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Escutar Bob Dylan

A 19 de junho saiu o mais recente álbum de Bob Dylan, “Rough and rowdy ways”, que está a fazer falar muito de si, até porque escalou imediatamente as classificações de escutas. Alguns dias antes, o cantautor prémio Nobel deu uma longa entrevista ao “New York Times” repleta de aspetos muito interessantes.

Há uma passagem em particular que, para quem trabalha, como cristão, no mundo da comunicação, não pode passar inobservada. O entrevistador pergunta-lhe sobre Little Richard, o famoso cantor falecido a 9 de maio, muito querido de Dylan, e a interrogação é porque é que não se prestou mais atenção à música gospel deste grande protagonista do panorama rock.

A resposta é muito densa: «Provavelmente porque a música gospel é a música das boas notícias, e nestes dias não tem havido nenhuma. As boas notícias no mundo de hoje são como um fugitivo, tratadas como um delinquente e postas em fuga. Castigadas. Tudo o que vemos são notícias boas para nada. E temos de agradecer por isso à indústria dos media. Estimula as pessoas. Coscuvilhices e lavagem de roupa suja. Notícias negras que te deprimem e te horrorizam».

A seguir, Dylan joga com o significado da palavra “gospel”, que indica quer o género musical, quer “Evangelho”, por isso “boa palavra, boa notícia”. «Por outro lado, as notícias do Evangelho são exemplares. Podem dar-te coragem. Podes adaptar a tua vida de acordo com ele, ou, em todo o caso, tentar. E podes fazê-lo com honra e princípios. Há teorias sobre a verdade na música gospel, mas não têm importância para a maior parte das pessoas. As suas vidas são vividas excessivamente depressa. Muitas más influências. Sexo, política e homicídio são o caminho a percorrer se queres chamar a atenção das pessoas. Excita-nos, é o nosso problema».

As boas notícias são tratadas como um fugitivo, diz Dylan, são postas em fuga; e, ao contrário, há a obstrução de notícias que deprimem e fazer horrificar, que acabam apenas por excitar para a depressão ou para a exaltação descomedida. Vem à mente a metáfora usada recentemente pelo realizador Francis Ford Coppola (nascido em 1939, Dylan é de 1941) para exprimir a sua preocupação sobre a atual produção cinematográfica: é como se a indústria farmacêutica só produzisse “Viagra” e “Valium”. Palavras duras. A vontade, portanto, é a de excitar e, ao contrário, tranquilizar, sedar. Uma esquizofrenia marcada por uma coincidência dos opostos. O cinema, como as comunicações, juntos numa operação de violenta manipulação da consciência e da sensibilidade do grande público, da massa dos espetadores e dos destinatários da informação.

Inquietante, como sempre, a palavra de Dylan, que coloca uma séria questão de responsabilidade moral para quem quer trabalhar no campo da comunicação e, ao mesmo tempo, deve anunciar uma, “a”, boa notícia. Tenho de escutar de novo o seu novo álbum, especialmente a faixa intitulada “False prophet”, parece que estamos cercados por eles, como, aliás, em todas as épocas históricas.


 

Andrea Monda
Diretor do L'Osservatore Romano
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Bob Dylan | D.R.
Publicado em 02.07.2020

 

 
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