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Rumo ao amor, dia 37: Fidelidade

Todas as manhãs, antes das seis, começo a escrever, e assim fico por uma hora, produzindo uma página, por vezes um par de frases, ou nada de nada; e ainda assim sinto que tenho de estar ali.

As palavras têm uma vida, têm necessidade de ar, de luz, de movimento para amadurecer, crescer e tornar-se fecundas. A fidelidade verdadeira vigia, espera o seu momento, exige uma duração, um permanecer “até ao fim”, um perseverar e permanecer nos confins da noite, até que se abra uma espiral de luz.

A fidelidade é o abraço entre o teu modo de ser e a direção do caminho que empreendeste, exprime-te a ti próprio e confirma quem és.

Confiamo-nos aos outros sem garantias nem condições, só porque acreditamos neles. A traição é logro da confiança, é mentira, é a ligeireza superficial de Judas, que não pensava fazer verdadeiramente o mal a Jesus. Cada um de nós e a seu modo leviano, a seu modo vaidoso, a seu modo traidor dos afetos mais sagrados, dos mais ardentes deveres. Cada um de nós tem em si aquele eterno Judas que só nós morrerá, porque connosco nasceu.

Hoje acontecem relações de amor que não são só boas relações, mas uma aliança, um prometer o futuro. Não há nada de mais precioso do que a capacidade de se conservar junto de uma outra pessoa: porque é a vida que dura desafiando o tempo, as dores e a morte.



Faltam testemunhas que não aprisionam Deus no seu conceito de omnipotência, que não o desfiguram erigindo-o como justiceiro implacável, mas que cultivam paciência e vigilância



Para mim, fidelidade é o conjunto de paciência e resistência.

Uma paciência que no decurso dos dias e das horas monda o coração, dá-lhe uma doçura e uma suavidade que aos poucos se desfolha e constantemente renasce. Uma paciência que não se adequa à dor, mas governa-a, sabe esperar, não se deixa vencer pela tristeza. E, ao mesmo tempo, uma resistência que remove os obstáculos e enfrenta as dificuldades, capaz de saber aguentar até ao limiar do invisível.

Os amores vivem se se tornam história, isto é, longa fidelidade alimentara por uma resistência que faz amadurecer situações, valores, e prepara alguma coisa.

Fidelidade quer dizer ser-se, estar à porta, onde os espaços são abertos.

Faltam hoje testemunhas fiéis que não só criaram coisas novas e originais, mas que foram para além da superficialidade e entraram dentro das coisas e da vida. Testemunhas que não aprisionam Deus no seu conceito de omnipotência, que não o desfiguram erigindo-o como justiceiro implacável, mas que cultivam paciência e vigilância.

É bela a fidelidade ao caminho do ser humano de Jesus ressuscitado, que se aproxima dos discípulos de Emaús, faz-se companheiro de viagem, interessa-se pelas suas vidas, deixa-os livres para escolher fingindo que seguia por diante, e só no fim parte o pão com eles.

É bela a fidelidade de Rute com Noemi quando diz: «Não insistas para que te deixe,
pois onde tu fores, eu irei contigo e onde pernoitares, aí ficarei».

Admiro-me sempre que quem permanece fiel à vida é sobretudo quem deveria “enjoar-se” dela, como diz Santa Catarina de Sena; quem esmagado pela dor em vez de a maldizer, a sabe acolher.

A fidelidade passa através do corpo, no saber voltar a gerara vida por dentro, tornando-a forte e humilde.

A fidelidade a si e ao outro é a capacidade de conservar e guardar, é amor que precisa de tempo para crescer, de promessas a manter, de escolhas que têm preço.

Na dúvida é preciso optar por se ser fiel, porque mesmo quando as coisas parecem não mudar, mesmo se tudo parece continuar como antes, quem é fiel perscruta o horizonte, pressente o ar, lança a semente, e o sonho de futuro está todo dentro desta minúscula ocasião que pode fazer do relâmpago uma claridade, da centelha uma luz.


 

Luigi Verdi
In Il domani avrà i tuoi occhi, ed. Romena
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Andres Conema/Bigstock.com
Publicado em 03.04.2020

 

 
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