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Estátua do Padre António Vieira: «Retrato superficial», «não tem qualidade estética que a absolva»

Transmitir mais espessura e densidade, destacar outras vertentes, porventura mais significativas para a contemporaneidade: estas são algumas das perspetivas suscitadas ao padre João Sarmento e ao curador Paulo Pires do Vale pela escultura do Padre António Vieira, em Lisboa.

A imagem voltou a ganhar relevância quando, em junho, na sequência dos múltiplos protestos ocorridos em várias partes do globo por causa da morte, nos EUA, de George Floyd, às mãos de polícias, apareceu pichada de vermelho, com a palavra “Descoloniza”.

«Qual é a forma como desejamos este homem sem sermos anacrónicos?»; «não podemos absorvê-lo na totalidade. Todas as personagens são incoerentes. Este homem não é um santo da Igreja», reflete o religioso jesuíta, morador na comunidade situada no mesmo edifício da Brotéria, de onde se avista o Largo Trindade Coelho e a estátua do escultor Marco Fidalgo.

As inquietações de João Sarmento, escultor, desenhador, sucedem-se na reportagem que Isabel Salema assina este sábado no “Público”, na qual revela a intenção de o centro cultural querer organizar um debate sobre a representação do Padre António Vieira.



«Os símbolos são polissémicos e trazem cargas muito fortes que podem enaltecer ou rebaixar. Este é um retrato superficial da figura. Remete para uma moralidade de ação, e nós queremos a profundidade do texto»



No projeto do jesuíta que participou no concurso público lançado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa para a realização da estátua, o debate poderá centrar-se em três interrogações: «O que é um monumento numa cidade? O que é fazer um monumento a uma figura sem a moralizar? Como é que o coletivo recria os seus símbolos?».

«Se nenhuma iconografia diz a biografia toda, esta diz uma percentagem muito reduzida da personagem. Ainda por cima, uma parte pela qual ela não é querida agora. Queremos agarrar na literatura e no passado e forçá-los a uma atualização, ou queremos percebê-los com os olhos de hoje, com a nossa cultura contemporânea?», questiona.

Sobre a escultura, que já tinha sido visada em 2017 pelo movimento Descolonizando, João Sarmento declara: «Os símbolos são polissémicos e trazem cargas muito fortes que podem enaltecer ou rebaixar. Este é um retrato superficial da figura. Remete para uma moralidade de ação, e nós queremos a profundidade do texto».

Para Paulo Pires do Vale, «pensar que uma imagem é neutra, que fixa uma história verdadeira e inalterável, é não perceber que é sempre uma representação interpretável». E acrescenta: «Essa falta de capacidade de prever a dissensão é o problema político desta estátua que vive na polis. A imagem está carregada de símbolos que não foram acautelados».



Quem critica a escultura tem de ser, inevitavelmente, detrator da personalidade evocada? «Sou um admirador do Padre António Vieira. A imagem não é a coisa»



O professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica interpela: «Faz sentido no século XXI um evangelizador de crucifixo na mão? A pichagem põe em causa uma memória coletiva e a forma como Vieira tem vindo a ser contado».

O filósofo não rejeita que «a intenção pode ter sido ótima», mas faz sobressair «a ideia benevolente de que não evangelizámos ou colonizámos como os outros». Além disso, «não tem qualidade estética que a absolva».

Quem critica a escultura tem de ser, inevitavelmente, crítico da personalidade evocada? «Sou um admirador do Padre António Vieira. A imagem não é a coisa», aponta Paulo Pires do Vale.

Isabel Salema consultou o processo do concurso de conceção da estátua, e revela que a proposta vencedora obteve a nota de 62,25%, abaixo da classificação de bom.

O jurista Miguel Lobo Antunes, uma das pessoas consultadas neste trabalho, considera que o prémio, à luz do regulamento, tinha de ser atribuído, mas não era imprescindível a aprovação, quer da Misericórdia, quer da Câmara Municipal, da construção e instalação da estátua.

Marco Fidalgo afirma que pensou «numa figura inserida num conjunto, que marcasse o lado crítico de Vieira face aos ideais do sistema da altura. Que colocasse Vieira em pleno uso e ação da sua palavra crítica».

«Na representação que apresento, a figura do índio em nada surge inferiorizada, rebaixada ou subjugada», antes, é «elevado à sua dimensão mais generosa e sincera, representado por rês figuras "maiores", três crianças», defende o escultor.


 

Rui Jorge Martins
Fonte: Público
Imagem: © Nuno Fox/Expresso
Publicado em 18.07.2020

 

 
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