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Estética e teologia, o sensível e o inesperado

O mais recente trabalho do teólogo italiano Pierangelo Sequeri, diretor do Instituo Pontifício João Paulo II, “Il sensibile e l’inatteso. Lezioni di estetica teológica” (“O sensível e o inesperado. Lições de estética teológica”), da editora Queriniana, representa um importante contributo para o repensamento e a renovação da teologia desejadas pelo papa Francisco na “Veritatis gaudium”. A complexidade e riqueza do pensamento do conhecido teólogo milanês insere-se no seu plurianual percurso de investigação, dirigido ao reatamento teológico da relação entre o “lògos” e o “pàthos”, a razão e os sentimentos, que durante demasiado tempo cresceram de maneira paralela e assimétrica.

A estética teológica, para Sequeri, não é primariamente para entender como uma reflexão sobre arte sacra. Mais amplamente, trata-se de recuperar a dimensão afetiva, estética em sentido percetivo, como constitutiva do saber teológico, para evitar as derivas racionalistas ou irracionais que conduzem a uma ausente integração entre a razão e os afetos, que têm a sua sede na sensibilidade. Se nos últimos anos a teologia seguiu, sobretudo, «a instância iluminista da razão, aceitando-lhe – ainda que em oposição à sua inclinação imanentista e naturalista – o plano da argumentação, agora já não pode evitar um confronto igualmente denso com a questão romântica», portadora das razões dos afetos e da sensibilidade.

Este confronto é particularmente urgente na nossa época, que vê o triunfo cultural da perceção, como denuncia lucidamente Sequeri: «A estetização contemporânea do mundo emerge em primeira instância como um triunfo do “esse est percipi”: existir significa o ser percecionado, e decide-se no conjunto das sensações e dos sentimentos que nos tocam».



Para superar o fundamento inafetivo do ligame entre o espírito e a carne, o “lògos" e o afeto, é preciso repensar o «lugar-não lugar do nascimento, tema não muito aprofundado pela teologia



No nosso mundo, a excedência das imagens arrisca anestesiar a emergência do pensamento. Por isso, é preciso recuperar um lugar fenomenológico e teológico que permita redescobrir o fundamento da dimensão estética sem mortificar a racional. Retomando a lição de Hans Urs von Balthasar, Sequeri argumenta em favor de uma ressurreição teológica do estético capaz de não permanecer embrenhada nas malhas da finitude, e, ao mesmo tempo, que saiba mostrar uma sensibilidade segundo o Espírito. A carne como lugar da humanidade e o Espírito como presença do divino na história não são opostos e irredutíveis um ao outro. A sua harmoniosa união é o lugar fenomenológico no qual se pode pensar «a irredutível espessura ético-afetiva do ser-pessoal». Para chegar a esta recuperação, é precisa a reapropriação de uma reflexão sobre as forças que regem a vida, que uma certa teologia relegou para as ciências da natureza, empobrecendo-a.

Na tradição cristã, o Espírito foi sempre entendido precisamente como uma força que anima a vida em todas as suas formas. A par disto, o segundo momento do itinerário delineado consiste na recuperação da dimensão da intersubjetividade da consciência, tal como autores do calibre de Lévinas a descreveram. Para superar o fundamento inafetivo do ligame entre o espírito e a carne, o “lògos" e o afeto, é preciso repensar fenomenologicamente o «lugar-não lugar do nascimento, (…) um tema não muito aprofundado pela teologia: frequentemente tocado, logo abandonado».



Seja recuperada e valorizada a intuição que nos indica na geração a relação fontal da relação entre o Pai e o Filho, tocando assim um núcleo central da identidade do Deus trinitário, no qual «dar-vida é o sentido mais radical de ser vida; a afeição em ato que lhe corresponde é o fundamento intranscendível de toda a justiça possível do ser»



Só na relação do saber-se querido e amado na geração, o pequenino que entra no mundo pode desenvolver uma plena consciência de si, para depois viver com plenitude e em liberdade os seus afetos. A geração é um efeito sem causa no sentido em que é portadora de uma misteriosa e originária germinação do afetivo como do noético. A tarefa de repensar em profundidade esta relação para a teologia não deveria resultar particularmente difícil, tendo em consideração o facto que já o símbolo [credo] niceno põe sob este prefixo, o Filho em relação ao Pai, ao afirmar que o primeiro foi «gerado, não criado».

Este tema, desaparecido desde o início da história da espiritualidade cristã, com o seu precioso corolário do papel de mediação humana divina de Cristo na própria criação do homem e do mundo, foi progressivamente perdido, em favor de uma teologia mais assética das processões intratrinitárias e da progressiva estranheza entre Cristo e a criação.

Seja, ao contrário, recuperada e valorizada a intuição do concílio niceno, que nos indica na geração a relação fontal da relação entre o Pai e o Filho, tocando assim um núcleo central da identidade do Deus trinitário, no qual «dar-vida é o sentido mais radical de ser vida; a afeição em ato que lhe corresponde é o fundamento intranscendível de toda a justiça possível do ser». Na Trindade encontra-se assim em ação aquela matriz generativa, que no símbolo e na imagem é reproposta na geração humana, que assume assim um valor inesperado.

Se é verdade que a geração da parte de Deus do homem e da mulher à imagem e semelhança precede a geração do homem através do tornar-se uma só carne, é igualmente verdade que «a estrutura da “geração” mostra claramente que contém a potência inclusiva de um princípio (melhor, do princípio) radical do dar a vida, no modo pessoal do querer bem, que abraça circularmente níveis de efetividade profundamente distintos, e todavia ligados à participação do su eterno arquétipo: que é a geração do Filho».


 

Marco Tibaldi
In L'Osservatore Romano
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: paul shuang/Bigstock.com
Publicado em 05.02.2020

 

 
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