a morte.
Da nossa própria morte e do nosso dom podem brotar vida e saúde dos outros, doentes e sofredores, contribuindo para reforçar uma cultura da ajuda, do dom, da esperança e da vida.
Perante as ameaças contra a vida, a que temos, infelizmente, de assistir quase diariamente, como no caso do abordo e da eutanásia – só para mencionar o início e o fim da vida –, a sociedade precisa destes gestos concretos de solidariedade e de amor generoso, para fazer compreender que a vida é uma coisa sagrada. (…)
Gosto de recordar as palavras de Jesus: «Dai e ser-vos-á dado: uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante – aqui o Senhor não poupa nos adjetivos – será lançada no vosso regaço». Receberemos a nossa recompensa de Deus de acordo com o amor sincero e concreto que tivermos mostrado para com o nosso próximo.