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Dom José Tolentino Mendonça: Louvor e congratulação jubilosa

A escolha de Dom José Tolentino Mendonça para a dignidade e a responsabilidade cardinalícias é motivo de júbilo para todos os homens de boa fé e de boa vontade. É razão de orgulho, de estímulo e de exigência espirituais para todos os cristãos. Ganha relevante significado cívico para todos os seus compatriotas. É fonte de congratulação e de incentivante respeito para todos os criadores e interlocutores de Cultura.

Quantos partilham a vida da Pastoral da Cultura e, em particular, os que trabalham no Secretariado Nacional que por ela responde no âmbito da Conferência Episcopal Portuguesa, sentem-se movidos a todas essas formas de receção da boa nova, que vem fortalecer a relação que cedo reconheceram e sempre continuaram a cultivar com a figura inspiradora do seu antigo Diretor e com a exemplaridade da sua poética da Espiritualidade.

Com efeito, queremos que a nossa congratulação com a nomeação papal de Dom José Tolentino Mendonça para Cardeal corresponda ao valor projetivo da maneira como, durante anos decisivos da sua existência ao serviço da Igreja e da cultura em Portugal, o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura (SNPC) foi orientado e movido por José Tolentino Mendonça, que o conduziu com a força tranquila do exercício cristão dos seus talentos de inteligência e sensibilidade.

O rosto e a travessia do SNPC refletiram, pois, o perfil e a atitude de um Diretor não preocupado em ter presença espetacular ou intervenção ostensiva no terreno (ciente, aliás, de que «nenhum nome/ serve jamais para dizer/ o fogo»), mas empenhado na eficiência discreta e no gesto instigante de uma autêntica poética da Espiritualidade.



Esse é um caminho de imaginação estética e de coragem moral, «salva-vidas para tempos difíceis», que atravessa a «vida pobre» ou as «matas ao abandono» e regressa à solidão «pelos céus movediços», mas assumindo que as mãos, aparentemente vazias, «preferem enlouquecer a acreditar / que a realidade é só aquilo que se vê»



Graças a Tolentino Mendonça, o SNPC foi durante anos ajudando a descobrir o sentido nos «intervalos do silêncio», que os atos e as palavras guardam. No confronto com «o assombro e a tensão inerentes à vida» foi apontando ou abrindo caminhos de "via spiritus" e "via pulchritudinis" para o valor divino do humano.

Com a contenção que impera na sua obra lírica, com a densidade de sugestões reflexivas que dela ressalta para as suas crónicas e para as suas homilias, a sua condução do SNPC ensinou a ver o implícito e a ler o flagrante segundo uma gramática do assentimento, na «partilha/ do furtivo/ lume». 

Aos nossos olhos, entre os outros trechos do trajeto sacerdotal de Tolentino Mendonça na atualização apostólica dos seus dotes humanos e das suas virtudes cristãs, a decisão de Sua Santidade o Papa Francisco também contempla esses magníficos anos de doação à compreensão estética e à promoção axiológica da Cultura e à evangelização da sociedade por essa Cultura celebrada e vivida ao cimo de um monte que é Parnaso e Carmelo, que é Gólgota e Tabor.

Se cremos, porém, que em tal decisão contou essa fase, pensamos que ela corresponde a uma face da personalidade de Dom Tolentino Mendonça, da harmonia poliédrica da sua criatividade e da prismática eficiência da sua generosidade; e essa face sonda os seus próprios traços, reconhece os seus imperativos, desvela o horizonte dos seus desígnios e exprime a indeterminação parcial do seu sentido in fieri através de uma obra lírica gerada no desejo de dar a ver não só o flagrante e o implícito, mas também, neles e no silêncio como «avesso», «o assombro e a tensão inerentes à vida».



Contra a violência da velocidade na “sociedade do cansaço”, a poesia de Tolentino Mendonça preludia a exigência atual de singularização anómala em espaços desclassificados, de ética do rosto, do olhar e do cuidado



Na viragem do século e nos alvores do novo milénio, entre memórias da Modernidade tardia, oscilações da Pós-Modernidade e tropismos da Globalização com pretensões de Hiper-Contemporâneo, o próximo Cardeal José Tolentino Mendonça guinda-se ao cimo da falange dos Novíssimos, desde Longe não sabia (1997) e A que distância deixaste o coração (1998), com sua sageza de entrelinhas legível à luz de Zambrano e Levinas (ou levando-nos a melhor entender Levinas e Zambrano), respeitando a proscrição mallarmeana da "reportagem” na travessia da paisagem moral em regime De igual para igual (2001), mas empenhada na relação viandante, em corpo e alma, com o mundo e na grata descoberta, por Baldios (1999) ou por Estrada branca (2005), de motivos de beleza, porventura de acesso irrisório ou agreste, mas não menos com postulante significação: «Um amarelo envolto em espinhos: / a porta entreaberta / da aurora».

Tal poeta exerce então o princípio de valorização do acontecimento mínimo numa arte compositiva que privilegia o fragmento narrativo e o subsequente processo associativo, às vezes por via da memória pessoal e/ou literária, em que o irrelevante do quotidiano ganha serventia e valor para o poeta conhecer(-se). Emerge analogamente, a tendência para metamorfosear, mas assim mesmo contemplar, um desejo de elevação em experiência de intensidade(s), que pode relacionar-se com uma inassumida revisitação do sublime enquanto excesso de sentido que resiste à veridição e à apresentação comum.

Esse é um caminho de imaginação estética e de coragem moral, «salva-vidas para tempos difíceis», que atravessa a «vida pobre» ou as «matas ao abandono» e regressa à solidão «pelos céus movediços», mas assumindo que as mãos, aparentemente vazias, «preferem enlouquecer a acreditar / que a realidade é só aquilo que se vê» - como cifra Tolentino Mendonça na magnífica Teoria da Fronteira (2018): «rogamos à vida que responda / mas a vida só se expressa na agulha dos fogos / em línguas desconhecidas / no soprar longínquo».

Contra a violência da velocidade na “sociedade do cansaço”, a poesia de Tolentino Mendonça preludia a exigência atual de singularização anómala em espaços desclassificados, de ética do rosto, do olhar e do cuidado. Idêntica representatividade epocal ganham versos de O Viajante Sem Sono (2009): «O poema pode conter: /…/ correntes marítimas em vez de correntes literárias.» Compromisso testemunhal? Estética da responsabilidade? Porventura assim é, como variante tolentiniana do reconhecimento de Ungaretti em que tantos se reviram e revêem: «Poeti, poeti - / ci siamo messi tutte le maschere. / Ma uno non è / che la própria persona».

Por tudo isto, enaltecemos Dom José Tolentino Mendonça, exultamos perante a sua nova posição de serviço na dinâmica universal da Igreja e louvamos a Deus por Sua amorosa solicitude!  


 

José Carlos Seabra Pereira
Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
Imagem: D.R.
Publicado em 04.09.2019

 

 
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