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Eduardo Lourenço: O viático da mitografia e da poética

Leitores qualificados de Eduardo Lourenço têm captado e evidenciado as características literárias da sua arte ensaística. Está, pois, bem vingada a frustração que Eduardo Lourenço diz ter sentido ao desistir de escrever poemas e romances.

Por um lado, o seu ensaio, em geral e não apenas quando se dirige a uma prática de crítica de arte ou de literatura, pode reivindicar (como faz em Tempo e Poesia) «o estatuto de uma função poética»; e, de facto, muitas vezes reveste o ritmo existencial do ato poético, em especial quando a hermenêutica se constitui em vibração empática com a criação de altos poetas.

Por outro lado, modo metafórico e simbólico de exercício cognitivo da imaginação, exímio em momentos de narrativização da imagem e de dramatização do discurso, impregnado da emotividade própria do assédio ao sentido, ancorado na ficcionalidade inerente às figuras do duplo e da ironia, do labirinto e do espelho, da Noite e da Luz, o ensaio de Eduardo Lourenço cativa-nos ainda por uma escrita que Maria Alzira Seixo apelidou de wagneriana (atendendo à articulação sintáctica progressiva nos seus continuados desdobramentos e na sua cadência de vibração incessantemente prolongada).
Esta é a forma de Eduardo Lourenço viver e morar na língua portuguesa — na língua pátria que, segundo ensina, é «matéria da nossa presença a nós mesmos» e onde «estão todas as aventuras espirituais concretas, corpo da nossa histórica realidade» (cf. Ocasionais I, 1984).

É nessa língua que se vem exprimindo a vivência apaixonada e lúcida de Portugal, mátria e «remorso de todos nós», problema e potencial de refontalização, território afetivo e destino coletivo que, constituído em contrapolo de conhecimento, vê Eduardo Lourenço colocado por circunstâncias históricas e opções pessoais numa relação homóloga à perspetiva epistemológica postulada pelo seu pensamento: também aqui o sujeito está fora e dentro do seu objeto simbólico, isto é, de Portugal e dos capitais de autognose nacional que se manifestam, se escondem, se desfiguram e se reconfiguram no imaginário da vida portuguesa.



Desmontando os erros de «nacionalismo cultural» e de «etnologismo cultural», identificou as razões da nossa melancolia e entregou-se ao que chamou sua obsessão permanente — «a da desarticulação, da des-estruturação das nossas mitologias culturais herdadas do século XIX, e a tentativa de uma re-estruturação do discurso cultural português no seu conjunto»



Eduardo Lourenço repensa o passado para intervir no presente, ou, como O Labirinto da Saudade louvou em A. Herculano, explora o tempo perdido de Portugal para se situar, como homem e cidadão, num presente incerto. Mas, do mesmo passo, está a aplicar a uma temática indissociável da sua própria historicidade e da sua própria subjetividade uma filosofia da cultura maturada entre a ontologia de Heiddeger e a poética de Pessoa; e está adotar uma estratégia fenomenológica que se interessa sobretudo por captar o modo como os dados da História, da Economia ou da Sociologia aparecem à consciência e como são reconfigurados pelo imaginário, assim se constituindo em fonte de sentido.

Comprovada, desde os escritos subsequentes à sua dissertação de licenciatura, a ímpar preparação filosófica, Eduardo Lourenço de imediato demonstra categoricamente (em ensaios como «O adolescentismo da moderna literatura portuguesa») a ímpar capacidade de, sem cedência aos historicismos nem aos sociologismos de obediência marxista ou outra, situar na dinâmica histórico-social os criadores artísticos e a literatura. Ao fazê-lo, Eduardo Lourenço desimpediu outro caminho. Afastando as hipóteses de vizinhanças equívocas através de textos em parte agora relançados como Destroços, isto é, aí desmontando os erros de «nacionalismo cultural» e de «etnologismo cultural», identificou as razões da nossa melancolia — «é de não nos vermos e de não merecermos ver-nos que nasce a melancolia cultural autêntica» — e entregou-se ao que chamou sua obsessão permanente — «a da desarticulação, da des-estruturação das nossas mitologias culturais herdadas do século XIX, e a tentativa de uma re-estruturação do discurso cultural português no seu conjunto»

Desde a denúncia do irrealismo (que nos advém da alternância entre os complexos de inferioridade e de superioridade, entre auto-representações como humilhados e ofendidos da História ou como seus eleitos) até à recolocação não-hipostasiante da Saudade por uma análise fenomenológica heideggeriana do tempo português, Eduardo Lourenço tem erguido toda uma inédita e imprescindível mitografia do ser nacional, que aí está a interpelar-nos desde O Labirinto da Saudade. Psicanálise Mítica do Destino Português até Portugal como Destino, seguido de Mitologia da Saudade e A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia.



A Poesia é o ato original do homem, única autêntica maneira de entrar em contacto com a sua realidade profunda e de entre-dizer o sentido último e primeiro da Transcendência sem determinação possível



Em paralelo ou em contraponto, desde o ensaio a vários títulos seminal «Europa ou o Diálogo que nos Falta» (1949), Eduardo Lourenço tem desenvolvido idêntico labor de hermenêutica participativa em relação ao nosso continente que, mau grado a erosão do entusiasmo eurocêntrico de matriz oitocentista ou husserliana, estima ainda como superior espaço de diálogo na Cultura enquanto expressão espiritual e enquanto campo de resistência ao tropismo pós-moderno de rendição à sensibilidade "americana” da existência mundializada. De Nós e a Europa ou as duas Razões até Europa Desencantada — Para uma Mitologia Europeia, actuam um idêntico cuidado de compreensão, uma idêntica solicitude pelo destino colectivo e um idêntico desejo utópico.

Nessa árdua e fascinante jornada tem-lhe sido inestimável viático e privilegiada via de acesso a literatura, mediadora entre a realidade nacional e os indivíduos, oferecendo nos seus textos, com a fruição estética, as imagens que de Portugal foram propondo ou sugerindo através de épocas, em especial aquelas imagens que ganharam alcance mítico.

Pese embora esta sua ordem de importância, tal condição é apenas uma das motivações que em Eduardo Lourenço agiram em favor da uma valorização operativa da literatura e da descoberta de uma origem colaça. Para além de a relação com a literatura ter vindo a interferir no próprio devir filosófico e ter vindo a revelar-se decisiva para a singularidade da sua filosofia da Cultura, Eduardo Lourenço para ela foi estimulado pela relevância que lhe atribuía a atitude metafísica do Existencialismo e sobretudo pelo abalo existencial e também metafísico decorrente do encontro com S. Kierkgaard e F. Pessoa.

Mas esse mesmo encontro decisivo conduz à desvelação de outra origem mais profunda do enamoramento pela literatura. Essa reside no reconhecimento da inviabilidade de investir o Absoluto na figura da filosofia, doravante sob suspeita, que abre brecha para o fascínio compensatório da literatura e, mais tarde, da arte em geral. Não por nestas ver a promessa da verdade recusada na filosofia ou de um qualquer seu sucedâneo, mas sim a propiciação estética de «qualquer coisa que se impõe precisamente porque», na grande literatura ou na grande arte, «a vida manifesta em termos de paradoxal esplendor (...) o carácter de ficção da nossa relação com a realidade».



A pintura, por vezes por aproximação e contraste com a música, é interpretada como «o mundo de todas as aparências», enquanto «manifestação concreta que pela sua constituição imagística transcende esse concreto para se absolutizar em elemento da busca existencial da aventura humana»



Parafraseando um dos poetas estudados por Eduardo Lourenço (o António Osório de Adão, Eva e o mais), doravante a literatura será a sua arca... Reconhecida a literatura como «tradução simbólica de um desajustamento dos homens às realidades que os cercam, em suma, uma espécie de magia activa — mais ou menos eficaz — para modificar a opacidade social e cultural que os limita», nela se tentará identificar, sem vã euforia, «a face lunar de uma aventura mais profunda, a si mesma oculta enquanto literatura» — «a provisória comparência do homem diante de si mesmo, como realidade sem nome» (O Canto do Signo – Existência e Literatura)

Numa assombrosa multiplicidade de ensaios e artigos, de prefácios e notas críticas, de conferências e comunicações, daí resultaram sucessivas obras-primas de reequacionamento de vetores diassincrónicos da literatura portuguesa, ou das condições de existência entre nós de estilos epocais (como o Romantismo e o Modernismo), ou da dinâmica de gerações paradigmáticas (como a Geração de 70 ou a da Presença), e sucessivas obras-primas de interpretação original dos seus autores mais relevantes — de Gil Vicente a Cesário e Eça, de Torga aos poetas neorrealistas, a Agustina, a Saramago e a tantos nossos contemporâneos, mas com especial empenho e fulgor perante a tríade poética de Camões, Antero e Pessoa.

Daí resultaram também dispersos ou concatenados confrontos com as grandes questões da Teoria da Literatura, preciosos contributos para uma antropologia literária (faceta ainda insuficientemente valorizada na sua obra, mas de que basta lembrar, num perturbador caderno d’O Tempo e o Modo, o tão informado quão fulgurante ensaio de 1968 sobre «A questão do casamento e o casamento em questão»), bem como para uma ontologia das artes, da literatura e, em particular, da Poesia, sobretudo nos livros O Espelho Imaginário, Tempo e Poesia, Poesia e Metafísica ou O Canto do Signo — Existência e Literatura.



A sua leitura do fenómeno literário e do ato poético, à luz «inquieta e mortal que só a obra irradia» (diz em "O Canto do Signo"), faz-se também imaginário escrito e assim dá a réplica incessante que lhe querem remir «a dor que sem razão deplora»!...



A literatura, por seu turno, é entendida como «imaginário escrito», pressupondo Eduardo Lourenço que «o espaço onde o texto literário nasce como texto (...) não é propriamente linguístico mas imaginário», com todas as consequências inerentes no domínio da leitura e da crítica. Também por isso, a compreensão do advento da era da suspeita, correlata da descrença da literatura nas suas possibilidades de nomear e recriar o mundo, não equivale em Eduardo Lourenço à extrapolação abusiva das prerrogativas da Negatividade, nem à aceitação pacífica de que da literatura se evacue «aquilo que sempre lhe conferiu sentido e que é algo de não puramente linguístico: o mundo.».

Quanto à Poesia, ela é o ato original do homem, única autêntica maneira de entrar em contacto com a sua realidade profunda e de entre-dizer o sentido último e primeiro da Transcendência sem determinação possível. Em certas emergências da Poesia como a que Orpheu propicia, ela afigura-se promissora ontogénese; mas, no fundo, permanece sempre esfinge, mantendo inexpugnável o seu mistério («nós como Tempo»); e se «por detrás do poema não há nada», a obra da Poesia prima afinal «pela densidade de silêncio que nos impõe». Embora: «só a palavra poética é libertação do mundo», reafirma em Tempo e Poesia o pensador construtivo!

Assim, se em nenhum lado como na criação artística, sobretudo na literatura e na Poesia, Eduardo Lourenço tem encontrado modo mais encantatório de perseguir o Sentido que se entremostra e se esquiva (qual, de novo, a «Perdida voz que de entre as mais se exila» no rondó de Pessanha), a sua leitura do fenómeno literário e do ato poético, à luz «inquieta e mortal que só a obra irradia» (diz em O Canto do Signo), faz-se também imaginário escrito e assim dá a réplica incessante que lhe querem remir «a dor que sem razão deplora»!...


 

José Carlos Seabra Pereira
Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
Imagem: Eduardo Lourenço | D.R.
Publicado em 08.04.2020

 

 
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