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Ecologia e falsidade

A primeira falsidade acerca da ecologia é tratar-se esta de uma «questão natural». Ora, na natureza, não há quaisquer questões, pois apenas em seio de cultura podem estas surgir. A questão ecológica é cultural, humana, portanto.

Não havia mais do que estrita obediência física aos princípios naturais de movimento, incluindo as várias formas de potencialidade e de cinese, quando, antes de haver seres humanos, por exemplo, um vulcão emitia alguns milhares ou milhões de toneladas de dióxido de carbono para a atmosfera. Aliás, a atmosfera nasceu precisamente da emissão de gases por parte de vulcões e outros entes naturais naturalmente emissores de gases, sem que tal constituísse questão alguma.

Em tais emissores se incluem as naturalíssimas estrumeiras animais, turfeiras e outras demais fontes por estas tipificadas. Antes de haver humanidade, com tudo isto e muito mais presente em termos ecossistémicos, não havia questão ecológica alguma. Havia o movimento natural de tudo, com as consequências necessárias. Nada se preocupava, pois nada se podia preocupar, dado que nenhum ser havia que se pudesse preocupar. A natureza é laica, não tem deuses.

É com o surgimento da humanidade – que é operativamente indistinguível da ação humana que propriamente a constitui – que surge uma modificação radical no ecossistema: a possibilidade de haver entidades que podem não obedecer deliberadamente aos comuns anteriores princípios físicos omnipresentes e omnireinantes.

É também com este surgimento que ocorre a presença de entidades com capacidade para se questionarem, entre outras coisas, sobre a sua ação sobre o ambiente.



Quanto à escassez de recursos, antes de a decretar, há que pensar se na América do Norte e na Europa, entre outras regiões ditas desenvolvidas, não consome em recursos totais cada ser humano o equivalente a várias vezes aquilo de que realmente necessita, por exemplo, em termos de comida



É também falso que a consciência ambiental seja algo de recente, especialmente remontando apenas à década de sessenta do século passado. É antiquíssimo o sentido – não se lhe pode chamar «consciência» porque o termo não existia, o que não impede que isso a que se refere como sentido existisse, sem ilusão retrospetiva – da gravidade, do peso próprio irredutível da relação entre o ser humano em sua ação e isso que fisicamente o transcende, chame-se-lhe ecossistema, ambiente, mundo.

Como não ver já no mito da expulsão do casal genesíaco um primeiro momento em que a ação humana sobre o mundo é trazida em sua grave consequência à cultural colação? Como não ver nos mitos de degradação antropológica e ecossistémica a partir de «idades de ouro» a tradução variegada de uma mesma preocupação? Como não ver nos vários tipos – alguns propostos já em âmbito filosófico – de recosmicização de mundos caotizados pela ação humana, mundos tornados imundos pela poluição operada pelas várias culturas destrutivas, formas também elas de preocupação fortíssima com o sentido e finalidade possível de uma realidade de relação entre humanidade e meio-ambiente em que a primeira ameaçava o segundo?

Como não ver em teorias éticas e políticas várias dedicadas à promoção do bem-comum uma busca de respostas teóricas universalizáveis em termos práticos e pragmáticos como modos de combater as várias formas de imundície cultural antinatural?

Velha mentira é também a que proclama que há seres humanos em demasia – sempre os outros, nunca nós e os nossos. Mesmo com a quantidade de seres humanos que se pensa haver hodiernamente, perto de oito mil milhões (8.000.000.000), há que perceber que fisicamente, em posição de pé e com uma densidade típica de carruagem de metropolitano em hora de ponta, a oito por metro quadrado, todos cabem na superfície dos Açores. São, assim tantos?



Faz-se sequer ideia da quantidade que é possível plantar, com mais ou menos custos, mas, sem dúvida, gastando muito menos do que se gasta em material militar inútil?



Quanto à escassez de recursos, antes de a decretar, há que pensar se na América do Norte e na Europa, entre outras regiões ditas desenvolvidas, não consome em recursos totais cada ser humano o equivalente a várias vezes aquilo de que realmente necessita, por exemplo, em termos de comida. Quem come um bife de mil gramas está a comer proteína por dez pessoas, o que faz, imediatamente que, para ele e seu egoísmo, o mundo tem apenas oitocentos milhões de seres humanos tão gulosos quanto ele. Todavia, de facto, não tem oitocentos milhões de apenas gulosos, mas oito mil milhões, entre gulosos, equilibrados e muitos com fome, fome de comida que, afinal, sempre existe.

Falsidade final: que se esteja efetivamente a fazer – a agir – muito no sentido de atenuar e inverter impactos negativos em termos de poluição, por exemplo, a de excesso de carbono em várias formas moleculares na atmosfera. Um passo objetivamente muito mais eficaz do que fabricar através de forte poluição industrial automóveis elétricos é obrigar e ajudar a mudança de máquinas que gastam na ordem dos dez litros por cada cem quilómetros para máquinas que gastem metade. A quebra de emissões é evidente e a tecnologia e técnica estão prontas e disponíveis. O resultado é muito mais rápido e eficaz.

Por outro lado, é grande a mentira – falsidade que é propositada – quando se procura convencer as pessoas de que se está a investir grandemente no plantio de árvores. Quantas árvores estão a ser plantadas no mundo não apenas em substituição de outras em searas de árvores – uma floresta é outra coisa – mas em novas searas de árvores, estas dedicadas à fixação do carbono?

Faz-se sequer ideia da quantidade que é possível plantar, com mais ou menos custos, mas, sem dúvida, gastando muito menos do que se gasta em material militar inútil?

O recurso a uma aritmética muito simples pode ajudar a compreender o que está em causa em termos da grandeza do possível e da grandeza do realizado. Se se plantar – nalguns casos, pode mesmo semear-se – uma árvore de dois em dois metros, em grelha, obtém-se por cada quilómetro quadrado um número impressionante de árvores: 500 x 500 árvores = 250 000 árvores. Ora, uma superfície um pouco maior do que a de Portugal, com cem mil quilómetros quadrados, permite plantar o seguinte número de árvores: 250.000 x 100.000 = 25.000.000.000. Vinte e cinco mil milhões. Três árvores por cada habitante da Terra.

Pense-se no que significa toda a área dos vários desertos quentes transformados em searas de árvores deste tipo. Dirão os sábios que se trata de uma ignara utopia. Todavia, ignaro é pensar-se que não é possível criar laranjas no quente deserto. É difícil e trabalhoso, mas é possível. É labor de paz. Sem mentir.


 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Imagem: MicroOne/Bigstock.com
Publicado em 06.12.2019

 

 
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