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Rumo ao amor, dia 10: Em memória de…

>Com que palavas acompanhar a morte? Tentei recordar aquelas que encontrei, há pouco tempo, para saudar uma jovem de 23 anos.

Estes são os dias em que queria nunca ter nascido, ou aqueles em que queria que o sol nunca se pusesse.

Muitos, diante da morte, vivem ou grandes desesperações ou grandes certezas. Não suporto nesses momentos os juízos ou os remorsos e os sentimentos de culpa, porque não te fazem ver bem as coisas.

Não tenho certezas, quero viver a morte com aqueles pequenos sinais aparentemente insignificantes de ressurreição que tu, na tua breve vida, nos ofereceste, como esse rosto com um aceno sorridente que vi no féretro, e que parecia ter vencido o medo e a morte… Sim, Deus criou o homem maravilhoso, e tu eras maravilhosa, como te escreveu o teu namorado ao velar-te esta noite. Sim, Deus criou-nos maravilhosos, mas cometeu um erro, não nos deu o livro de instruções, temos nós de o escrever nós mesmos, vivendo.

Há algum tempo, durante o curso em Romena, falavas de uma tua necessidade de paz, da tua irrequietude. É verdade, foste assim, mas quem hoje dos jovens da tua idade não o é… Quantas vezes julgamos sem compreender, quantas vezes o caminho inexplicável de um homem nos aflige, vendo-o desviar-se daquele que pensamos ser o caminho certo. Não olhes para a aparência, olha antes o seu coração, e verás que, no seu errar, busca um porto que acolha e aplaque a sua solidão e o seu desejo de felicidade.

Sim , procuravas paz em ti, e muitas vezes o fardo mais pesado que tinhas de arrastar eras tu própria. Por vezes não sabias aceitar-te, e deleitavas-te nas fantasias de um viver diferente. E precisamente agora partes, agora que estavas a começar a beber da fonte daquela paz que procuravas. Começavam a dar-te prazer as pequenas coisas sem delas teres de fugir, pressentias o desejo de casar-te, o desejo de um filho… precisamente agora que te tinhas tornado mulher… porquê?

Estava a ler um livro de Isabel Allende, a marca sobre a última frase que tinha lido diz: «A narração de uma existência exige tempo e paixão».

O tempo foi-te tirado, mas eu vi nestes dois dias uma grande paixão, graças à qual podes continuar a narração da tua existência.

A paixão da tua mãe, que abraçou cada rapaz que vinha à tua cabeceira como um filho seu.

A paixão do teu pai, com a fronte sobre a viga daquela lareira, sinal do desejo de uma família serena e forte.

A paixão do teu irmão, que na viagem que nos conduzia a casa sonhando-te viva, alternava os silêncios com os porquês que retomavam uma vida contigo.

A paixão do teu companheiro, que deu sempre a alma por esta história, que continuava a colocar junto a ti, no teu féretro, todos os pequenos e significativos sinais do vosso amor.

Dizer-te que com a tua morte contribuíste para a salvação do mundo parecia-me uma consolação estúpida. Dizer uma frase como: «Os olhos veem bem só através das lágrimas», parecia-me uma ideia estéril de sabedoria humana. Dizer que cada um traz consigo o seu peso de dor, e que não estás sozinha na dor, dá-me ainda mais raiva.

Só sei uma coisa. Jesus, diante de uma mulher a quem morreu o filho, na morte do amigo Lázaro ou a um homem, Jairo, cuja jovem filha morreu, faz uma única coisa. Chora.

Também eu não sei fazer muito mais, a não ser acender uma vela no escuro, para que desta dor comece um novo caminho.


 

Luigi Verdi
In La realtà sa di pane, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: EM_Photo/Bigstock.com
Publicado em 05.03.2020

 

 
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