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Eduardo Lourenço: O fascínio irónico da Verdade

Desde há mais de meio século, Eduardo Lourenço tem situado os seus desígnios e as suas realizações à altura desta determinação, declarada no «Segundo Prólogo sobre o Espírito de Heterodoxia»: «Por temperamento e por formação espiritual, a única motivação radical das recusas ou aceitações é para nós metafísica, se se entende por isso aquela que não tem em conta espécie alguma de considerações, salvo as que procedem da vivência mesma da Verdade como ideia. E esta por sua vez é de tal sorte que finalmente é como decisão de ordem "religiosa" e mesmo "mística" (...) que melhor se compreenderá».

Cedo dominado pela convicção de que no «plano do conhecer ou no plano do agir, na filosofia ou na política, o homem é uma realidade dividida», desde logo Eduardo Lourenço se impôs o respeito por essa condição, que seria também obediência à «obrigação de suportar a liberdade humana». O aprofundamento posterior da consciência dividida no Homem moderno só veio corroborar tais postulados e reforçar as suas consequências gnoseológicas, discursivas e existenciais. Daí a identificação com essa orientação de busca intelectual e de presença cívica que é o espírito de heterodoxia.

Apostado, desde o início, através da liminar reapropriação do mito de Migdar, em prevenir e desautorizar quaisquer reduções reativas da heterodoxia, Eduardo Lourenço pôde até hoje guardar uma fidelidade exemplar a esse desígnio fundacional de tomar «a verdade e o amor a ela, apenas como direção do seu agir e nunca como realidade possuída, tentando esclarecer a opacidade do mundo e compreender a diversidade dos homens», na pluralidade das motivações e perspetivas, na peregrinação de acertos e desacertos, de encontros e desencontros. E, maravilhosamente, na desenvolução desse projeto entre todos atraído pelo incerto, vem criando uma obra que é, a um tempo, processo em aberto e articulação congruente de certas paixões problemáticas e de inesgotáveis iluminações — obra que se vai constituindo como espécie de borderland pensante e imaginante, território de interrogação e compreensão que na fronteira se gera e afirma.

Surgido e continuamente assumido contra as ilusões da racionalidade englobante, contra as pretensões dos sistemas totalizantes, contra as tentações de discursos apodíticos ou dogmáticos sobre a vida e a cultura, o autêntico espírito de heterodoxia não releva do puro gosto da diferença nem do paradoxo, mas do sentido da complexidade das coisas e realiza-se em Eduardo Lourenço com séria dramaticidade, em termos que, de certo modo partilhados por Vergílio Ferreira, poderíamos considerar de jubilosa vivência de um sentimento grave da vida. Forma de modernidade, sem dúvida, também por isso mesmo surge impregnada daquela ironia que é bem a marca de fábrica da modernidade, como Eduardo Lourenço um dia dissera a propósito de Erasmus. Essa ironia joga a consciência contra a inocência (e a relapsa nostalgia dela), sujeita a consciência à invasiva suspeita, assume-a como consciência dividida e infeliz; mas dá-lhe o crédito de, a partir do direito de duvidar, protagonizar com humor figurativo e verbal um regime de pensamento e de imaginário escrito que, segundo a súmula feliz de Silvina Rodrigues Lopes, na oposição busca a passagem.

Reconhecendo que «vivemos na contradição e é a contradição que nos faz viver» («Um heterodoxo confessa-se», 1996), sem a recobrir com a panaceia da funcionalidade omnívora do sistema dialético, a heterodoxia vale-se de um vento utópico para a singradura nesse mar de correntes incontroladas. Navegação difícil, a desta nobre heterodoxia, que sabe não comportar, apesar de tudo, «renúncia à Verdade» («Prólogo sobre o Espírito de Heterodoxia»), antes exige a sua intérmina demanda e a sua aproximação sabida como assimptótica. Só assim Eduardo Lourenço se tornou arauto, paladino e mestre de um novo paradigma sócio-cultural de íntima liberdade pensante e imaginante, cuja implantação entre nós julgou poder saudar nas derradeiras décadas do século XX — decerto com compensadora alegria para ele mesmo, que sempre a propôs, defendeu e exerceu num horizonte de compreensão e de intervenção dialógica (europeu e português).

Sendo «capital a forma sob a qual tudo se manifesta», como periodicamente nos lembra Eduardo Lourenço em astutos incisos, daí decorre que a heterodoxia havia de adotar a forma do ensaio. O pensador e escritor heterodoxo reivindica, em diálogo de 1987, o vago estatuto de ensaísta «se se considera a forma»; e, no extraordinário texto «Escrita e Morte» que no mesmo ano nos oferece no limiar da edição conjunta de Heterodoxia I e II, haveria de reiterar o entendimento e a prática do ensaio como «a forma escrita do discurso virtual de uma existência que renunciou às certezas, mas não à exigência de claridade que nelas, em permanência, se configura» Por seu turno, como sintetizou e depois evidenciou Maria Manuel Baptista, a adoção da forma do ensaio faz com que nela se vão codeterminando o objeto visado, o sujeito que aí se institui, o género de verdade que se procura e a reflexão crítico-poética e trágica que se realiza.

Correlato de uma linhagem intelectual e de uma família espiritual, de uma rede de afinidades inspiradoras e de demarcações esclarecedoras — que nesta circunstância me dispenso de recapitular —, o ensaio corresponde em Eduardo Lourenço à inferência de que, «quando se adquire o sentimento de que a globalização da nossa experiência é ela mesma suspeita, ou aparece como impossível, não se podendo totalizar o nosso discurso em termos de verdade, imediatamente a manifestação escrita dessa experiência é a fragmentação». Mas, tão próprios como são da consciência infeliz que é a consciência moderna, os estigmas dessa fragmentação no corpo do ensaio lourenciano são os estigmas da sagração para o sacrifício e o resgate do saber criativo e libertador.

A fragmentada experimentação do possível nas aproximações sucessivas ao horizonte inalcançável da Verdade processa-se por movimentos de reiteração, de distanciamento e retorno, enfim de rearticulação em rosácea (se posso aplicar-lhe a chave de leitura estruturante que Robert Bréchon propôs para a narrativa também problemática e lírica de Vergílio Ferreira). Aliás, justificando-se sumamente pelo carácter não demonstrativo nem conclusivo de um ensaísmo que não incide sobre objetos (naturais ou factuais) mas sobre representações, essa forma corresponde, em profundidade, à «reiteração voluntária e quanto possível consciente desse mesmo movimento de regresso criador através do qual os homens transfiguram o tempo».

Num autor dotado de excecionais faculdades de inteligência e de intuição, de generosa lucidez e de sedução discursiva, cultivado num inesgotável universo de referências e de interlocuções culturais, o ensaio culmina em prática artística que, como logo viu a argúcia de Vitorino Nemésio perante as primícias do jovem filósofo coimbrão, é um estilo de pensamento — o único que podia assumir esse «movimento de conceitos que cria o seu próprio campo operatório» e em que, desde José Gil a Maria Manuela Cruzeiro, com justeza se tem enaltecido a «extrema mobilidade, a dinâmica quase labiríntica com que joga com princípios simultaneamente tão simples e de uma infinita complexidade».

Desde sempre oposto à indiferença noética e à irresponsabilidade ética coonestadas por doutrinas relativistas, avesso a aportar no niilismo — seja no «niilismo espiritual» para que remeteria uma conceção redutora do reflexo da Heterodoxia em relação ao Catolicismo e ao Marxismo, seja nas tentações niilistas da modernidade filosófica, desde a revolta desesperada de Camus à «descida ao inferno do tédio e do sem sentido» em Cioran, ou seja no niilismo cultural da pós-modernidade que deserta a «arena do sentido» (A Europa Desencantada) —, Eduardo Lourenço procura salvar aquele módico de confiança na razão e de fidelidade à moral que sustente a fé na liberdade humana e no seu potencial de busca do Sentido.

Suspeitando-se como busca impossível, essa atitude não é menos, por isso, imperativo kantiano de que não se pode abdicar sem que o Homem perca a sua condição pensante. Essa busca imperativa do Sentido cumpre-se sem garantia de cabal compensação — antes numa faceta gnoseológica da experiência trágica (pois «quanto mais aumenta a exigência da inteligibilidade, tanto mais aumenta o sentimento da opacidade). Resta configurar a exigência de verdade numa interrogação ilimitada, num renovado quadro de referências e de valores, oposto às tentações de sub-rogação de Deus ou do Absoluto nos sistemas totalizantes (idealismo hegeliano, materialismo dialético, "dispositivo" sem sujeito de Foucault ou do Estruturalismo...). Daí que, para além dos vetores fenomenológicos e hermenêuticos que informam a sua filosofia da Cultura (e da sua análise, a um tempo mítica e situada, da cultura europeia e da cultura portuguesa), prevaleça em Eduardo Lourenço uma metafísica da interrogação; e esta, assim corroborando também a primazia dos místicos e dos poetas, realiza-se num regime acentuado desde o abalo perante o estatuto do indivíduo e a autoconsciência dos nossos limites implicados na conceção existencial de Kierkegaard. Por consequência, o ensaísmo de Eduardo Lourenço cumpre-se como meta-problemática, uma vez que o próprio questionante está perpetuamente envolvido pela própria questão.

Indefetível da inquietação metafísica, inconformado com os grandes silêncios culturais «onde ninguém nos interroga e onde nós não interrogamos ninguém», tanto quanto com os simulacros professorais de interrogação em que o Sujeito não se põe em causa, Eduardo Lourenço recoloca esse Sujeito numa dinâmica de fragmentação ôntica, de perspetivismo cognitivo e de ironia discursiva que, se não supera a sua crise, reconverte a sua nostalgia de Transcendência.


 

José Carlos Seabra Pereira
Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
Imagem: Eduardo Lourenço | D.R.
Publicado em 06.04.2020 | Atualizado em 08.04.2020

 

 
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