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Fátima: Aonde vais, aí sentado em casa?

Em Fátima tudo se transforma. Começa sempre por fixar uma figura que apenas nos olha e escuta. E a primeira resposta é o nosso silêncio. É um momento de contemplação. E se formos à vida dos grandes místicos, compreendemos que estamos perante uma espécie de visão, sem discurso nem explicações, mas como quem mergulha num templo e por ele se deixa possuir. Contemplar é mais que olhar a chuva por dentro da janela, a linha do horizonte ou o bater das ondas do mar. É suspender tudo para apenas sentir a proximidade de Deus. É uma graça que Deus nos concede. E Fátima, longe ou perto, pode proporcionar-nos esse momento. Como diante duma linha de luz que nos extasia, nos produz um estremecimento e transporta a um infinito que nem os olhos veem nem os ouvidos escutam.

Aí podemos sentir resumida a nossa vida, de longe e de perto. Aí se contam as nossas mágoas e alegrias. Aí se percebem caminhos mal andados e gestos que só por si tornaram viva a mensagem de Fátima. Aí os sinais simbólicos falam mais alto que todos os nossos estreitos dizeres. Quem poderá descrever o mistério que aqui acontece? Neste alpendre simples cabem todos. A qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer dia do ano, aqui se pode vir dizer e escutar um segredo, um estímulo, um reparo, um apelo a uma vida nova. Aqui renascem esperanças, se organizam planos de conversão, se comprometem vidas, se acendem luzes, se apagam rancores. Aqui não é possível não ser verdadeiro. Seja qual for a nossa idade ou a nossa carga cultural ou o nosso lugar na sociedade, somos simplesmente crianças, como foram crianças Lúcia, Francisco e Jacinta.

 

No vazio, a incontável multidão de corações

Ser peregrino é viver a riqueza da comunidade, nas orações da liturgia, nas preces populares, nos cânticos sem características corais de concerto, mas registados na alma durante decénios, ou gostosamente aprendidos como melodias de simplicidade e beleza, adequados a um grande recinto. Há compo­sitores que dariam a sua vida para serem autores de melodias quase insignificantes, mas, de tão simples, permitem que todo o povo as entoe e com elas vibre. Como – diz-se – Mozart trocaria toda a sua obra por uma pequena melodia gregoriana.

A voz faz comunidade e esse todo é levado a milhares de milhões de pessoas que, pela rádio, tele­visão ou internet, estabelecem sintonia com Fátima.

É sempre inumerável a quantidade de peregrinos que te fala, canta e profere os teus louvores de alma inteira, distante das preocupações de cada dia.

Ninguém aqui está só. Cada orante multiplica-se por muitos outros que traz no coração.

Hoje é como um dia eterno onde ultrapassamos o tempo.

Aqui estamos todos só para isto
só para ti, para teu Filho, e para todos,
presentes ou ausentes, bons ou maus,
crentes ou indiferentes.
Não quero perder a sedução de me unir
a quem canta ao meu lado
e envolver a minha voz
neste som áspero ou doce de multidão.
Que o Senhor nos ouça.
É a nossa súplica redobrada,
a nossa gratidão incontida
que se envolve na serra,
nesta abóbada incomensurável
que ecoa vozes vindas de tantos pontos do mundo
de forma viva, convicta, participativa,
comunitária.

Sinto a alma apaziguada.
Vejo o mundo a uma distância de neblina
que só o regresso ao quotidiano clarificará.
Sinto próximo este milagre em Fátima
ao ligar os dois mundos para além de tudo:
o que me concede o privilégio de ser peregrino,
quer esteja em dia de recinto deserto,
ou com o grupo familiar, paroquial,
de movimento, com os que vêm a Fátima
celebrar o seu domingo,
os que chegam – mesmo sem vontade –
porque os pais pediram, os que, anónimos,
se enquadram nesta mole humana
e cujo nome certo é comunidade.
É assim que te rezamos, com o nosso nome
e a nossa história,
mas com a nossa pertença ligada
à grande família humana
e aos que foram pelo Batismo marcados
com o sinal da fé
e aqui a expressam de forma tão intensa.
Não permitas que deixemos passar
este tempo de graça.

 

Chegar, recomeçar

Uma peregrina­ção nunca tem o último capítulo, o último passo, a última prece. É sempre um reco­meço de outra peregrinação, a subida da montanha no nosso dia a dia, passado o fervor da experiência profunda de fé que Fátima nos proporciona. (…)

A marca profunda que nos chegou à alma não se apaga. É o que sustenta a nossa esperança e nos reconforta nos novos desafios da fé e da vida. Vamos a isso. Cristo e a Virgem também estão no lado de lá, no que agora nos parece o mundo. «Vasto mundo, nosso mundo» é uma caixa de surpresas admirável e, em muitos lugares, podemos repetir a experiência da comunidade, da oração, da beleza e da alegria nou­tros tons. É o nosso lugar de combate. Não há tempo a perder. Há tempo a viver.

Por isso a «prece final», que cantamos no Adeus à Virgem, não perde o seu eco. Vai acompanhar os no­vos recantos que nos esperam.


 

Cón. António Rego
In Fátima - Sou peregrino, ed. Paulinas
Imagem: faber1893/Bigstock.com
Publicado em 13.05.2020

 

 
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